Folha de papel em branco!

Parece coisa de louco. Começar uma crônica com este título, você, leitor, deve pensar: o que será que este maluco vai escrever? Calma, no final do texto você vai entender.
Acontece que descobri que, numa folha em branco, sou obrigado a pensar. Como pensar cansa, o jeito é soltar a imaginação, como na música “Aquarela” do cantor Toquinho. Uma música cheia de verdades.
Hoje, quando me sentei na frente do meu computador, minha cabeça estava vazia, e uma certa tristeza invadia meu coração. Foi então que recorri à imaginação, e aí, caros amigos, comecei a navegar por essa folha, antes totalmente branca. Minto! Porque ela fez conexão íntima com meu inconsciente, e ele não está nada branco. Pelo contrário, está cheio de recordações.
E, em contato com ele, começaram a brotar cenas dos dias felizes à beira do mar com a pessoa amada, com conhecidos, hoje ausentes. Cervejas, brincadeiras com amigos. Areia quente. Mar refrescante. Mergulhos no mar para tirar o suor. Sim, muitos amores que vivi surgiram na minha folha em branco.
Visitei os melhores momentos da minha vida: percorri os jardins floridos da minha infância, o romantismo da juventude, regador de chuvas de estrelas e noites amorosas ao luar. Serenatas a tantas Marias que me encheram de paixões. Beijos e abraços incontáveis.
Passei pelas bucólicas cidades do interior, cavalguei em pradarias que talvez nem mais existam, pelo menos como eram naquele tempo. Vi estrelas cadentes celebrando uma nova paixão. Paixões que aconteciam quase sempre! Tive muita sorte no amor.
Fico arrepiado com tantas recordações que, com a folha de papel em branco, podem ressuscitar e se manifestar no meu coração, um arcabouço de meus sentimentos.
Às vezes, me pego sorrindo sozinho diante dessas lembranças. Como é curioso perceber que uma simples folha pode ser o passaporte para tantas vidas que já vivi em mim mesmo. Talvez cada um de nós carregue, guardado dentro do peito, um livro inteiro esperando por páginas em branco onde possamos eternizar nossos momentos e emoções.
Enfim, choro de recém-nascidos, hormônios fervilhando, vencendo a adolescência. Dia e noite. Noite e dia. Até à cumplicidade da vida adulta que gerou frutos. Frutos que, com certeza, preencheram, como eu, milhares de folhas de papel em branco, para todo e sempre.
Na certeza de que amanhã haverá mais folhas de papel em branco para eu preenchê-las, destruo então esta folha antes virgem, na esperança de que amanhã outras folhas estarão me esperando. Que sejam infinitas enquanto eu durar, parafraseando nosso grande escritor Vinícius de Moraes…agora, caro leitor, vou dormir e sonhar mais um pouco, …