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Paisagem: pelo o direito de sonhar.

Por edicao·
Paisagem: pelo o direito de sonhar.


“Tudo flui”. Esta é uma velha afirmação de Heráclito, pensador grego e um dos mais
influentes nomes da filosofia ocidental. Se aplicarmos essa ideia à compressão de como os
espaços têm se transformado profundamente no curso do tempo, daremos toda a razão à citação.
Para bem ou para o mal, o progresso é uma espécie de rolo compressor que fulmina as velhas
expectativas criando outras, impactando diretamente o modo de ser e de se estar nos diferentes
contextos de produção de existência.
Como humanos, nossas respostas nem sempre se condicionam à força externa. Há em
cada indivíduo algo de intrínseco que resiste à total assimilação de seus modos de vida, mesmo
que, à luz do grande capital, essas manifestações soem como antiquadas. Não é possível, dessa
forma, falar em organização dos espaços sem antagonizarmos certas personagens: de um lado,
a frieza dos investidores que enxergam apenas o lucro de seus empreendimentos; de outro, a
história humana impregnada nos espaços.
Um sabido desconforto.
A vida nas cidades tem se mostrado cada vez mais precária em função de uma
configuração caótica e do fluxo excessivo de veículos, fumaças, poluição das águas,
alargamento de vias, entre outros fatores. É como se o Estado, para atender a uma demanda
cada vez mais crescente de consumos inadequados dos recursos naturais, “ampliasse a oferta”
desses recursos para acomodar as exigências da população para compensar o alto custo dos
impostos pagos. Dito de outra forma, o Estado, aliado de uma política desenvolvimentista que
se camufla de discursos de sustentabilidade, já não pode mais esconder que age diretamente na
desfiguração dos espaços, pondo em segundo plano o significado dos mesmos no tocante a um
projeto de vida mais alinhado com uma perspectiva de equilíbrio entre o indivíduo e o meio.
Assim, prédios são construídos em áreas cada vez menos adequadas, justificando-se tal
empreendimento pela política da oferta de serviços para “atender às demandas da sociedade” e
trazer “mais assistência” à população. Será? Quando um grande shopping center é construído
em um centro histórico, devastando uma vila inteira de casarões antigos, ou em uma grande
área verde com um lago, é realmente de assistência de que estamos falando?
O poder do ambiente.
Desde que a tecnologia tem assumido o controle, influenciando as decisões humanas e
otimizando (tsc) processos, parece não ser mais relevante falar em vivências significativas.
Tudo parece estar subsumido, como diria o filósofo alemão Hegel, à ideia de emancipação que
se dá cada vez mais à luz de uma abstrata noção de progresso, vinculada ao grande capital
financeiro. Tornamo-nos, todos, reféns da “eficácia” por meio de uma equação simplória: mais
serviços = mais qualidade. É como se vivêssemos todos dentro de um aplicativo de celular:
quanto mais recursos ele pode oferecer, mais qualidade ele possui. Será mesmo que essa regra
é verdadeira para as pessoas?
Os seres humanos evoluíram de forma sui generis a partir de um longo processo de
adaptação e “saltos” que os fizeram chegar ao topo de uma hierarquia entre os seres, mas isso
não quer dizer que somos “os melhores”. A natureza é diversa e emprega diferentes modos de
equilíbrio para a vida de suas criaturas, pois é na qualidade do meio que o cerca que ele pode
extrair o máximo de suas potencialidades. Assim, cada ser é perfeito dentro do seu ambiente.
A falsa ideia moderna de que o homem figura no centro das coisas e que tudo que existe é para
a sua máxima fruição é apenas um precedente egoísta baseado em um profundo
desconhecimento da natureza e das reais necessidades dos seres, provando sua fraqueza
argumentativa em um cenário de devastação e total ineficácia da criatura humana em lidar com
tal responsabilidade.
Hoje em dia, nem mesmo uma criança acreditaria que a natureza teria sido criada para
o homem (pelo menos, para esse aí que conhecemos) devido à tamanha falta de compromisso
em relação ao meio ambiente. Estamos tão distantes de encontrar um ponto de acordo com o
outro e com o mundo em nossa volta que uma tal afirmação soaria estranha hoje ao maior dos
otimistas. Por outro lado, se no campo das ideias as coisas podem ser diferentes, é possível
sonhar com uma relação mais harmoniosa e, para isso, não precisamos recorrer às utopias de
antigamente, como uma República ideal estilo Platão ou uma sociedade comunista, o que, aliás,
apenas se reverte em ditadura na prática: podemos apenas começar mudando a forma como os
espaços têm sido tratados. É daí, talvez, que poderá surgir um novo conceito de emancipação
humana, radicado fundamentalmente na compreensão de que os espaços compõem vivências
concretas e impactam a qualidade de vida das pessoas.
Qualidade de vida para uma vida significativa
Quando faço uma viagem, gosto de observar como as pessoas se portam ali: a relação
com as dependências do local, a frequência do som das vozes, a agitação dos corpos, a relação
com os conhecidos, etc. Tudo isso, para mim, demonstra que há algo na própria qualidade das
comunidades humanas que as distinguem umas das outras. O que chamo por “qualidade” não é
de modo algum precedente para afirmações sobre aspectos históricos que inerem na definição
de uma comunidade de povos. Penso na cultura como o resultado da forma como o indivíduo
se percebe no espaço que habita e das trocas que realiza com esse meio. São os seres humanos
individualmente que formam as ideias sobre o meio, aplicando a si e ao espaço que vivem
valores únicos e inegociáveis.
Quando essa formação subjetiva, que lentamente se processa no interior dos sujeitos é
interrompida por um novo prédio que ocupará um pedaço importante do espaço habitado, é
como se minasse uma parte a história interna daquela população, impactando diretamente a
produção de sentidos que marcam o desenvolvimento intelectual e sensível de uma
comunidade: o que antes havia sido lago onde se dizia ser visitado por algum ser que teria dado
o nome de uma cidade, compondo seu folclore, não passa agora de uma fábrica que produz
artigos com borracha vulcanizada.
Pode ser que essas coisas não interessem aos governos quando impulsionam a venda de
somas e somas de espaços habitáveis, pois folclore, como cultura, não assume qualquer valor
diante de fábricas de borracha vulcanizada ou postos de gasolina. Ademais tudo que existe em
uma sociedade é instrumentalizado e com a cultura não é diferente. Contudo, enganam-se
aqueles que acreditam poderem tratar a cultura como um sapato ou um carro. Os seres humanos
são seres de cultura porque só são humanos em razão dela. Se um gaúcho ou um paraibano
precisam de um edital do governo com regras fixas para definirem seus valores, estes já
deixaram de ser parte de sua forma de ser e de se encontrar.
A formação dos valores de um povo, portanto, vai muito além de uma mera “contação
de suas histórias”. Ela está entranhada em sua visão a todo momento alimentada pela
persistência dos espaços e dos “pontos de sentidos” que darão aos habitantes uma forma única
de se conhecerem e levarem adiante seus valores. A riqueza de uma comunidade, portanto, é a
preservação, pela materialidade, de seu “patrimônio invisível”, pois não são as coisas em si
próprias que se defendem, ainda que isto se justifique, mas o direito de que existam enquanto
mantenedoras concretas do direito que assiste aos povos de darem a si um sentido próprio. Em
suma, defender a manutenção dos espaços é defender o direito à poesia.

Autor:

Adriano Bittencourt é escritor e pós-doutorando em Literatura Comparada na Universidade
Federal do Ceará. Instagram: https://www.instagram.com/adri_anobittencourt/.

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