Jornal Tribuna

Segurança do Pix avança e exige transformação tecnológica imediata

Por Juliana Tancler·
Segurança do Pix avança e exige transformação tecnológica imediata

Com a recente entrada em vigor das novas regras do Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0) em fevereiro, as instituições financeiras enfrentam agora a contagem regressiva para o próximo marco regulatório. No dia 1º de março, encerra-se o prazo de adequação à Resolução nº 5.274 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que exige um salto imediato na maturidade tecnológica e na governança digital do setor.

Enquanto o novo MED permite rastrear valores desviados por até cinco camadas de contas, a Resolução 5.274 foca na infraestrutura que sustenta essa operação. O aperto regulatório ocorre em meio à expansão acelerada do Pix, que já se consolidou como o meio de pagamento mais utilizado no país.

Segundo o Banco Central do Brasil, o sistema movimenta bilhões de transações por mês e registra picos diários de centenas de milhões de operações, evidenciando a escala e a criticidade da infraestrutura para o sistema financeiro. O crescimento acelerado trouxe consigo o desafio da migração do crime para o ambiente digital.

“O Pix transformou o dinheiro físico em fluxo digital instantâneo. Antes, a proteção era física, com polícia na porta da agência e controle sobre caixas eletrônicos. Hoje, o ‘carro-forte’ é digital e as camadas tecnológicas precisam ser equivalentes”, afirma João Ricardo Almeida, Head de Open Finance Latam da Sensedia, líder global em soluções de API Management e Integração.

Para Samara Rodrigues de Lima, Product Manager da suíte TechPay da Topaz, empresa de tecnologia especializada em soluções financeiras digitais na América Latina, o momento marca uma virada estrutural na forma como as instituições lidam com risco e governança. “A Resolução 5.274 consolida a segurança como parte central da arquitetura bancária. Não se trata apenas de cumprir uma regra, mas de garantir rastreabilidade e capacidade de resposta em tempo real dentro dos sistemas transacionais.”

Rastreamento financeiro em tempo real 

O principal avanço deste ciclo regulatório é o reforço da cooperação entre instituições financeiras para bloqueio ágil de valores suspeitos. Na prática, o modelo passa a priorizar o rastreamento contínuo dos recursos a partir de notificações de fraude, permitindo identificar contas intermediárias e acionar bloqueios preventivos em cadeia.

A medida mira especialmente esquemas que utilizam múltiplas contas digitais com documentação irregular para fragmentar valores e dificultar a identificação da origem do dinheiro. “A sofisticação das fraudes exige interoperabilidade plena entre as instituições. O bloqueio precisa acontecer na mesma velocidade em que a transação circula. Isso demanda APIs resilientes, integração contínua com o Banco Central e monitoramento inteligente de eventos”, explica Almeida.

Lima complementa que o desafio é garantir que essa rastreabilidade não comprometa a experiência do usuário. “A inteligência antifraude precisa estar embarcada no core bancário, end-to-end, e operar de forma invisível para o cliente. A eficiência do modelo está justamente na capacidade de proteger sem gerar fricção desnecessária”, ressalta a especialista.

Prazo regulatório pressiona revisão tecnológica 

A necessidade de invisibilidade e velocidade, no entanto, esbarra na capacidade técnica instalada. Para que o rastreamento em tempo real saia do papel e atenda às exigências da Resolução 5.274 até o final de março, as instituições precisam revisar sua arquitetura tecnológica de ponta a ponta.

Neste cenário de adequação urgente, as APIs e gateways surgem como elementos críticos de blindagem destacados pela Sensedia e pela Topaz:

  • Autenticação e identidade: implementação robusta de duplo fator (2FA), biometria comportamental e validação facial.
  • Defesa anti-abuso: uso de mecanismos anti-automação para evitar consultas massivas de chaves Pix.
  • Segurança de infraestrutura: isolamento de redes internas e proteção de certificados digitais.
  • Monitoramento de APIs: configuração de rate limit e observabilidade de tráfego anômalo.

“A Resolução 5.274 não trata de um ajuste pontual. Ela exige maturidade arquitetural e observabilidade em tempo real. As APIs são as portas dessa estrutura digital e precisam de blindagem específica para evitar abuso e exploração”, ressalta Almeida.

Na visão da Topaz, a adequação passa também pela modernização dos sistemas centrais. “Instituições que ainda operam com arquiteturas legadas precisarão acelerar a transformação. A nova regra exige visão consolidada das transações, integração entre motores de monitoramento e capacidade de resposta coordenada. Isso implica revisão de processos internos e investimento em automação”, afirma Lima.

Segurança como atributo do produto

Desde 2024, o Banco Central vem impondo camadas adicionais, como exigências mais rígidas na abertura de contas e restrições a instituições sem garantias adequadas. O desafio agora é equilibrar proteção robusta e fluidez operacional.

“Regulação e cibersegurança deixaram de ser backoffice. Elas fazem parte da estratégia do produto financeiro. O Pix é hoje a espinha dorsal da economia digital brasileira, e sua integridade depende de uma arquitetura preparada para escalar com segurança”, afirma Almeida.

Lima reforça que a segurança passou a ser um diferencial competitivo. “A experiência do usuário só é sustentável se for baseada em confiança. As instituições que conseguirem transformar conformidade regulatória em eficiência operacional e transparência sairão na frente. Segurança não é barreira à inovação, é o que permite que ela aconteça.”

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