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“Manuel Sábio”: quando estudar vira motivo de deboche e a ignorância vira medalha

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
“Manuel Sábio”: quando estudar vira motivo de deboche e a ignorância vira medalha

Em um certo dia, desses em que a internet resolve brincar de tribunal sem pauta e sem juiz, apareceu um trocadilho com meu nome: de Manuel Flavio, me tornei “Manuel Sábio”. Não foi elogio, não foi gentileza, não foi reconhecimento. Foi deboche, daqueles que vêm com o sorriso torto de quem quer dizer: “olha lá o que se acha”, “olha lá o que escreve demais”, “olha lá o que quer parecer inteligente”. E o motivo era ainda mais revelador: escrevo bastante e publico opiniões com fundamentação, com pesquisa, com leitura, com tentativa honesta de amarrar argumento em fato, e não em grito.

O trocadilho, portanto, não fala só de mim. Ele funciona como um retrato de época. Há um tempo em que ser chamado de “sábio”, mesmo que em tom irônico, carregaria algum respeito. Hoje, para muita gente, virou xingamento disfarçado. O que é uma contradição interessante: a palavra que deveria apontar virtude é usada como pedrada. E isso não acontece por acaso. Acontece porque estamos vivendo uma fase em que a ignorância não apenas deixou de envergonhar, ela passou a ser exibida com orgulho, como se fosse identidade, coragem, autenticidade. E, pior, como se pensar fosse traição.

Em alguns círculos, refletir virou sinônimo de complicar. Estudar, sinônimo de “doutrinação”. Pesquisar, sinônimo de “desconfiar do próprio time”. Escrever com fundamento, sinônimo de “querer lacrar” ou “querer dar aula”. Não importa se o texto é respeitoso, se o argumento é claro, se a base é verificável. O simples ato de tentar sustentar uma opinião com algum método já basta para acionar a patrulha do deboche. Porque a fundamentação tem um defeito grave para quem prefere o barulho: ela exige paciência. E paciência não dá engajamento tão rápido quanto a indignação.

A internet, é verdade, democratizou a voz. Isso é bom. Deu palco a quem não tinha. Quebrou monopólios. Permitiu que gente comum, e aqui me incluo, publicasse e dialogasse sem pedir licença a meia dúzia de portas fechadas. Mas a mesma ferramenta que ampliou a voz também premiou um tipo de performance: a frase curta, o ataque rápido, a certeza total, o riso debochado. E nesse ambiente, o ignorante não é apenas tolerado: muitas vezes é promovido. Porque a ignorância bem embrulhada em autoconfiança rende curtida. A dúvida não rende. O “não sei, vou ver” não rende. O “posso estar errado” não rende. Já a certeza gritante, mesmo vazia, rende aplauso.

E aí nasce um fenômeno perigoso: a ignorância deixa de ser ausência de conhecimento e vira projeto de poder. A pessoa não apenas não sabe; ela transforma o não saber em argumento, em moral, em bandeira. Ela se orgulha de não ler, como se ler fosse fraqueza. Ela despreza dados, como se dados fossem ofensa. Ela ri de quem pesquisa, como se pesquisar fosse pedantismo. E, para completar, usa essa pose como ferramenta de popularidade: quanto mais debocha do estudo, mais “gente como a gente” parece; quanto mais ataca quem tenta pensar, mais ganha a simpatia de quem se sente ameaçado pela possibilidade de estar errado.

Porque, no fundo, é disso que se trata: para muita gente, o problema não é o texto. É o desconforto. Um texto fundamentado não obriga ninguém a concordar, mas obriga a encarar uma coisa chata: que opinião não é decreto. Que crença não é prova. Que repetir não é demonstrar. E quando uma opinião não corrobora certas certezas já prontas, aquelas que a pessoa defende não porque examinou, mas porque adotou como identidade e verdade absoluta, a reação mais comum não é discutir o conteúdo. É atacar o mensageiro. A velha tática: se eu não consigo derrubar o argumento, tento ridicularizar quem argumenta. Se eu não consigo responder ao texto, tento desqualificar o autor. Se eu não consigo sustentar minha convicção, eu a protejo com escárnio.

O deboche, nesses casos, é uma máscara útil. Ele dispensa esforço. Ele substitui a leitura. Ele evita o trabalho duro de pensar. E ainda dá a sensação de vitória, porque rir em grupo produz pertencimento. É mais fácil juntar gente pelo riso contra alguém do que pelo raciocínio a favor de alguma coisa. A ignorância, quando vira coletiva, parece verdade. E quando vira popular, parece virtude.

Só que o preço é alto. Uma sociedade que trata estudo como arrogância começa a preferir soluções fáceis para problemas complexos. Uma comunidade que glorifica a falta de reflexão vira terreno fértil para manipulação. Quanto menos leitura, mais dependência de “resumo” alheio. Quanto menos pesquisa, mais poder tem quem grita. Quanto menos método, mais manda o instinto — e instinto é ótimo para fugir do perigo, mas péssimo para decidir política pública, economia, educação, saúde e convivência social.

Há também um detalhe moral nessa história: a ignorância exibida como troféu tem um componente de crueldade. Ela não se limita a dizer “não quero aprender”; ela precisa dizer “quem aprende é ridículo”. Ela precisa rebaixar o esforço alheio para justificar a própria preguiça. Por isso o trocadilho. Por isso o “Manuel Sábio” dito como insulto. Não é apenas uma provocação. É uma tentativa de estabelecer uma norma: aqui, pensar demais é feio; aqui, ler é pose; aqui, fundamentar é ameaça.

Mas se “Manuel Sábio” significa alguém que não se contenta com a primeira impressão, que procura base, que prefere o caminho mais difícil: o caminho do estudo, da pesquisa e da responsabilidade com o que escreve, então o deboche perde a força. Porque o que pretendia diminuir acaba confirmando uma escolha. Eu escrevo porque acredito que opinião sem fundamento é só barulho bem vestido. Eu escrevo porque, num tempo em que a ignorância virou moeda de popularidade, insistir na reflexão é quase um ato de higiene pública. E escrevo porque discordar faz parte, mas desprezar o pensamento como método é um luxo que a vida real não permite.

No fim, o trocadilho revela mais sobre o nosso clima cultural do que sobre meu nome. Se hoje chamam de “sábio” para debochar, é sinal de que a esperteza do riso fácil está tentando ocupar o lugar da inteligência do esforço. Só que a história é teimosa: a ignorância pode até dar aplauso rápido, mas não constrói nada que aguente o tempo. O que aguenta o tempo — ainda que seja menos popular no instante, é a coragem de estudar, de pesquisar, de pensar e de sustentar o que se diz. E isso, por mais que tentem transformar em piada, continua sendo virtude.

E é por isso que, no que depender de mim, eu tomo posse desse apelido. Não porque eu me considere “sábio” — longe disso. Se tem uma coisa que o estudo sério ensina rápido é humildade: quanto mais a gente aprende, mais entende o tamanho do que não sabe. Eu me vejo, na verdade, como alguém esforçado, alguém que busca a sabedoria como quem persegue o horizonte: sabendo que ela, completa, total, definitiva, é praticamente impossível de alcançar. Mas exatamente por isso ela precisa ser buscada o tempo todo. Porque a sabedoria não é um troféu que se pendura na parede; é um exercício diário de atenção, revisão, dúvida honesta e responsabilidade com a própria fala. Então, se “Manuel Sábio” for entendido não como vaidade, mas como compromisso: o de continuar aprendendo, mesmo quando é mais confortável fingir certeza, eu assino embaixo. E, se for para incomodar, que incomode assim: com esforço, com leitura, com autocrítica e com a teimosia de quem prefere construir a própria opinião em vez de herdar o barulho dos outros.

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