Jornal Tribuna

O Dia da Mulher Não É Buquê, É Bandeira de Luta

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
O Dia da Mulher Não É Buquê, É Bandeira de Luta

Respeito quem vê o 8 de março apenas como data para parabenizar as mulheres, oferecendo flores ou mensagens afetuosas. Mas o sentido profundo dessa data, em absoluto, não é esse: ela não é um presente de dia único, uma concessão masculina ou comercial que domestica a rebeldia feminina em um só dia do ano. Reduzi-la a isso trai sua origem em greves operárias do início do século XX, como as de 1857 em Nova York, quando costureiras protestaram por salários dignos e redução de jornada, e 1910, com Clara Zetkin propondo na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas um dia global de luta. O levante de 1917 na Rússia, por pão, paz e fim da guerra, cristalizou o 8 de março como símbolo de confronto, oficializado pela ONU em 1977 para evocar igualdade e direitos humanos.

No Brasil de 2024, enquanto discursos celebram avanços, 1.450 mulheres foram vítimas de feminicídio, quatro por dia, quase 200 estupros diários e mais de 70% das violências ocorrem no lar, com recorte racial duro: negras são maioria absoluta nas estatísticas de letalidade e abuso. Essa engrenagem machista não poupa ninguém: brancas de classe média que enfrentam tetos de vidro no trabalho e assédios corporativos, negras periféricas que somam racismo e violência doméstica em favelas e bairros sem infraestrutura, indígenas cujas terras e corpos são invadidos historicamente por grileiros e políticas extrativistas, mulheres trans que lutam por identidade contra transfobia estatal e social letal, trabalhadoras rurais expostas a agrotóxicos e despejos, domésticas invisíveis no mercado formal, mães solo equilibrando múltiplos empregos sem rede de creche, mulheres com deficiência ignoradas por acessibilidade precária, idosas abandonadas em sistemas de saúde falidos, jovens ativistas criminalizadas por ousar a rua. Todas carregam o peso de um sistema que as trata como posse ou ameaça.

Minha pesquisa sobre prostituição de rua, em cidades como Três Rios, revela isso cruamente: mulheres pobres, muitas negras e mães, negociam sobrevivência em calçadas sob normas informais masculinas, enquanto o Estado finge regular com leis que criminalizam mais que protegem. No livro “Confusão não é boa pra ninguém?”, mergulho nessas relações entre agentes estatais e o mercado sexual, expondo como masculinidades tóxicas e poderes paralelos moldam vidas à margem, ecoando histórias como a de “Que Tenhas Teu Corpo”, de Cristiana Schettini, que reconta a prostituição republicana no Rio como resistência urbana contra elitismos hipócritas. Projetos como o Instituto Erica da Fonseca, que reconstrói autoestima de mastectomizadas sem um tostão público, com psicólogas, assistentes sociais, nutricionistas e fisioterapeutas sustentados por voluntariado, mostram solidariedade preenchendo vácuos institucionais, devolvendo corpos e histórias a mulheres que o câncer e a indiferença tentaram apagar. Ataques a pensadoras como Jacqueline Muniz, desqualificada por aparência ou por “não entrar em favelas”, ou mesas de escrevivência negra como “Escrevivências em Movimento”, lembram que silenciar vozes femininas, brancas intelectuais, negras literárias, indígenas guardiãs de saberes ancestrais, é tática antiga para preservar ordens frágeis.

Essas vozes femininas encontram eco profundo nas grandes pensadoras que iluminam nossa luta atual: Lélia Gonzalez, pioneira do feminismo negro brasileiro que articulou raça, classe e gênero contra opressões interseccionais; Simone de Beauvoir, que em “O Segundo Sexo” expôs a mulher como “o outro” fabricado pelo patriarcado para justificar dominação; Hannah Arendt, que nos previne contra totalitarismos que banem a pluralidade e esmagam dissidências, especialmente femininas. Hoje, essa linhagem se renova na pesquisadora da UFRJ Claudia Dominguez, cujos avanços em neurociência e reabilitação motora devolvem movimento e autonomia a corpos antes condenados à imobilidade, provando que o intelecto e a ciência femininos transformam não só ideias, mas vidas concretas.

Essa luta não é abstração acadêmica. Vejo diariamente como desigualdades de gênero se cruzam com tributação regressiva, orçamentos municipais famintos e políticas de segurança que punem mais a vítima que o agressor. Mulheres brancas em cargos executivos ainda negociam subidas hierárquicas com olhares invasivos. Negras no Judiciário e na educação popular enfrentam duplo descrédito. Indígenas em territórios disputados perdem filhas para o silêncio oficial. Mulheres trans na prostituição de rua somam estigma de gênero e orientação em uma violência que o Estado rotula como “crime comum”. Rurais e domésticas arcam com a informalidade fiscal que as exclui de aposentadorias dignas.

O 8 de março pede ouvir essas mulheres em sua pluralidade radical, não como “mulher genérica” de propaganda, mas como constelação de experiências: a escrevivência de Conceição Evaristo que transforma dor negra em potência literária, o ativismo de mulheres trans por reconhecimento civil, a guarda indígena de sementes e rituais contra o desmatamento patriarcal, a resiliência de mães solo que viram colunistas culturais como analiso em crônicas para o Jornal Tribuna. Deslocar privilégios masculinos significa questionar o tempo que ocupamos em reuniões, salários que embolsamos sem tetos invisíveis, espaços públicos que dominamos sem convite. Apoiar ações concretas urge: leis financiadas contra violência com delegacias especializadas lotadas de efetivo treinado, educação popular que forme gerações sem machismo endêmico, escrita e cultura que deem protagonismo real a todas, brancas feministas, negras quilombolas, indígenas tecelãs de saberes, mulheres trans performers, rurais sindicalistas, domésticas poetas anônimas.

Minha trajetória pessoal reflete essa influência transformadora das mulheres que me cercam e formaram: por coincidência feliz, sempre fui orientado academicamente por elas, como Ludmila Elyseu da UFRRJ, Marcela Padilha da UERJ, Ana Paula da Silva no Mestrado em Justiça e Segurança da UFF, e Maria Alice Nunes Costa, professora associada no PPGSD da UFF. Aprendi a dirigir com uma instrutora na autoescola, que me ensinou paciência e precisão. Minha mãe e minha avó foram as primeiras mestras em empatia e sociabilidade, mostrando na prática que nunca se deve olhar mulheres de cima para baixo, moldando assim minhas melhores qualidades pessoais. Devo às mulheres o que há de mais nobre na minha personalidade: minhas amigas e colegas de trabalho, referências constantes em profissionalismo e humanidade, que me inspiram diariamente como exemplos vivos de força e ética. Minha esposa, em especial, encarna responsabilidade, esforço e resiliência em cada gesto cotidiano, enquanto sonho que minha filha cresça num mundo que as veja como sujeitos plenos de direitos e potências, não como concessões ou adornos.

Não é dia de aplauso passivo, mas de atrapalhar a ordem que mata devagar, com impostos que financiem abrigos, fiscalização que combata redes de tráfico humano, justiça que processe agressores em tempo real. Se o 8 de março não incomoda quem manda, falhou em sua bandeira originária. É compromisso diário: transformar o incômodo em política propositiva, honrando as que marcharam primeiro.

Então, parabéns não pelo dia, mas por toda a luta e resistência diária: parabéns às que marcharam em 1857, às que grevaram em 1917, às que hoje enfrentam feminicídio, estupro e silenciamento em cada canto do Brasil. Vocês não são flores a serem ofertadas, mas bandeiras vivas que nos obrigam a mudar. Parabéns por sobreviverem e por nos desafiarem a construir um país que mereça sua presença plena.

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