O Boom das proteínas: alta no consumo impulsiona tendência alimentar e acende alerta para excessos

Influência das redes e aumento do consumo dos produtos proteicos no Brasil acendem alerta médico sobre riscos e excessos da suplementação, especialmente entre crianças
A recente declaração da influenciadora fitness Carol Borba de que oferece suplementos como whey protein e creatina à própria filha, ainda criança (3 anos de idade), reacendeu um debate importante: até que ponto o consumo de produtos proteicos é realmente necessário, especialmente entre os mais jovens?
A discussão ganha força em meio ao avanço expressivo desse mercado no Brasil. Basta uma ida ao supermercado ou à farmácia para perceber que a proteína deixou de ser um componente discreto da alimentação para ocupar lugar de destaque em rótulos, campanhas publicitárias e tendências de consumo. Barras, iogurtes, bebidas, cafés, massas e até sobremesas agora prometem versões “mais proteicas”.
Os dados mostram que o avanço do consumo de produtos proteicos está longe de ser pontual. Uma pesquisa do Instituto Atlas/Intel indica que três em cada dez brasileiros são influenciados pelo selo de proteína na hora da compra, enquanto 37,9% relatam impacto direto das redes sociais, sendo 14,2% totalmente influenciados por plataformas como Instagram e TikTok.
Esse movimento também se reflete no mercado: entre 2020 e 2025, o setor de whey protein registrou crescimento médio anual de 8%, consolidando o Brasil como líder no consumo de proteína de soro de leite na América do Sul, segundo a Mordor Intelligence. Nas redes, a tendência se consolida com a popularização da ideia de “bater a meta de proteína”, reforçada por influenciadores e conteúdos que associam, muitas vezes de forma simplificada, maior ingestão proteica a melhores resultados.
Embora a proteína desempenhe papel essencial no organismo, atuando na formação de músculos, hormônios e tecidos, além da regeneração e manutenção da massa muscular, isso não justifica a suplementação indiscriminada. É o que explica o Dr Renato Zorzo, médico e professor da pós-graduação em Nutrologia da Afya de Ribeirão Preto. O nutrólogo esclarece que a maior parte das pessoas já atinge suas necessidades diárias por meio de uma alimentação equilibrada “Os suplementos têm indicação principalmente em situações específicas, como ganho de massa muscular, prática esportiva intensa ou estratégias de emagrecimento com restrição calórica, em que ajudam a manter o aporte proteico sem elevar demais as calorias. Fora desses contextos, o consumo acaba sendo muito mais influenciado por tendências do que por uma necessidade real”, explica.
Dr Renato explica que, historicamente, a recomendação proteica para adultos saudáveis gira em torno de 0,8 grama por quilo de peso corporal ao dia, podendo variar conforme idade, nível de atividade física e condições clínicas. O problema é que, impulsionado por modismos e recomendações genéricas da internet, o excesso vem se tornando cada vez mais comum. De acordo com o especialista, ingestões muito elevadas e prolongadas podem causar efeitos como constipação, alterações na microbiota intestinal, aumento de ureia e ácido úrico, além de sobrecarga metabólica, incluindo maior esforço para rins e fígado.
Ele pondera, no entanto, que esses impactos não costumam ocorrer de forma imediata. O organismo tende a lidar bem com excessos pontuais, especialmente quando há boa hidratação e alimentação equilibrada. O risco está no consumo frequente e sem orientação. “Na prática, os problemas aparecem quando há exagero contínuo, geralmente por suplementação feita por conta própria ou sem respaldo técnico”, diz.
Quando o assunto são crianças e adolescentes, o cuidado precisa ser redobrado. A Dra. Isabela Pires, médica e professora da pós-graduação em Pediatria da Afya Brasília, explica que a suplementação proteica nessa faixa etária deve ser analisada individualmente. “O organismo infantil está em desenvolvimento e tem demandas metabólicas muito específicas. Na maioria absoluta dos casos, uma alimentação equilibrada já oferece toda a proteína necessária para o crescimento saudável.”
A pediatra reforça que a base da alimentação infantil deve priorizar alimentos naturais e variados. “O ideal é trabalhar com legumes, frutas, cereais e fontes de proteína de forma equilibrada, valorizando sempre o ‘descascar mais e desembrulhar menos'”, orienta.
A médica alerta, ainda, que a introdução precoce e sem necessidade pode interferir negativamente na construção de hábitos alimentares. “A criança pode passar a substituir alimentos naturais por produtos industrializados, além de desenvolver uma relação equivocada com a alimentação.” Ela acrescenta que, além da questão comportamental, há também impactos fisiológicos: o excesso pode sobrecarregar sistemas como o renal e o digestivo, especialmente quando os nutrientes são ofertados de forma industrializada e concentrada.
Dr. Renato reforça que a suplementação em crianças não deve ser nem banalizada nem tratada como regra. Segundo ele, existem situações específicas, como doenças, desnutrição ou condições clínicas, em que o uso pode ser necessário, desde que com acompanhamento profissional. “Sem orientação adequada, além dos riscos metabólicos, há impacto na formação de hábitos, o que é ainda mais delicado nessa fase da vida”, destaca.
Para Dra Isabela, mesmo no ambiente familiar, é importante estabelecer limites claros. Crianças tendem a reproduzir comportamentos dos pais, mas isso não significa que devam consumir os mesmos produtos. A orientação, segundo ela, é que os adultos expliquem que determinados suplementos fazem parte da rotina de adultos, enquanto a criança deve manter uma alimentação adequada à sua fase de desenvolvimento.
O nutrólogo enfatiza que o principal ponto é evitar extremos. “Não existe nutriente vilão nem solução mágica. O que existe é equilíbrio”, resume. Ele também chama atenção para o fato de que a alimentação é apenas um dos pilares da saúde. Prática regular de atividade física, sono de qualidade e manejo do estresse são igualmente fundamentais, e nenhuma suplementação compensa a ausência desses fatores.
O desafio, segundo especialistas, é diferenciar a necessidade real de tendência, especialmente em um cenário em que o discurso da alta performance nutricional segue forte nas redes sociais, muitas vezes sem considerar contexto, individualidade ou orientação profissional. Nesse caso, a principal mensagem é que, embora a proteína seja indispensável, o excesso não traz benefícios adicionais e, no caso das crianças, mais importante do que seguir modismos é garantir uma alimentação equilibrada e adequada ao seu momento de desenvolvimento.
Autora:
Beatriz Felício