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Como nasce uma marca? No caso dessas empreendedoras, pela necessidade

Por edicao·
Como nasce uma marca? No caso dessas empreendedoras, pela necessidade

Quem vê uma franqueadora se expandindo pelo Brasil, com diversas lojas, pode não saber que sua história é marcada pela dificuldade vivida por uma mulher, que empreendeu pela necessidade

São Paulo, 5 de março de 2026 – Quem vê uma marca em diversos pontos da cidade (ou do país) nem sempre conhece a história de quem a criou, apenas contempla o sucesso do empreendimento. Mas, especialmente quando ela foi fundada por uma mulher, essa jornada pode ter se iniciado por uma necessidade. “Acompanho o sistema de franquias há 40 anos e conheci muitas franqueadoras. São mulheres com trajetórias profissionais de muito trabalho e histórias de vida intensas, já que conciliar uma carreira empreendedora com o papel familiar é uma tarefa árdua”, lembra Melitha Novoa Prado, advogada especializada em franchising, que atende renomadas franqueadoras brasileiras.

A advogada enfatiza que não basta ter uma boa ideia para empreender. “O acesso ao crédito não é fácil e são poucas as pessoas que têm uma herança ou uma rede de apoio com as quais contar. Grande parte das mulheres franqueadoras fez suas marcas crescerem com trabalho, conhecimento e estratégia. Além disso, existe a parceria com outras mulheres, suas franqueadas, porque 57% das unidades franqueadas brasileiras são geridas também por mulheres. Se pensarmos nas colaboradoras das marcas, temos um exército de mulheres atuando no franchising”, enfatiza.

E essa necessidade empreendedora é diferente para cada mulher. Após passar 20 anos no Japão, Jéssica Hasegawa voltou a Belém (PA) sua terra natal, e se casou com o grande amor de sua vida, o contabilista Helyezer Hasegawa. Eles tiveram duas filhas e a ex-dekassegui não conseguiu trabalhar no escritório do marido. “Eu mais o atrapalhava do que o ajudava”, diverte-se Jéssica, ao lembrar. Com pouco dinheiro para investir, eles não sabiam bem o que fazer para que Jéssica tivesse uma profissão que lhe trouxesse satisfação. Foi quando uma cliente do contabilista ofereceu a ele um salão de beleza praticamente falido. Fazendo as contas, ele viu que seria possível obter algum lucro com o lugar e conversou com Jéssica. Mesmo não entendendo nada do negócio, ela aceitou gerir o empreendimento, porque precisava tentar. E foi com sua alta habilidade de comunicação que ela conquistou clientes e fez um marketing agressivo (que incluiu eventos com  cosplays de super-heróis a  tardes de coquetéis) naquela primeira unidade do Hasegawa Studio de Beleza. Em alguns anos, para resumir a história, o Grupo Hasegawa passou a ser o maior do Pará, chegando a oito salões multisserviços, um spa e uma barbearia. Em 2025, Jéssica e Helyezer abriram a primeira unidade na capital paulista, que faturou R$ 1,2 milhão nos seis primeiros meses de operação. E as franquias vão de vento em popa.

Também se viu numa encruzilhada a relações públicas Andréia Freitas, do Rio de Janeiro (RJ). Pouco antes da pandemia, ela deixou um emprego estável para empreender na cantina da família, localizada no cemitério São João Batista, na cidade do Rio de Janeiro. “Meu pai adoeceu e não podia cuidar da cantina, eu vi ali uma oportunidade de montar uma cafeteria e tudo parecia claro na minha cabeça”, diz. Mas veio a pandemia e ninguém podia se alimentar em cemitérios, ficando a cantina às moscas. Sem renda, emprego e divorciada, ela recorreu ao auxílio emergencial do governo e a um empréstimo de 400 reais, que utilizou para começar a vender pastéis aos vizinhos de seu condomínio. “Foi assim que eu, meu pai e meus filhos sobrevivemos”. Em 2021, viu um quiosque vazio no Terminal Gentileza e conseguiu receber uma indenização por um imóvel que comprara e não lhe fora entregue. O valor era pequeno, mas foi suficiente para ela comprar equipamentos e utensílios usados, que deram início à primeira Bomdiqueijo, uma “pãodequeijaria” que faz os mais famosos pães de queijo super recheados do Rio de Janeiro.  De lá para cá, são nove lojas e quiosques, entre próprios e franqueados, com o primeiro deles fora do Rio (na capital paulista) inaugurado em dezembro de 2025.

Também com recursos limitados, a jovem Júlia Vasconcellos, de apenas 29 anos, começou a trabalhar muito jovem, como panfleteira. Independente, a moradora de Maceió (AL) se formou em Publicidade e Propaganda e trabalhou em agência, mas tinha vontade de empreender. Juntou, então, R$ 20 mil e, com esse valor e o limite de um cartão de crédito, abriu o Unhas Club, um salão de beleza especializado em unhas, em 2022. Por entender de Marketing, a jovem empreendedora investiu em um bom programa de fidelização de clientes, criando um clube de assinaturas, que faz sucesso com a marca. E, logo, formatou o negócio. A primeira franquia foi inaugurada em Arapiraca (AL), depois vieram Otacílio Costa (SC) e Salvador (BA, em fase de implantação. E Júlia segue a todo vapor – e sem dívida no cartão de crédito!

Com menos dificuldade financeira, mas também por uma necessidade, nasceu a Blow Escova Inteligente. A porto-alegrense Gabrielle Bernardon montou um pequeno salão de beleza especializado em unhas. Ela, entretanto, gostava de escovar profissionalmente seus cabelos e sentia uma dificuldade: não encontrava quem realizasse o serviço sempre da mesma forma, com resultado parecido com a vez anterior. Além disso, Gabrielle queria lavar sempre os cabelos no salão e os manter escovados, com praticidade, sem que isso pesasse muito em seu orçamento. E essa necessidade não era atendida em nenhum local da cidade que ela conhecesse. Então, ela decidiu criar esse local. Nasceu a Blow Escova Inteligente, que oferece à cliente um verdadeiro ‘cardápio’ de escovas: a cliente escolhe o modelo que mais a agrada e o escovista segue aquele padrão, garantindo o resultado. As próprias clientes passaram a procurar pela franquia e logo a rede se tornou popular: já são 52 lojas pelo Brasil. Com o slogan “Lava, escova e vai!”, a Blow consegue levar às clientes exatamente o que Gabrielle sonhou: a praticidade para quem tem a vida corrida, com preços acessíveis (escova por preço fixo, a R$ 45, dependendo da unidade franqueada). Além de ser uma escova inteligente, a Blow usa outras inteligências em sua gestão. No ano passado, por exemplo, a franqueadora lançou a primeira franquia de salões de beleza com a recepção 100% automatizada, sem necessidade de uma pessoa para atender a cliente na sua chegada ou saída do estabelecimento.

Por fim, a pernambucana Patrícia Lira se viu diante de uma necessidade que muitas outras empreendedoras enfrentaram quando criou a Norah Acessórios: o enfrentamento da pandemia. Patrícia começou sua empreitada como sacoleira, vendendo roupas de porta em porta. Com o tempo, conseguiu juntar o valor suficiente para abrir uma pequena loja de roupas e acessórios. Mas veio a pandemia e as roupas não vendiam mais. “Eu comprava bijuterias e eram elas que vendiam sustentavam minha família”, lembra. Assim nasceu a Norah Acessórios, que teve a primeira loja própria aberta em Recife (PE). A ideia de Patrícia foi aliar produtos da moda com preços baixos, para que as clientes saíssem da loja sempre com mais de uma peça. Deu certo: da primeira loja, vieram mais unidades próprias e, ao completar dez delas, veio a primeira franquia, em Venturosa (PE). Atualmente, são 16 lojas (nove em Pernambuco e sete em São Paulo), entre próprias e franqueadas. Patrícia se divide entre os dois estados e admite que a vida é corrida. “Na semana em que eu inaugurei minha terceira loja em São Paulo, minha filha estava internada em Recife, com pneumonia. Imagine o coração de mãe, como fica… Consegui conciliar, atrasando a inauguração para ficar com ela, porque é minha prioridade. Empreender não é fácil”, diz.

Para quem deseja empreender, a advogada Melitha Novoa Prado dá um conselho: profissionalize-se. “Há cursos disponíveis, literatura de qualidade e até mentorias gratuitas. Sozinha será bem mais difícil, então, busque suporte. Siga as leis e não desista!”, finaliza.

Autora:

Simone Valente

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