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Política, Religião e Radicalização: Dinâmicas do Extremismo na Modernidade.

Por André Pereira Da Silva·
Política, Religião e Radicalização: Dinâmicas do Extremismo na Modernidade.

RESUMO:

O presente artigo tem como objetivo apresentar brevemente como a relação entre politica e religião sempre foi palco de tensões, alianças e diversos tipos de conflitos ao longo da historia da humanidade Em diferentes épocas a religiosidade foi usada como instrumento de legitimação de projetos de poder, ao mesmo tempo em que ideologias assumiram contornos que beiravam o sagrado. Mesmo este fenômeno do comportamento não seja novo, o século XXI configura uma janela para se observar uma unificação alarmante acerca do comportamento humano, sobretudo movimentos de massa extremistas nos campos politico e religioso potencializados por crises globais em questões econômicas, sociais e de desgaste de determinado regime vigente. Todos os tipos de comportamentos extremistas e agressivos se dão ao serem precedidos por discursos de ódio, ofensas, e larga distribuição de fake News em redes socais e ambientes privados, gerando fraturas socais preocupantes – seja no âmbito politico, religioso ou mesmo em ambientes privados ao redor do mundo.

INTRODUÇÃO:

Quando se laçam olhares e indagações acerca de questões politico-religiosas falas e comportamentos que fundem identidade religiosa, nacionalismo e autoridade moral vêm sendo usadas com o intuito de excluir ou atacar outros indivíduos ao mesmo tempo que negam o pluralismo e, em casos extremos, alimentam a violência física  e verbal. 

É de extrema importância destacar que esse tipo de comportamento não pode vir a ser confundido com a verdadeira vivencia da fé ou com engajamento politico legitimo – onde não existe espaço para abusos ou manipulação de elementos caros para determinado grupo inserido na sociedade ou na politica.  

Comportamentos danosos emergem quando crenças absolutas passam a se sobrepor às instituições democráticas e aos direitos fundamentais da vida em comunidade.  Diante de tais cenários, este trabalho analisa mecanismos socais, engrenagens psicológicas e o simbolismo politico de determinados movimentos historicamente estabelecidos, extremismo politico e religioso buscando compreender como contextos de insegurança, crises recentes de sentido e idolatria de um passado supostamente “glorioso” contribuem para o radicalismo.

1. Característica do extremismo politico e religioso:

Ações entendidas como extremismo politico-religioso pode ser compreendido como um fusão de crenças religiosas e projetos politico onde a fé deixa de ser um vivencia espiritual do individuo e passa a agir como instrumento para legitimar determinado poder. Nesse processo, determinados grupos políticos extremistas, ou que beiram o extremo, passam a assumir um caráter sagrado -enquanto quem pensa diferente é visto “herege”, “traidor” ou como possível ameaça existencial.

A filosofa Hannah Arendt sinalizava que ideologias totalizantes não mantem somente com uso da força, mas também por meio de construção de narrativas que garantem sentido e ordem em momentos de crise (Arendt,1989). Em Origens do totalitarismo, a autora apresenta como movimentos extremistas ganham força ao oferecer explicações simples e superficiais para realidades complexas, transformando grupos em bodes expiatórios e massas de manobra (Arendt, 1989).      

No âmbito religioso, essa logica se intensifica, pois a retórica reivindica autoridade transcendental e reduz drasticamente o espaço para diálogo, respeito ao diferente ou não tradicional e ao pluralismo.

2. Exemplos históricos: quando fé e poder se misturam:

Ao se elucidar os fatos na historia, o uso da religião por movimentos políticos é facilmente perceptível, como nos casos dos séculos XVI e XVll mobilizaram milhares de pessoas para massacres e conflitos violentos. De modo semelhante, as cruzadas medievais foram apresentadas como missões sagradas, mesmo que conectadas a interesses territoriais e econômicos.

No mundo contemporâneo tal fenômeno surge de forma secularizada. Ideologias políticas passam a operar como religiões, usando de dogmas, liturgias, símbolos e a classificar aqueles que pensam diferente como inimigos. O sociólogo Eric Voegelin descreveu tal comportamento como “imanetização de escaton”, ou seja, a busca de realizar no mundo uma salvação absoluta, típica de sistemas fechados e autoritários (Voegelin, 1982).

3. Século XXl  e novos extremismos:

No mundo contemporâneo, o extremismo politico e religioso assume novas formas e papeis. Diferentes dos regimes totalitários do século XX, surgindo dentro de democracias formais e reconhecidas, e explorando suas fragilidades e julgando negativamente movimentos opostos aos costumes e tradições normalizadas. Assim, três fatores se destacam, como diversos tipos de crises, insegurança existencial e indenitárias capazes de produzir irritação e ansiedade coletiva. O sociólogo Zygmunt Bauman, em Medo Líquido, explica como sociedades marcadas pela incerteza tendem a buscas lideranças e narrativas que ofereçam segurança simbólica ou combate as insurgentes de segregações conservadoras – mesmo que isso custe liberdades (Bauman, 2008).

No mundo atual, a radicalização emocional e movimentações online favorecem discursos de ódio, binários e moralmente carregados, ao mesmo tempo que reforçam convicções ideológicas que intensificam o raciocínio do “nós contra eles”.  Neste contexto, age como marcador politico com simbolismos religiosos passando a funcionar como marcadores de pertencimento nacional e politico, independente da pratica espiritual real ao da verdadeira vivencia da fé. Assim, a religião deixa de ser instrumento de transcendência e passa a se transformar em identidade de combate.

4. Exemplos e contextos:

Os extremos se manifestam diferentes tradições e contextos. No fundamentalismo islâmico, grupos como o Estado Islâmico usam de interpretações rígidas da fé para legitimar violência, opressão e controle total sobrea vida humana até mesmo sobre aspectos íntimos como escolhas e olhares sobre a própria existência. Em certos contextos cristãos, textos bíblicos – especialmente do velho testamento – para justificar politicas vistas como autoritárias, determinadas exclusões e em determinados momento incitam ataques contra instituições democráticas que não estejam em harmonia com suas convicções.

Na Índia, o hinduísmo politico apresenta como uma religião historicamente plural pode ser instrumentalizada como projeto de homogeneização cultural. Em outros cenários, conflitos territoriais e bélicos no oriente médio fazem de discursos judaicos ultranacionalistas sacralizam disputas politicas e ações agressivas contra outrem. Tais casos demonstram que nenhuma religião é intrinsicamente extremista e agressiva; o extremismo surge da relação crença, poder e contexto de ameaça contra soberania de tradições e costumes inseridos no decorrer do tempo.

5. Questões psicológicas: sensação de pertencimento, ressentimento e sentido:

Do ponto de vista psicológico, o extremismo oferece três elementos centrais:

Pertencimento, sentido e inimigo. O individuo passa integrar um determinado grupo cujo sentimento moralmente superior é predominante, onde existe narrativas claras de missão e propósito. É neste contexto que se externaliza o que é considerado “mal” e onde se reduz ambiguidades e angustias. O psicólogo social Erich Fromm, em ‘O medo da Liberdade’, argumenta que indivíduos inseguros diante da liberdade possuem a tendência a buscar sistemas autoritários que eliminem a responsabilidade pessoal em troca de certeza e obediência (fromm,1980).

6. Impactos na democracia:

O principal risco de movimentos extremistas politico-religioso consiste não apenas em questões de violência explicita, mas também na fragmentação gradual da convivência democrática. Em momentos onde o adversário politico é tratado como inimigo moral ou religioso o compromisso democrático se torna impossível.  A democracia pressupõe conflito regulado, pluralismo, livre manifestação de pensamentos que não sejam nocivos, reconhecimento da legitimidade do outro e etc; o extremismo opera pela logica da pureza e da “verdade absoluta”, quase sempre por meio de exclusão, segregação, difamação, humilhação e mentira (Arendt, 1989).

7. Exemplos nos Estados Unidos e Brasil:

7.1 Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o extremismo ganhou visibilidade com a ascensão de Donald Trump para a presidência do pais. Embora não seja um líder religioso, seu projeto politico se apoiou em alianças com seguimentos do evangélicos conservador ligados ao nacionalismo cristão – defendendo uma ideia de nação fundada exclusivamente sobre valores cristãos.

Tal narrativa contribui para a divisão simbólica entre “verdadeiros americanos” e “inimigos internos”, associados a minorias, imigrantes, liberais e instituições científicas. Durante seu mandato, a retórica de confronto moral, o ataque a imprensa e o questionamento do sistema eleitoral reforçam a percepção da politica como guerra moral e espiritual (Bem- Ghiat, 2020).

No estudo denominado Donald Trump e o fascismo: uma análise inspirada na teoria crítica, onde os autores vão discorrer que: 

A respeito do vazio de argumentos que justificassem uma cruzada pró-americana nos discursos da extrema direita norte-americana do passado, Carone (2002) acrescenta: “a argumentação era substituída pelo artifício de nomear grupos, pessoas e raças como alvo de suas diatribes” (p. 205), exatamente como fez Trump em diversos discursos sobre imigrantes (e.g. Lind, 2019). Não é por acaso que o público-alvo desses discursos – “pessoas de baixa classe média, com pouca escolaridade, sujeitos de meia-idade ou idosos com profundas convicções religiosas de caráter fundamentalista ou sectário” (p. 199) – se assemelha ao público de seguidores/as mais fanáticos/as de Trump.

E continua:

Esses/as eleitores/as foram convencidos/as, como se deu no fascismo alemão e italiano do século passado, de que se tornaram “vítimas de um sistema de exploração internacional” (Konder, 2009, p. 37), e se sentiram impelidos/as a lutar contra o inimigo para buscar “uma restauração de algo do passado – uma revolução conservadora, a volta aos bons velhos tempos” (Carone, 2002, p. 208). Sendo assim, intencionalmente ou não, Trump agiu como um herdeiro genuíno da retórica e das tendências fascistas existentes em grupos da extrema direita estadunidense do século XX, ressentidos com os processos de democratização e o avanço dos movimentos por direitos civis para grupos historicamente excluídos e perseguidos. ” […} O líder pode adivinhar os desejos e necessidades psicológicas daqueles suscetíveis à sua propaganda, porque os reflete psicologicamente e deles se distingue por uma capacidade de exprimir, sem inibições, o que é latente . . . a própria linguagem, desprovida de seu significado racional, funciona de uma forma mágica e favorece aquelas regressões arcaicas que reduzem os indivíduos a membros de multidões (p. 181)”.

O apoio a Donald Trump revela um movimento de raciocínio politico tradicional para uma lógica de pertencimento indenitário e ressentimento cultural. Para grande parte de seu eleitorado, Trump não é apenas um gestor, mas um “vingador” contra uma elite intelectual e burocrática ( o establishment)  que, na percepção desses individuos, os ridiculariza e ignora seus valores principais. Segundo o sociólogo Arlie Hochschild (2016, Strangers in Their Own Land, esse eleitorado sente-se como “estrangeiro em sua própria terra”, vivenciando uma profunda ansiedade de status diante das mudanças demográficas e culturais.

Nesse contexto, o raciocínio do eleitor trabalha sob a Teoria da identidade Social, onde a lealdade sob cabresto ao líder funciona como mecanismo de defesa da autoestima do grupo. Para o seguidor fanatizado e fiel, os ataques da imprensa e da justiça a Trump não são vistos como provas de má conduta, mas como “perseguição religiosa ou politica”, reforçando o estigma de martírio que o lider cultiva.

Como analisa o psicóloga social Jonathan Haidt (2012), a politica para esse grupo deixa de ser uma discussão sobre politicas publicas e passa a ser sobre matrizes morais de autoridade, lealdade e santidade. Assim, mesmo comportamentos desse grupo extremista que violam a ética cristã tradicional são perdoados ou resinificados como “astúcia de guerra” necessária para derrotar um mal maior: o progressismo secular que, na visão do eleitor, ameaça a existência da nação cristã. O raciocínio do  eleitor de Trump é frequentemente inspirado pelo que o sociologo Michael Kimmel (2013) define como “entiled resentment” ( ressentimento de quem se sente no direito). Trata-se de uma percepção de que o “sonho americano” lhes foi roubado por elites progressistas e minorias, gerando um sensação de perda de lugar no mundo. Para esse indivíduo, Donald Trump não é apenas um candidato, mas um anteparo contra a modernidade líquida que ameaça suas tradições. A lógica não é “o que ele vai fazer por mim?”, mas “quem ele vai combater por nós?”

Segundo a cientista politica Pippa Norris (2019), o fenômeno pode ser entendido como um “backlash cultural” (reação cultural). O eleitorado, sentindo-se moralmente acuado por mudanças repentinas em pautas de gênero, raça, religião e comportamento, passa a ver na figura autoritária de Trump uma forma de proteção. Esse eleitor desenvolve uma “epistemologia tribal”: a verdade factual é substituída pela lealdade ao grupo. Assim, o apoio ao líder torna-se uma questão de honra; questionar Donald Trump seria questionar a própria identidade e os valores da comunidade em que está inserido.

Além disso, o raciocínio é reforçado por uma visão maniqueísta da realidade, onde a política é transubstanciada em uma luta entre o “povo autêntico” e uma “elite corrupta”. Como argumenta Jan- Werner Müller (2016) em O que é Populismo?, essa dinâmica exclui qualquer possibilidade de pluralismo: quem não apoia o líder não é apenas um opositor politico, mas um “inimigo da nação”.

No imaginário desse eleitor, a agressividade de Trump é interpretada como coragem, e seu desprezo pelas normas institucionais como uma limpeza necessária de um sistema “profano” e “viciado”.

7.2 Brasil

No Brasil, uma transformação semelhante ocorreu com Jair Bolsonaro. Não se tratou de um governo teocrático, mas sim do uso da religião como arma politica como fisgadora de apoiadores por meio do medo e de linguagem agressiva, oriundos de segmentos evangélicos e do catolicismo ultraconservador. O uso de falas que incitam uma luta do “bem” contra o “mal”, e a demonização de adversários- muitas vezes por meio de difamações, uso de Fake News e acusações rasas- contribuíram para a sacralização do líder e a divisão da sociedade, – principalmente de famílias e amigos -, criando um ambiente de polarização extrema e mobilização emocional permanente (Bem-Ghiat, 2020).

No cerne da alienação do segmento evangélico pelo bolsonarismo, reside a fabricação de uma cosmovisão, onde a complexidade de governo é reduzida a uma batalha do “Bem” contra o “mal”, sempre criando a narrativa de que suas ações visam atingir um “ inimigo”.

A estratégia consiste em utilizar a imagem da família não como um valor a ser protegido pela assistência social, mas como um totem ideológico para legitimar a exclusão do outro. Ao pautar a politica pelo pânico moral — sugerindo que o adversário politico deseja a destruição física e moral dos filhos dos fiéis —, o movimento desenvolve uma “luta legitima” por autodefesa.

Tal comportamento, contudo, apresenta uma contradição aguda com o Evangelho de Jesus Cristo. Enquanto a mensagem bíblica neotestamentária enfantiza a Kênosis (o esvaziamento do poder) e o amor aos inimigos (Mateus 5: 44), o extremismo bolsonarista prega o acúmulo de força e a aniquilação simbólica do oponente. A “família” usada como escudo para propagar falas de ódio ou armamento ignora a ética da hospitalidade e do cuidado com o vulnerável, pilares centrais do ministério de Jesus.

Como aponta o teólogo da missão integral René Padilla (2014), o uso da religiosidade para validar a violência ou a mentira (Fake News) representa uma apostasia ética, na qual o nome de Deus é invocado para negar a própria imagem de Deus (Imago Dei) presente no adversário político.

Portanto, a alienação do fiel ocorre quando ele é convencido de que seguir a Jesus em tempos moderno exige abandonar a mansidão e adotar a agressividade do “Defensor da Família” Ao transformar a fé em um marcador de exclusão, o bolsonarismo inverte a lógica da cruz pela lógica da espada. A família, neste contexto, se torna uma justificativa para o egoísmo coletivo e para a negação de direitos fundamentais a quem não se enquadra no padrão estabelecido, operando em oposição direta ao conceito de Reino de Deus, que, no texto bíblico, é descrito como um espaço de justiça, paz e acolhimento àqueles que a sociedade marginaliza.

Conclusão:

Governo e regimes extremistas – desde antes da segunda guerra mundial até o século XXI – usando da ignorância popular e ressentimentos antigos como combustível para ataques contra grupos que discordam de suas posições, pensamento e tradições de forma violenta e ilegítima do ponto de vista religioso, muitas vezes usado como escudo de comportamentos ultraconservadores que culminam em resultados devastadores e absurdos do ponto de vista humano, democrático e cristão. O discurso motivador da massa que agrega força e poder para determinados seguimentos extremistas criam a narrativa de que aqueles que se opõem aos seus pontos de vistas e politicas como “inimigos” ou “inimigos da nação”, culminando em uma divisão politica e social onde quer que tais extremos se desenvolvem, ao mesmo tempo que transformam seus respectivos lideres e representantes sem indivíduos escolhidos por Deus para combater as “trevas”. Quando se analisa o trajeto de tais extremos políticos e religiosos vê-se longo rastro de divisão, sangue, segregação, ataque e corrupção da identidade do cidadão.

Referencias:

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1 Comentário

  1. Ana
    Ana

    Muito bom, bem didático

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