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O que ninguém conta sobre transformação digital em operações complexas

Por edicao·
O que ninguém conta sobre transformação digital em operações complexas

A transformação digital costuma ser associada a novas plataformas, automações e tecnologias de ponta. Mas, nas operações complexas, ela começa em um lugar menos visível: na capacidade da empresa de organizar processos, informações e responsabilidades para tomar decisões confiáveis, em tempo contínuo.

Em setores como logística, infraestrutura e gestão de resíduos, digitalizar não significa apenas implementar ferramentas. Significa estruturar a operação para que dados façam sentido ao longo de toda a cadeia. Quando isso não acontece, a empresa pode até aparentar modernidade, mas continua operando no escuro, cercada por informações, porém sem clareza para agir.

O principal erro está em tentar resolver com tecnologia problemas que, na essência, são estruturais. Muitas organizações operam com áreas desconectadas, indicadores conflitantes e fluxos que perdem consistência a cada etapa. O resultado é uma operação cada vez mais difícil de compreender, mesmo quando continua funcionando. Nesse cenário, a gestão passa a reagir aos problemas em vez de conduzir a estratégia.

Segundo um estudo da Beanalytic, 78% das empresas brasileiras ainda não conseguem transformar dados em decisões estratégicas, e apenas 22% atingem níveis considerados “Competitivo” ou “Maduro” em maturidade analítica. Nesse sentido, a mudança acontece quando a empresa redefine o ponto de partida da transformação. Antes da plataforma, vem o desenho dos fluxos. Antes do dashboard, a definição do que realmente precisa ser medido. Antes da automação, a clareza sobre quem decide, em que momento e com base em quais dados. E, acima de tudo, antes da tecnologia, estão os processos bem estruturados e as pessoas posicionadas de forma estratégica.

É nesse estágio que a informação deixa de ser apenas registro operacional e passa a gerar conhecimento para a transformação. Quando os processos são desenhados para produzir dados consistentes desde a origem, a empresa conquista algo raro: capacidade de antecipar desvios, corrigir rotas rapidamente e aprender com a própria operação enquanto ela acontece.

Ferramentas como CRM integrado à operação, ERP conectado à execução em campo, torres de controle e aplicações de inteligência artificial ampliam essa capacidade. Mas nenhuma delas cria eficiência sozinha. Elas funcionam quando apoiadas por um desenho organizacional coerente, no qual a operação é estruturada para produzir dados relevantes, e não apenas alimentar sistemas administrativos.

A agenda ESG tornou essa disciplina ainda mais necessária. Demandas por rastreabilidade, comprovação de destinação e mensuração de impacto exigem operações capazes de garantir consistência e transparência. Sem uma base digital sólida, sustentabilidade se torna apenas discurso.

Existe ainda um efeito pouco discutido nos projetos de transformação digital: a redução da ambiguidade. Processos mais estruturados diminuem exceções, tornam divergências mais visíveis e aumentam a previsibilidade da operação. Embora isso possa gerar desconforto inicial, cria algo valioso em ambientes complexos: capacidade de escala com consistência.

Quando a maturidade digital é alcançada, a tecnologia deixa de ser protagonista. Continua presente, sofisticada e integrada, mas passa a operar como infraestrutura silenciosa. O foco muda: sai a discussão sobre sistemas e entra a qualidade das decisões e a consistência dos resultados.

Talvez esse seja o verdadeiro sinal de transformação digital bem-sucedida. Não quando a empresa fala sobre tecnologia o tempo todo, mas quando consegue explicar uma operação complexa de forma simples, clara e previsível. 

Autor:

Marcelo Kotaki é CIO do Grupo Multilixo, ecossistema de soluções em gestão de resíduos e economia circular, líder no Estado de São Paulo. Na companhia, conduz a estratégia tecnológica, promovendo a evolução da arquitetura, a integração de sistemas corporativos críticos e o fortalecimento de uma cultura data-driven em operações complexas.

Formado em Ciência da Computação, construiu carreira como executivo de tecnologia à frente de projetos de alta complexidade, entre eles a liderança da maior integração tecnológica do varejo da América do Sul, durante a fusão entre BIG e Carrefour. Ao longo da carreira, passou por empresas como Arcos Dorados (McDonald’s), Petz e TOTVS e, em 2025, foi reconhecido pelo programa TOP 50 Executivos de Destaque, da 7th Experience.

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