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Entre a força e o impasse, a escalada entre EUA, Israel e Irã cobra um preço alto

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Entre a força e o impasse, a escalada entre EUA, Israel e Irã cobra um preço alto

Chamar de “guerra” o que envolve Estados Unidos, Israel e Irã pode soar impreciso para quem espera uma declaração formal e um front definido. Ainda assim, há um conflito real e contínuo, marcado por ataques diretos pontuais, operações atribuídas a serviços de inteligência, sanções econômicas de grande alcance e confrontos por procuração em vários países. Esse tipo de conflito, difuso e persistente, tem um traço perigoso: decisões tomadas por grandes potências e seus aliados regionais podem escalar rapidamente, com baixa transparência e pouca prestação de contas, enquanto o custo recai sobretudo sobre civis e sobre a estabilidade regional.

Um ponto de inflexão verificável foi a deterioração do acordo nuclear com o Irã, o JCPOA, firmado em 2015. O pacto estabelecia limites e inspeções sobre o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções. Em 2018, os Estados Unidos se retiraram do acordo e reimpuseram sanções amplas. Isso importou por dois motivos objetivos. Primeiro, porque sanções extensas, sobretudo quando atingem finanças e exportações, pressionam a economia como um todo e afetam a população, não apenas autoridades. Segundo, porque a saída unilateral enfraqueceu a arquitetura de incentivos e verificação que reduzia riscos de escalada, ampliando o espaço para desconfiança, para medidas de retaliação e para a lógica do “cada um por si”.

Israel, que há anos aponta o Irã como ameaça estratégica central, manteve uma postura de contenção que inclui operações militares fora de seu território, especialmente contra alvos ligados ao Irã e ao Hezbollah na Síria, além de ações amplamente atribuídas à inteligência israelense contra pessoas e estruturas associadas ao programa nuclear iraniano. Mesmo quando autoridades não confirmam publicamente, a recorrência e o padrão dessas ações são amplamente reportados por imprensa internacional e analisados como parte de uma “guerra nas sombras”. O problema não é reconhecer o direito de um país buscar sua segurança. O problema é normalizar ataques preventivos e ações extraterritoriais como ferramenta rotineira, com pouco controle público e sem um horizonte político claro, corroendo normas e incentivando respostas simétricas.

Os Estados Unidos, nesse tabuleiro, funcionam como potência militar predominante e principal sustentáculo político e militar de Israel, algo verificável por cooperação estratégica, transferências de armamentos e alinhamento diplomático frequente em fóruns internacionais. Na prática, quando Washington oferece cobertura consistente em momentos de alta tensão, sinaliza que operações mais arriscadas podem ter custo diplomático limitado. Esse sinal altera o cálculo de todos: reduz o incentivo para negociações, reforça a crença na solução militar e empurra o adversário a responder no mesmo registro.

Em 2020, a morte do general iraniano Qasem Soleimani em um ataque americano em Bagdá elevou ainda mais a temperatura. Soleimani era figura central do aparato de segurança do Irã e de sua articulação regional com grupos aliados. O Irã retaliou com ataques de mísseis contra bases que abrigavam forças americanas no Iraque. Independentemente do julgamento moral sobre Soleimani e sobre a política regional iraniana, o precedente é claro: matar uma liderança de alto escalão de um Estado, por decisão unilateral e em território de um terceiro país, aumenta o risco de retaliação, de escalada e de erro de cálculo. É um ganho tático que costuma cobrar juros altos em instabilidade.

A partir de 2023, com a guerra em Gaza após o ataque do Hamas em 7 de outubro, o quadro regional ficou ainda mais explosivo. Israel iniciou uma campanha militar de grande escala em Gaza, acompanhada de destruição extensa e crise humanitária severa, repetidamente apontada por organismos internacionais e agências humanitárias. Criticar a conduta de Israel nessa guerra não significa negar a gravidade do ataque do Hamas ou o sofrimento de civis israelenses. Significa reconhecer que a resposta militar, quando produz danos massivos a civis e infraestrutura essencial e quando agrava restrições que atingem a vida cotidiana, tende a alimentar radicalização, ampliar o isolamento político e oferecer combustível para atores armados que se apresentam como “defesa”, mesmo quando também cometem abusos.

Nesse ambiente, a atuação de aliados regionais do Irã se intensificou em diferentes frentes, com ataques e ameaças envolvendo milícias no Iraque e na Síria, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen, inclusive com impactos sobre bases com presença americana e sobre rotas marítimas. Isso não transforma Teerã em parte inocente. O regime iraniano é autoritário, reprime dissidência interna e mantém políticas regionais que incluem apoio a grupos armados, fatos amplamente documentados. A crítica central é outra: EUA e Israel frequentemente instrumentalizam, de modo seletivo, o caráter repressivo do regime iraniano para justificar estratégias de coerção e força que aumentam o risco de guerra e pioram o sofrimento civil, sem apresentar uma alternativa diplomática robusta e sustentável.

Em abril de 2024, a escalada ficou mais explícita quando o Irã lançou drones e mísseis contra Israel após um ataque atribuído a Israel que atingiu instalações diplomáticas iranianas em Damasco e matou oficiais iranianos. O episódio evidenciou como o conflito saiu do terreno indireto e entrou no da confrontação mais aberta, ainda que contida por defesas aéreas e pressões diplomáticas. O padrão é reconhecível e perigoso: ação extraterritorial, retaliação direta, nova pressão por resposta, com a região mais próxima de um ponto de ruptura.

Há um critério simples para atribuir responsabilidade política: quem tem mais poder e mais opções tem mais obrigação de reduzir riscos. Os Estados Unidos não são um ator empurrado pelo destino. Escolhem abandonar acordos sem colocar algo equivalente no lugar. Escolhem sanções de amplo alcance como eixo permanente. Escolhem ações militares de alto risco e oferecem proteção diplomática que, na prática, diminui freios. Israel, ao privilegiar a força como resposta dominante e ao expandir o uso de operações preventivas, reduz o espaço de arranjos de segurança e reforça a lógica do confronto permanente. O resultado é um paradoxo recorrente: políticas vendidas como “segurança” acabam produzindo insegurança estrutural.

Nada disso exige defender o regime iraniano. É possível condenar a repressão interna e a política regional de Teerã e, ao mesmo tempo, afirmar que a estratégia de coerção contínua de Washington e a doutrina de força de Tel Aviv têm falhado em produzir estabilidade. Também é possível rejeitar a violência de grupos armados e reconhecer que o sofrimento de civis, em Gaza e em outros pontos do tabuleiro, vem sendo tratado como dano colateral aceitável por atores com enorme capacidade de escolha. A crítica mais dura a EUA e Israel, aqui, é que ambos atuam como se regras valessem apenas quando convenientes e como se o custo humano fosse um detalhe administrável. Além de moralmente corrosiva, essa postura é estrategicamente míope, porque torna a escalada o único idioma disponível.

O que os fatos sugerem é um ciclo de ação e reação em que cada “resposta necessária” fabrica a próxima “resposta inevitável”. E quando a política externa vira uma coleção de inevitabilidades, alguém escolheu estreitar o caminho de propósito. O preço dessa escolha não aparece só em comunicados oficiais ou em mapas de ataques. Aparece no enfraquecimento de normas, no aumento de riscos de guerra aberta e, sobretudo, na vida de milhões de civis presos entre governos e grupos armados que insistem em tratar a força como política, e a política como propaganda.

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