Carnaval como Capital Político: A captura do rito popular e a erosão do espaço catártico

O Carnaval brasileiro sempre foi mais do que festa. Ele funcionou como válvula simbólica da sociedade — um espaço de catarse coletiva onde tensões sociais podiam ser dramatizadas, ironizadas, criticadas e, por algumas horas, reorganizadas. A avenida era o território onde o povo falava.
Esse é o ponto decisivo: o Carnaval era linguagem popular.
Historicamente, seu poder residia na ambivalência. Mesmo quando abordava temas políticos, operava por inversão: o poder era tensionado, caricaturado, relativizado. A crítica podia ser ácida, mas não era unidirecional. O riso preservava humanidade, inclusive do adversário. Havia conflito simbólico, não aniquilação moral.
O desfile da Acadêmicos de Niterói, homenageando o presidente em exercício Luiz Inácio Lula da Silva, introduz um elemento novo e estruturalmente inquietante: a conversão do rito popular em capital político.
Não se trata apenas de tematizar uma figura pública. Trata-se de monumentalizar o titular do poder executivo, em ambiente eleitoral, mobilizando símbolos historicamente associados à sua identidade partidária e à sua campanha — o coro repetido do nome, alusões numéricas reconhecíveis, referências indiretas a adversários sob a fórmula moralizante de “mitos falsos” e “sem anistia”.
Quando a narrativa épica substitui a ambivalência, algo muda.
A instrumentalização como estratégia de hegemonia
Instrumentalização política não é necessariamente propaganda explícita. Ela ocorre quando um espaço cultural de grande densidade afetiva é mobilizado como vetor de consolidação simbólica de poder.
O Carnaval é o maior espetáculo popular do país. Sua audiência é massiva. Seu impacto imagético é profundo. Sua legitimidade cultural é histórica. Transformá-lo em palco de exaltação de um líder em exercício equivale a converter patrimônio simbólico coletivo em ativo estratégico de disputa eleitoral.
Isso não precisa ser ilegal para ser politicamente potente.
O problema não é a liberdade artística da escola. O problema é a captura estrutural de um rito que pertence ao imaginário popular para servir à produção de hegemonia política.
Quando ações judiciais são propostas, quando órgãos de controle analisam financiamento público, quando ministros eleitorais são instados a examinar limites entre arte e propaganda, o próprio sistema reconhece que a fronteira foi tensionada.
Mas há algo ainda mais grave.
A desumanização do adversário
O Carnaval tradicionalmente expunha contradições sociais, não demonizava indivíduos. A crítica vinha carregada de ironia, não de anulação moral.
Quando o enredo incorpora fórmulas que associam o adversário político à falsidade ou à necessidade de punição definitiva, o que emerge não é apenas exaltação de um lado, mas desqualificação simbólica do outro.
O rito deixa de ser espaço de dramatização das tensões e passa a operar como mecanismo de distinção moral absoluta: heróis de um lado, indignos do outro.
A desumanização começa no símbolo.
E quando o maior rito popular do país passa a reproduzir essa lógica, o espaço que antes acolhia conflito simbólico torna-se ambiente de polarização consolidada.
A avenida deixa de ser território comum e passa a ser trincheira estética.
O povo perde
Mas o dano mais profundo não está na disputa entre partidos.
Está na perda do povo.
O Carnaval sempre foi espaço de catarse coletiva. O trabalhador, o desempregado, o morador da periferia, o pequeno comerciante — todos encontravam ali um momento de suspensão das pressões ordinárias. A crítica vinha misturada à alegria. A política vinha dissolvida na música.
Quando esse espaço é absorvido por estratégias de perpetuação de poder, algo se retira da população: o direito ao rito desinteressado.
A festa deixa de ser território de crítica construtiva e alegria compartilhada para tornar-se engrenagem simbólica de projetos eleitorais.
O povo, que era sujeito do rito, converte-se em plateia de narrativa política.
E isso é a maior inversão de todas.
Porque o Carnaval nasceu como linguagem do povo sobre o poder. Se passa a funcionar como linguagem do poder sobre o povo, sua função histórica se altera radicalmente.
A mutação democrática
Democracias não se sustentam apenas por eleições. Sustentam-se por ecossistemas simbólicos saudáveis, onde cultura, crítica e disputa política coexistem sem colonização recíproca.
Quando o poder absorve o rito popular para reforçar sua própria imagem, ele amplia sua presença para além das instituições formais. Passa a ocupar o imaginário.
E quando o imaginário coletivo é capturado, a crítica se empobrece.
A avenida já não suspende a ordem. Ela a confirma. E o espaço catártico que pertencia ao povo transforma-se em palco de consolidação eleitoral.
A maior perda não é jurídica. É simbólica. E é o povo quem paga por ela — privado de seu território ritual de crítica, alegria e humanidade compartilhada.
Autor:
Cesar Tólmi – Dr. Honoris Causa em Psicanálise, Especialista MBA em Gestão Estratégica de Pessoas, em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica, em Perícia Criminal, em Análise do Comportamento Autista (ABA), em Neurociência Clínica, em Ciências da Religião, Graduado com Licenciatura Plena em Filosofia; jornalista.
E-mail: cesartolmi@gmail.com