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O impacto da indiferença

Por Wenilson Salasar de Santana·
O impacto da indiferença

Soube recentemente que algo entre um quarto e metade da população brasileira simplesmente não se importa com minorias. Feminicídio, homofobia ou violência dirigida a grupos específicos atravessam o noticiário e seguem adiante como se fossem ruído distante.

A constatação não é exatamente nova. O que começa a chamar atenção agora é outra possibilidade mais inquietante: talvez esse mesmo desinteresse também alcance temas que, em tese, afetariam diretamente a vida dessas próprias pessoas, como economia ou renda.

A hipótese incomoda porque desmonta uma suposição bastante difundida. Costuma-se imaginar que, mesmo quando alguém ignora problemas sociais amplos, a preocupação reapareceria no momento em que a discussão chega ao dinheiro que entra em casa. A realidade recente sugere algo menos racional. Em muitos casos, nem mesmo esse ponto parece suficiente para despertar atenção consistente.

Fora do mundo digital, a paisagem cotidiana revela parte do problema. Tenho a percepção de que muitas pessoas vivem distante de qualquer rotina de leitura. Livros são objetos raros em muitas casas. A informação chega fragmentada por conversas rápidas, vídeos curtos ou mensagens que circulam sem verificação. A formação de opinião acontece nesse ambiente raso, onde quase nada é examinado com calma.

Nesse terreno prospera uma forma peculiar de segurança intelectual. Há indivíduos que se comportam como se dominassem assuntos complexos sem jamais ter passado pelo trabalho de estudá-los. O contraste aparece em situações triviais. Alguém discute política internacional com convicção absoluta e, minutos depois, pede ajuda para executar uma tarefa simples no próprio telefone.

Essa confiança desproporcional cria um clima curioso. O conhecimento deixa de ser visto como processo de aprendizado contínuo e passa a ser tratado como uma espécie de atributo espontâneo. Basta ter opinião. O esforço de compreender melhor os temas perde espaço para a satisfação imediata de emitir juízo.

Outro elemento reforça esse quadro. Uma forma de individualismo estreito ganhou terreno nas últimas décadas. A atenção se volta quase exclusivamente para interesses imediatos, sem grande disposição para perceber vínculos coletivos. Problemas sociais parecem distantes quando não produzem efeitos diretos no cotidiano mais próximo.

O resultado é um ambiente público atravessado por indiferença. Violências específicas deixam de mobilizar reação consistente. Questões econômicas complexas circulam sem análise cuidadosa. A discussão coletiva perde densidade.

Pode soar exagero chamar esse fenômeno de psicose coletiva, mas a expressão representa um desconforto real diante de um cenário onde a ignorância se combina com segurança em si mesma. Quando essas duas coisas se encontram, a conversa pública tende a perder profundidade justamente no momento em que mais precisaria dela.

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