Jornal Tribuna

Crescer não impressiona mais. Sustentar separa quem entendeu o jogo de verdade

Por edicao·
Crescer não impressiona mais. Sustentar separa quem entendeu o jogo de verdade



O mercado está deixando de valorizar apenas empresas que crescem rápido e
passando a priorizar as mais sólidas, resilientes e estratégicas, que conseguem
sobreviver a períodos difíceis. Em alguns casos, a expansão é confundida com
competência mas, nem sempre, crescer rápido pode significar eficiência. Às
vezes é apenas uma fragilidade adiada.
O caso do Banco Master recolocou em evidência algo que o setor conhece, mas
evita admitir: quando a estrutura financeira não acompanha a escala
proporcional, o crescimento deixa de ser mérito e vira exposição.
Funding, liquidez, governança e originação não evoluem por gravidade, pois
quando avançam em ritmos diferentes, o desequilíbrio não desaparece, apenas
encarece a conta que chegará mais tarde. Em finanças, desalinhamento nunca é
detalhe técnico, é um risco acumulado.
O setor sofisticou distribuição, marketing e aquisição, mas continua tratando
arquitetura/orquestração financeira como bastidor, quando ela define tudo o
que realmente importa sob pressão.
Expandir crédito sem coordenar capital, risco e compliance produz volume, mas
não necessariamente solidez. O número cresce antes da consistência aparecer e,
às vezes, ela nunca aparece. A visibilidade não corrige falha estrutural, conserta
apenas a narrativa, até que a realidade interrompa de forma impiedosa.
O mesmo erro aparece no embedded finance. Integrar serviços financeiros sem
desenho regulatório e operacional consistente não é sofisticação, é uma
complexidade mal administrada com aparência de inovação. Por isso o grande
número de insucessos em iniciativas de grandes empresas que não estão
preparadas para esse movimento.
Adicionar crédito, conta ou pagamento à operação não gera vantagem por si só.
Só gera vantagem quando a infraestrutura suporta e quando faz sentido. Ter por
ter, não é sustentável financeiramente falando, a não ser pelo ego e orgulho do
empreendedor. Sem isso, eficiência prometida vira gargalo.
A questão central nunca foi crescer mais rápido. É entender que escala sem
arquitetura é apenas risco em expansão. No curto prazo, quase tudo pode
parecer funcionar. No longo, permanece quem construiu alicerces antes de
acelerar.

Autor:

Daniel Corrêa, fundador e CEO da BOSS4u, especialista em infraestrutura financeira

Comentários

Deixe um comentário