Jornal Tribuna

Humor Nas Redes Sociais: Até Que Ponto É Apenas Brincadeira?

Por edicao·
Humor Nas Redes Sociais: Até Que Ponto É Apenas Brincadeira?

Em um desses dias, aproveitando um momento ocioso enquanto navegava por vídeos curtos em uma rede social, deparei-me com uma situação que me provocou diversas reflexões. Entre tantos conteúdos consumidos quase que automaticamente, chamou-me a atenção um vídeo que utilizava a imitação de uma pessoa surda, apresentado como algo humorístico. Aquela cena, embora enquadrada como brincadeira, evidenciava o quanto as redes sociais também podem funcionar como espaços de reprodução e naturalização da exclusão. Apesar das políticas de moderação existentes, ainda é possível observar a circulação de conteúdos que utilizam a imitação de pessoas com deficiência como forma de recreação, mascarando o capacitismo sob o rótulo do humor. Refletir criticamente sobre esse tipo de produção costuma gerar reações imediatas, como acusações de exagero, de “ver preconceito em tudo” ou de tentar eliminar o humor das interações sociais. No entanto, problematizar essas práticas não significa negar o riso ou censurar a leveza. O que se questiona não é a existência do humor, mas a forma como ele é produzido e quem se torna alvo dele. Quando a graça se sustenta na ridicularização de grupos historicamente marginalizados, o entretenimento passa a operar como mecanismo de exclusão.

Enquanto discente de um curso de licenciatura em Educação Especial e Inclusiva, esse episódio levou-me a refletir de forma mais aprofundada sobre como a deficiência tem sido frequentemente utilizada como objeto de humor nas redes sociais. Vivemos em um tempo em que essas plataformas ocupam um lugar central na formação de opiniões, comportamentos e referências sociais. Elas informam, entretêm e aproximam pessoas, mas também possuem o poder de reforçar estereótipos e normalizar preconceitos. Conteúdos deste tipo, muitas vezes compartilhados sem reflexão crítica, reforçam estigmas históricos e contribuem para a manutenção de uma lógica que inferioriza e deslegitima pessoas com deficiência. Quando modos de comunicação, características corporais ou comportamentos são imitados para provocar riso, o que se constrói não é humor inocente, mas violência simbólica. Esse cenário torna-se ainda mais preocupante quando tais discursos alcançam crianças e adolescentes, sujeitos em processo de construção de valores e de compreensão do mundo.

Diante desse contexto, enquanto educadora, compreendo que a conscientização sobre práticas excludentes nas redes sociais não é responsabilidade exclusiva da escola, mas de toda a sociedade. Ainda assim, o espaço escolar se configura como um importante lugar de diálogo e mediação, capaz de favorecer reflexões críticas sobre os discursos que circulam no meio digital. Mais do que um espaço de transmissão de conteúdos, a escola pode contribuir para a formação ética ao problematizar a linguagem utilizada, questionar concepções de normalidade e promover debates que levem os estudantes a compreenderem que a diferença não é motivo de riso, mas a expressão da diversidade humana. Como afirma Maria Teresa Eglér Mantoan, “não podemos negar que o nosso tempo é o tempo das diferenças e que a globalização tem sido, mais do que uniformizadora, pluralizante, contestando as antigas identidades essencializadas. Conviver com o outro, reconhecendo e valorizando as diferenças, é uma experiência essencial à nossa existência, mas é preciso definir a natureza dessa experiência, para que não se confunda o estar com o outro com o estar junto ao outro”. Neste sentido, a educação se afirma como ponte para o diálogo, para o questionamento crítico e para a valorização da diversidade.

Essa reflexão se torna ainda mais urgente em um contexto em que a convivência digital ocupa lugar central nas relações sociais. Educar para a inclusão é educar para o respeito. É compreender que pessoas com deficiência não são personagens de entretenimento, mas sujeitos de direitos, com histórias, potencialidades e singularidades. Enquanto a exclusão continuar sendo tratada como brincadeira, a educação precisará ser resistência ao preconceito, ao silêncio e à naturalização da desigualdade. Porque incluir não é apenas permitir a presença, mas garantir dignidade, respeito e humanidade, dentro e fora das redes sociais.

Autora:

Lhays Ingryd Soares Leite é professora da rede municipal de educação e acadêmica do curso de segunda licenciatura em Educação Especial e Inclusiva da Universidade Federal de Rondonópolis.

Comentários

Deixe um comentário