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Dica de Série: “Fallout” – O brilho radioativo de um mundo em ruínas

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Dica de Série: “Fallout” – O brilho radioativo de um mundo em ruínas

Há algo de perturbadoramente familiar em Fallout, série lançada em 2024 e disponível no streaming Amazon Prime Video, como se aquele deserto nuclear fosse apenas uma versão mais sincera do mundo em que já vivemos hoje. Não é só uma adaptação competente de um game de culto, é um espelho cínico e colorido demais apontado para a nossa fé infantil no progresso, na tecnologia e nas grandes corporações que prometem segurança enquanto cavam, em silêncio, o próprio fim.

O ponto de partida é simples e devastador uma guerra nuclear encerra o mundo tal como o conhecemos e a sobrevivência passa a ser um privilégio negociado em abrigos subterrâneos, controlados por uma empresa que transforma o apocalipse em modelo de negócios. Os “Vaults” são condomínios fechados levados às últimas consequências, onde a ideia de comunidade convive com experimentos sociais sinistros, controle comportamental e uma ética pasteurizada que se desfaz no primeiro contato com a superfície. Quando Lucy MacLean decide sair do conforto asséptico do Refúgio 33 para resgatar o pai sequestrado, aquilo que parecia ordem revela-se como mera ignorância bem-intencionada diante de um mundo que nunca deixou de ser violento, desigual e negociado na base da força.

Visualmente, Fallout é um choque de contrastes um deserto devastado, habitado por saqueadores, mutantes e ghouls, atravessado por um humor ácido que não pede licença para rir da tragédia. É como assistir a um velho comercial otimista dos anos 1950 sendo lentamente corroído pela ferrugem e pela radiação, até restar apenas um sorriso duro, congelado no rosto de quem já percebeu que o “sonho americano” era só mais um produto de prateleira. A série abraça a estética do exagero não para nos afastar, mas para escancarar o ridículo de um sistema que prefere explodir o planeta a abrir mão de seus privilégios.

Talvez o traço mais inquietante de Fallout esteja na forma como trata a memória e a verdade nesse mundo arrasado, versões oficiais da história são disputadas a bala, documentos desaparecem em bunkers corporativos e cada personagem carrega fragmentos de narrativas que não se encaixam perfeitamente. O passado vira território de guerra, e o que está em disputa não é só quem sobreviveu, mas quem terá o direito de dizer como tudo aconteceu, o que é, no fundo, uma parábola cruel sobre revisionismos, negacionismos e a facilidade com que o poder reescreve o desastre como se fosse um acidente inevitável.

Ao longo dos episódios, a violência nunca aparece como exceção, mas como gramática cotidiana daquele mundo, uma linguagem que todos conhecem, ainda que alguns tentem, desesperadamente, falar outra. A ingenuidade de Lucy, o pragmatismo do ghoul Cooper Howard e o oportunismo vacilante de Maximus formam um triângulo moral em constante atrito, no qual nenhuma posição é confortável por muito tempo, como se a série insistisse em nos lembrar que, num mundo destroçado, qualquer pureza tende a ser rapidamente triturada pelas engrenagens da sobrevivência.

Existe, porém, uma melancolia subterrânea em Fallout algo que escapa ao cinismo fácil e se manifesta na pergunta silenciosa que atravessa a série o que restará de humano quando tudo tiver sido reduzido a recurso, território ou arma. Entre explosões, tiroteios e criaturas deformadas, surgem interstícios de ternura precária, afetos improvisados, pequenas fidelidades que resistem onde a política falhou, como se a única utopia possível depois do fim fosse a de vínculos frágeis, feitos de promessas que ninguém tem certeza se pode cumprir.

Ao adaptar um jogo famoso, a série poderia ter se limitado à nostalgia, mas escolhe uma via mais ambiciosa, atualiza o imaginário pós-apocalíptico para uma era em que já convivemos diariamente com colapsos graduais, sejam eles econômicos, ambientais ou institucionais. Nesse sentido, Fallout não fala apenas de um futuro hipotético em ruínas, fala da sensação contemporânea de que a catástrofe deixou de ser evento para se tornar modo de operação, administrado com eficiência e branding por quem lucra com o medo.

Fallout é, portanto, menos sobre o fim do mundo e mais sobre a obscena capacidade humana de transformar até o fim do mundo em oportunidade de negócio e de poder. Entre humor negro, comentários sociais e imagens inesquecíveis de um planeta devastado, a série constrói um comentário incômodo sobre o presente, encharcado de ironia, violência e uma estranha beleza radioativa que insiste em brilhar sobre os escombros.

Nota 9,0 de 10.

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