A memória do Adeus

Hoje é dia 6 de março. A lágrima escorre pelo rosto enquanto olho para o calendário. Dois meses. O tempo é um bicho estranho que corre para longe da dor, mas me deixa presa no dia do adeus. Naquele dia, eu também morri um pouco no hospital…
Hoje completam dois meses que minha avó partiu. Meu avô está na varanda como sempre. Ele passa parte do dia olhando o movimento na rua, ou até cochilando depois de um cigarro. Justamente hoje ele me perguntou onde foi que vozinha faleceu, em casa ou no hospital. O Alzheimer maltrata. Perguntou isso cerca de oito vezes. Hoje quis ir ao cemitério, acender umas velas e conversar um pouco. Apesar de saber que ela já não está ali. Mas não consegui. Não encontrei ninguém com tempo para me ajudar ficando aqui em casa com meu avô. Meu filho eu poderia levar, mas ele, não achei uma boa ideia.
A morte é a única certeza que temos nessa experiência terrena e, mesmo assim, não estamos preparados para ela. E quem está preparado para dizer adeus “para sempre”? Até aqueles que acreditam que haverá um reencontro sentem a dor dessa despedida tão dura.
No dia do adeus, não consegui acompanhar até o final. Me levaram para o hospital. Sentia que tudo estava parando em mim e, durante aquele momento, também estava morrendo. Fui morrendo lentamente. Até a médica aplicar uma injeção e meu corpo começar a adormecer. Respirei fundo e lentamente. Até queria morrer mesmo, mas lembrei que tinha meu filho e meu avô, que estava nas mãos daquele filho primogênito. Eu não podia ficar ali deitada até adormecer e meu corpo voltar ao estado normal. Precisava levantar dali e ao menos salvar meu avô, já que nada poderia fazer pela minha avó.
Comuniquei à médica e fui buscar meu avô para cuidar dele. Naquele dia estava entre a vontade de ir junto com ela e a vontade de ficar para cuidar do meu avô. Dois sentimentos intensamente opostos que até agora não consegui organizá-los. Hoje, dia seis, me faz lembrar mais intensamente dela. Me lembro da madrugada que acordei e orei para que Deus fizesse o que eu não podia. Os médicos já haviam afirmado que ela estava em cuidados paliativos. Eram seus últimos dias. Ela já tinha dado entrada no hospital outras três vezes, mas apenas no dia cinco encontraram a necrose responsável pela infecção generalizada.
O primogênito escondeu de todos até o dia da morte. Ninguém saberia o monstro que ele foi se eu não estivesse ali naquela manhã enquanto as enfermeiras colocavam a sonda para urina. Se ele não tivesse sacado o dinheiro do meu avô e saído com a esposa para outra cidade para fazer compras no atacadão e pagar as contas das coisas que comprou com o dinheiro dos pais. Enquanto minha avó estava se despedindo, ele se preocupava em torrar o dinheiro que ainda tinha acesso.
Me dói a alma saber que minha avó poderia estar aqui e não está. Me dói também guardar aquela imagem e saber que ela estava sofrendo demais por abandono e negligência, no entanto eu nada podia fazer para ajudar. Ela que deixava de comer para alimentar aqueles marmanjos. Que fazia todos rirem mesmo estando destruída por dentro. Foi ela quem tirou meus piolhos e esfregava meu “suvaco”. Ela foi a mãe que não tive.
Não tinha ideia do que sentiria quando esse dia chegasse. Não sabia como segurar sua mão fria. Beijar sua testa gelada e acariciar seus cabelos pela última vez. Eu não sabia que, quando fechassem o caixão, uma parte de mim ficaria lá dentro junto com ela. Para hoje, lembro que não fiz tudo o que poderia ter feito enquanto ela estava viva. Não fui além dos meus limites. E permiti que aquele monstro me expulsasse de lá por um ano, me impedindo de cuidar dela.
A lei da semeadura é absoluta. Não adianta querer voltar no tempo, sei disso. Cada um colhe aquilo que planta. Que estejamos vivos para colher nossos frutos. E que haja amor quando esse dia chegar. Amanhã o calendário dirá dia 7, e o bicho estranho do tempo continuará sua carreira. Mas hoje, eu permito que a parte de mim que ficou no caixão descanse em paz, para que a parte que ficou aqui fora possa continuar sendo as mãos que cuidam do avô e os olhos que veem o amor onde o monstro só viu números. À minha amada avó, meu coração.
2 Comentários
- Mariana Bezerra
Que texto! Não tem como não se emocionar e não se sentir tocado com a sua história e palavras.Que você possa a cada se ressignificar enquanto pessoa e profissional, és gigante!
Que Deus esteja sempre contigo, querida. - maria eduarda
Muito emocionante.