Sensibilidade, desgaste e pequenas fraturas podem indicar alterações que comprometem a saúde e a qualidade de vida

A primeira impressão costuma ser atribuída ao sorriso. Mas o que pouca gente imagina é que ele pode revelar muito mais do que simpatia ou autoestima. Em alguns casos, alterações aparentemente discretas podem ser os primeiros indícios de um envelhecimento precoce da arcada dentária, condição que especialistas observam com frequência crescente nos consultórios.
Se no passado dentes desgastados eram associados principalmente à terceira idade, hoje homens e mulheres ainda na faixa dos 30 e 40 anos já apresentam sinais que merecem atenção.
Para compreender melhor esse fenômeno, conversei com o cirurgião-dentista Dr. Nefton Abrão, especialista em Reabilitação Oral e em Envelhecimento Precoce da Arcada Dentária.
Segundo ele, um dos maiores equívocos é acreditar que todas as mudanças observadas nos dentes fazem parte do processo natural de envelhecimento.
“Envelhecer é inevitável. Entretanto, o desgaste excessivo e acelerado dos dentes nem sempre deve ser considerado normal. Em muitos casos, estamos diante de fatores que podem ser identificados e tratados precocemente”, explica.
Um problema que não escolhe idade ou profissão
A professora que corrige provas até tarde da noite. O empresário submetido a uma rotina intensa. O médico que acumula plantões. O estudante universitário que dorme pouco. A dona de casa que vive sob tensão constante.
Apesar das diferentes histórias, as dúvidas são semelhantes.
Por que os dentes parecem menores?
Por que a sensibilidade aumenta com o passar dos anos?
Por que algumas pessoas apresentam rachaduras e retração gengival mesmo mantendo bons hábitos de higiene?
De acordo com Dr. Nefton Abrão, diversos fatores podem estar envolvidos.
“Bruxismo, estresse, alterações na mordida, doenças periodontais, refluxo gastroesofágico e hábitos alimentares inadequados estão entre as causas mais frequentes.”
A ausência de dor pode ser enganosa
Uma das descobertas que mais surpreendem os pacientes é que grande parte das alterações bucais evolui de maneira silenciosa.
“Muitas pessoas acreditam que, se não há dor, não existe problema. Isso não é verdade. Frequentemente, os sintomas aparecem apenas quando o desgaste já se encontra em estágio mais avançado”, afirma o especialista.
Essa característica faz com que consultas preventivas continuem sendo uma das principais ferramentas para preservar a saúde bucal.
Estresse e ansiedade também deixam marcas na boca
Pouca gente associa emoções à saúde dos dentes.
Entretanto, o bruxismo — caracterizado pelo apertamento ou ranger involuntário dos dentes — vem sendo apontado como um dos principais responsáveis pelo envelhecimento precoce da arcada dentária.
“Muitos pacientes desconhecem completamente que apresentam bruxismo. Alguns procuram atendimento por causa de dores de cabeça, desconforto na mandíbula ou sensibilidade dentária, sem imaginar que esses sintomas podem estar relacionados à sobrecarga exercida sobre os dentes”, observa Dr. Nefton Abrão.
Muito além da aparência
Embora a estética seja importante, os especialistas reforçam que a saúde bucal está diretamente ligada à qualidade de vida.
Mastigação adequada, nutrição, fala, conforto e autoestima fazem parte de um conjunto que influencia o bem-estar físico e emocional.
“A boca não pode ser analisada isoladamente. Ela faz parte do organismo como um todo. Cuidar do sorriso é também investir em saúde”, destaca o especialista.
Sinais que merecem atenção
Algumas alterações não devem ser ignoradas:
- sensibilidade frequente;
- sangramento gengival;
- retração da gengiva;
- desgaste dos dentes;
- pequenas fraturas;
- dores na face ou na mandíbula;
- estalos ao abrir a boca;
- dificuldade para mastigar.
Quanto mais cedo essas manifestações forem investigadas, maiores tendem a ser as possibilidades de tratamentos conservadores.
É possível envelhecer sem perder a qualidade do sorriso?
Para o Dr. Nefton Abrão, a resposta é positiva.
“Hoje sabemos que é perfeitamente possível chegar à maturidade e à terceira idade preservando dentes naturais e qualidade mastigatória. A prevenção continua sendo a melhor estratégia.”
Ao final da entrevista, uma pergunta parece resumir a principal lição deixada pelos especialistas.
Talvez a questão mais importante não seja quantos anos têm os nossos dentes.
Mas sim quanto cuidado temos dedicado a eles.
Autor:
Thiago de Moraes
Jornalista – MTB 0091632/SP
Entrevista concedida pelo Dr. Nefton Abrão, cirurgião-dentista, especialista em Reabilitação Oral e em Envelhecimento Precoce da Arcada Dentária.