Jornal Tribuna

Babysitter pra cachorro

Por edicao·
Babysitter pra cachorro

Já fiz muitas coisas na Alemanha, mas o que eu mais gostei até hoje, foi  de ser Babá de Cachorro. Isto é, de ir passear com o bichinho.

É claro que tive que aprender primeiro o alemão para poder conseguir o tal emprego. Não foi fácil não!

Pensando bem, depois fazer duas universidades no Brasil e quando cheguei aqui, tentei o tal emprego, mas foi muito difícil conseguir um, pois toda vez que eu via o anúncio no jornal, eu  telefonava para  as senhoras donas dos vira- latas  e me propunha a  dar voltas com o seu cão. Elas vinham  sempre com a  mesma indagação:

– A senhora fala alemão?  Se não fala, não pode se comunicar com o meu cão!

Ok, fiz três anos de alemão. Por isso, depois do meu Diploma Deutsch als Fremdsprache (Curso de Alemão como Língua Estrangeira) consegui um lugar de baby-sitter  canina.

Agradeço imensamente à senhora Liebehund, que confiou em mim e me permitiu ter o emprego desejado de passear com o seu Poodle.

Digo que, na verdade, não era eu que andava com ele. Ele que me arrastava para onde ele queria ir. Era uma verdadeira briga de foice.

Vocês não acreditam!

O diabo do cachorrinho tinha uma força de um Fila Brasileiro. Carregava-me para as gramas lamacentas e para as áreas cheias de cocô de outros cães. Pior era  nos dias de chuva, a criatura  me botava em todas as poças d’água e quando chegávamos na sua casa, ele me dava um banho se sacudindo todo.

Assim mesmo, eu gostava doTeddy, esse era o seu nome.

Uma vez porque o apartamento estava cheirando muito mal, abri todas as janelas. Neste dia, a dona do cachorro me telefonou à noite e pediu:

– Pelo Amor de Deus, deixe tudo fechado!  O Teddy latiu o dia inteiro e não deixou o vizinho dormir, e ele chamou a polícia.  A Polícia não pode fazer nada, mas acabou telefonando para me avisar que o meu pobre cachorrinho latiu insistentemente igual a um verrückt (louco).

Nunca mais deixei nada aberto, examinava tudo. Se a janela do quarto do casal estava inclinada (as janelas aqui a gente pode fazer igual a um basculante), eu cerrava imediatamente. Por causa disso, quase perdi o meu emprego. Se acontecesse de novo, eu estaria na rua e sem cachorro.

Às vezes, nos nossos passeios pelo parque, encontrávamos com a cachorrada. Isso era terrível! Ele adorava uma briga, seja qual fosse o tamanho do outro animal. Quando eu via algum bicho se aproximar, olhava sempre por entre as pernas do outro animal, se fosse uma cadela, não tinha problema, mas se fosse um macho, pernas para que te quero. Lá ia eu correndo, puxando o infeliz do Teddy, que já rosnava para o seu rival.

Um dia, levei a minha filha junto. Era uma confusão danada. A menina no carrinho de bebê, a coleira enfiada do lado direito de onde eu segurava o carrinho. O cachorro corria, atrás dele ia a Clara no Kinderwagen (carrinho de bebê) e atrás dos dois, corria eu.

Neste dia, para completar, quando deixei o cão na sua casa, tirei a minha filha do carrinho enquanto fui ao banheiro. Quando cheguei  à cozinha encontrei a Clara comendo  a comida do Teddy. Ela não latiu e o cachorro não falou. Então para mim estava tudo normal. Pensei:

“Vai ter dor de barriga”. Não teve absolutamente nada e acho que até gostou, pois toda vez que ia com ela à casa do cachorro, a menina corria para a vasilha de ração do animal.

Depois de um tempo, a senhora Liebehund se mudou. Assim eu perdi o meu maravilhoso emprego de  babá de cachorro.

Autora:

Dulce Magnani-Hüller

Comentários

Deixe um comentário