CIÊNCIA EM COLAPSO: Entre o Autismo e a Teoria da Variação Natural no Desenvolvimento Cerebral

A ciência, em seus diversos campos, tem atravessado um martírio imposto por ideologias, vaidade e interesses espúrios.
Recentemente, pesquisadores da Stanford University, entre outros, publicaram artigos que estão começando a provocar um movimento conceitual perigoso, no que refere-se à clínica do autismo, que é ainda muito nova e precisa ser protegida pelo rigor da genuína prática científica.
A proposta dos respectivos pesquisadores:
- Paradigma da Neurodiversidade: Defensores desse paradigma, como Judy Singer, propuseram que variações neurobiológicas como o autismo devem ser reconhecidas como variações naturais do genoma humano, e não como patologias a serem tratadas.
- Evolução Cognitiva: Seus estudos indicam que os mesmos genes e processos evolutivos que tornaram o cérebro humano capaz de linguagem complexa e raciocínio avançado também estão ligados ao autismo e outras condições, indicando uma “troca evolutiva” (trade-off).
- Vantagem Evolutiva: A ideia é que o funcionamento cerebral autista — com alta capacidade de foco, reconhecimento de padrões e atenção a detalhes — representaria adaptações evolutivas, e não disfunções. Seriam, portanto, uma “variante da inteligência” humana.
- Conclusão: Suas pesquisas indicam que neurônios da camada externa do cérebro humano (L2/3 IT) evoluíram mais rapidamente, coincidindo com a rápida evolução de genes ligados ao autismo, sugerindo que o autismo é, de fato, um resultado da evolução biológica humana.
Esse posicionamento — entre outros — revelam a decadência, o colapso em que a ciência está entrando.
Afirmar que o autismo é, basicamente, uma variação natural do neurodesenvolvimento humano confunde dois planos distintos: o plano da origem e o plano da função.
O fato de uma condição ter base genética, ser hereditária e ocorrer naturalmente na espécie humana não a isenta de produzir prejuízos clínicos reais, nem a transforma automaticamente em uma variação neutra ou equivalente a outras formas de funcionamento psíquico.
Diversas condições amplamente reconhecidas como transtornos — epilepsias genéticas, esquizofrenia, transtornos do desenvolvimento intelectual — também são naturais, hereditárias e resultam de múltiplos genes presentes na população geral.
A ciência nunca utilizou a naturalidade ou a hereditariedade como critério para negar o estatuto clínico de uma condição, mas sim o impacto funcional, o sofrimento subjetivo e os limites impostos à autonomia e à inserção simbólica do sujeito.
O argumento genético, frequentemente mobilizado para sustentar a ideia de “neurodiversidade neutra”, é frágil. Os genes associados ao autismo não “codificam” um estilo cognitivo alternativo, mas participam de processos fundamentais do desenvolvimento cerebral. O que caracteriza o autismo não é a presença desses genes — comuns a toda a espécie —, mas configurações específicas que produzem desregulações funcionais, frequentemente associadas a dificuldades significativas na comunicação, na integração sensorial, na flexibilidade psíquica e no laço social.
Reduzir o autismo a uma diferença perceptiva ou cognitiva ignora deliberadamente os graus de comprometimento, apagando a realidade de pessoas com quadros severos, dependência vitalícia, sofrimento intenso e limitações profundas. Essa narrativa, longe de ser inclusiva, acaba beneficiando apenas os casos mais leves, enquanto transforma o sofrimento clínico em uma abstração ideológica.
Além disso, há um reducionismo implícito nessa concepção: o sujeito passa a ser definido exclusivamente por sua arquitetura neural. Essa visão biologizante confunde cérebro com sujeito e identidade com funcionamento neuronal, desconsiderando a dimensão simbólica, relacional e desejante que constitui a experiência humana. O sujeito não é uma consequência direta do cérebro, mas emerge da mediação entre corpo, linguagem, desejo e cultura.
Reconhecer a dignidade, os direitos e o valor das pessoas autistas é uma exigência ética incontornável. Contudo, isso não exige negar a dimensão clínica do autismo, nem redefinir conceitos científicos para atender a agendas morais. Respeito não depende de negar o sofrimento; inclusão não exige apagar a patologia.
Reitero: tratar o autismo exclusivamente como “variação natural” não amplia a compreensão científica nem melhora o cuidado — ao contrário, empobrece a clínica, silencia o sofrimento real e substitui o rigor conceitual por uma narrativa identitária que pouco ajuda aqueles que mais necessitam de suporte.
Autor:
Cesar Tólmi – Dr. Honoris Causa em Psicanálise, Especialista MBA em Gestão Estratégica de Pessoas, em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica, em Perícia Criminal, em Análise do Comportamento Autista (ABA), em Neurociência Clínica, em Ciências da Religião, Graduado com Licenciatura Plena em Filosofia.
E-mail: cesartolmi@gmail.com