Educação infantil como investimento

A educação infantil como investimento lucrativo tem origem nas pesquisas do economista James J. Heckman, prêmio Nobel de Economia em 2000. Seus estudos mostram que uma pré-escola de alta qualidade na primeira infância produz efeitos duradouros: melhor desempenho educacional, maiores rendimentos ao longo da vida, melhores indicadores de saúde e menor envolvimento com a criminalidade. Em termos econômicos, esses impactos se traduzem em retornos estimados entre 7 e 16 vezes o valor investido.
As análises também apontam para taxas anuais de retorno que podem chegar a 13% por criança, considerando ganhos individuais e benefícios sociais ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de uma estratégia economicamente sólida para qualquer nação. Mas de que educação infantil estamos falando? Como devem ser a creche e a pré-escola para gerar efeitos tão expressivos?
Até os 6 anos, o cérebro infantil produz muito mais sinapses do que o adulto, o que torna decisiva a qualidade das interações e do brincar nesse período. É preciso distinguir a brincadeira espontânea da intencional e guiada. Embora o brincar livre seja essencial, a educação infantil deve priorizar atividades que estimulem a organização do pensamento, a linguagem, a consciência corporal e a reflexão. Essas práticas exigem intencionalidade e confiança na capacidade cognitiva das crianças. O olhar da professora é crucial; faz toda a diferença.
A pré-escola deve oferecer experiências que muitas crianças não têm em casa. O contato regular com a música, alternando as simples com as mais complexas e instrumentais, amplia a sensibilidade ao pensamento simbólico. Associada à expressão corporal, tão natural na infância, essa prática combinada desenvolve a coordenação motora, a abstração matemática e a sensibilidade às formas de expressão dos sentimentos.
O manuseio de livros e a leitura compartilhada devem integrar a rotina diária. Brincadeiras orais com rimas, cantigas tradicionais, canto e movimento estimulam a consciência fonológica, base para as etapas seguintes da aprendizagem. O pensamento científico é cultivado por meio da observação da natureza, do manuseio de elementos como folhas e pedras e da conversa sobre suas características. Articular essa exploração da natureza a uma produção artística sobre a experiência ampliará o efeito da reflexão. As artes plásticas, como forma de expressão, são fundamentais nessa idade. Também é essencial reservar tempo e um ambiente propício para a brincadeira do faz-de-conta, que desenvolve empatia, resolução de problemas e autoconhecimento.
Há ainda o brincar livre em espaços externos, com formas e materiais variados (não necessariamente parquinhos convencionais) e desafios físicos que ampliem as experiências corporais. Por fim, as tarefas de autonomia, como servir a própria água e varrer os farelos do lanche, treinam o foco, a motricidade e a colaboração. Quem não gostaria de voltar à infância para vivenciar uma educação infantil assim? Dar às nossas crianças essa oportunidade na escola pública é garantir um futuro melhor para todos.
Com a recente divulgação do novo Plano Nacional da Educação, o Brasil finalmente incorpora as recomendações da ciência da leitura e da aprendizagem desde a base. Nosso papel agora é cobrar que as prefeituras garantam a estrutura e a formação necessária. Apoiar a educação infantil hoje é aplicar o que a neurociência ensina para colher, no futuro, uma geração de cidadãos competentes e responsáveis.
Autora:
Lara Pozzobon da Costa
Doutora em Literatura e pesquisadora bolsista da FAPERGS