Jornal Tribuna

Adoção, um ato de amor…

Por edicao·
Adoção, um ato de amor…

Lívia é um bebê com apenas dois meses de idade, que foi entregue pela sua mãe Heloisa ao Conselho Tutelar para adoção. Diante de uma gravidez não planejada, morando sozinha na periferia da cidade, sem respaldo nenhum e nem condições financeiras para criá-la, não teve outra opção a não ser a entrega voluntária para adoção.

Considerando que seu ganho diário como diarista mal dava para o seu sustento, como cuidar de um bebê que precisava de uma série de itens necessários para a sua higiene diária, alimentação básica e vestimenta adequada. Ponderando diante das incertezas da vida, não tinha como cuidar e nem tão pouco com quem deixar sua filha Lívia.   

Muitas vezes se via chorando diante da decisão de deixá-la para adoção. Lamentava diariamente por não ter mais em seus braços aquele pequeno fruto de um amor não correspondido. Várias vezes passou pela sua cabeça em voltar ao Conselho Tutelar, para saber se alguma família à tinha adotada. Se ainda não, à oportunidade de vê-la novamente e assim aliviar as saudades que sentia.  

Sua amiga, com quem compartilhava suas amarguras em busca de consolo, sempre a aconselhava à não pôr em prática tal ideia, por achar imprudente e talvez até ilegal, diante da decisão que tomara. Só o fato de a rever, caso não tivesse sido ainda adotada, à deixaria afetivamente mais infeliz e abalada.

O tempo foi passando, mas Heloisa não conseguia esquecê-la em nenhum momento de sua vida. Via nas crianças brincando pelas ruas da periferia em que morava, um retrato fiel de sua filha. Todo dia 8 do mês de setembro em que Lívia fazia aniversário, Heloisa procurava por um templo religioso para orar e pedir a proteção divina, àquela que por dois meses tinha sido sua filha.

Cansada da rotina de diarista, por trabalhar em diversas casas de forma ocasional e sem regularidade, já sentia o peso da meia-idade. Sua amiga a quem considerava como uma irmã, certo dia lhe confidenciou – Estou deixando o serviço de empregada doméstica para ir trabalhar como faxineira em um hotel.

Se trata de uma família pequena, composta por um casal e uma menina de apenas seis anos de idade. Seu trabalho entre outros, seria de limpar, cozinhar e cuidar da pequena Alice. A vantagem é que seria um trabalho contínuo e regular com um salário fixo por mês. Você não gostaria de assumir o meu lugar?

No dia seguinte, lá foi Heloisa com sua amiga em busca de um futuro melhor, sobretudo com relação a estabilidade financeira. Devidamente apresentada, foi informada por Lívia, sua futura patroa, de que teria um horário fixo, trabalharia vários dias por semana, sendo o seu trabalho parte da rotina da casa.

De conformidade com os afazeres e satisfeita com o salário, Heloisa começou sua nova rotina. Passado alguns meses, com mais intimidade com a família, em especial com a pequena Alice, confidenciou à sua patroa que tivera uma filha de nome Lívia, e que a deixara no Conselho Tutelar para adoção.

Intrigada com certas evidências no tocante a história relatada por Heloisa, resolveu comentar com seu marido Thiago. Que diante da causalidade de fatos, à induziu a fazer uma pesquisa, uma vez que sua esposa fora adotada por uma família que não tivera filhos.

Diante do relato dos seus pais adotivos, do seu sobrenome Silva, apesar de comum, ser idêntico e das informações adquiridas no Conselho Tutelar, resolveu ter uma conversa reservada com Heloisa. Não foi preciso ir muito longe nos detalhes da narrativa.

O que para muitos seria apenas uma coincidência, neste caso foi o destino. Com um forte abraço, um choro intermitente e muitas lágrimas no rosto, mãe e filha estavam juntas novamente. Daquele momento em diante, não mais como uma simples empregada doméstica.

Agora como parte integrante de uma família, Heloisa não só reencontrou à sua filha, como também ganhou uma neta.

Autor:

Carlos R. Ticiano

Articulista e romancista      

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