Falando em celular…

Antigamente na sala de espera dos consultórios aguardando para sermos atendidos pelo médico (a), tínhamos à nossa disposição uma infinidade de revistas para lermos ou apenas folhearmos. Sem falar da possibilidade de iniciarmos um breve diálogo com alguém mais próximo de onde estivéssemos sentados.
Atualmente tendo a companhia do “celular”, sou obrigado a admitir que o ser humano está cada vez mais dependente deste dispositivo que não sai de suas mãos, nem por decreto. Tal qual uma abstinência, no sentido de não conseguir se abster ou privar-se de algo.
Dia desses em uma clínica médica, aguardando para efetuar um exame de rotina, percebi um fato rotineiro entre as pessoas. Sem exceção, todas que aguardavam para fazerem seus respectivos exames, estavam com seus celulares em mãos.
Como articulista em busca de um tema para discorrer em meus artigos, percebi que aquele ambiente fornecia uma boa matéria. Uma vez que falar em público através do celular, independente dos assuntos a serem discorridos, se tornou um hábito.
Uma jovem vestida para matar, extremamente elegante e chamativa, com o objetivo de impactar ou seduzir alguém, dialogava dizendo – Você vive marcando encontros e não aparece. Tenho a impressão de que você está me embromando. Desta vez você vêm? Ou vou ter que ir buscá-lo pessoalmente em seu apartamento?
Um rapaz com os braços todo tatuado com frases e desenhos abstratos, dialogava dizendo – Qual é a tua, mano? Tá com medinho de fazer tatuagem? Você já fez coisa pior. Olha, vou bater uma real – Se você aparecer sem tatuagem no reduto da turma logo mais à noite, nós vamos te enquadrar. Tá ligado, mano?
Uma mulher casada, provavelmente com filhos adolescentes, depois de várias tentativas consegue finalmente falar com sua filha – Charlotte, não desliga! Vou sair tarde do consultório. Por favor, prepare o jantar. Não tem tempo? Está saindo para um rolê? Se eu quiser jantar que eu mesma faça ou peça uma pizza pelo delivery?…
Um casal de idosos, cada qual com seu celular, digitavam com uma certa dificuldade devido as mãos trêmulas e a visão fraca, um texto no teclado do celular. Percebi que ambos estavam se comunicando através de mensagens pelo WhatsApp, quando ele se virou para ela e perguntou – A palavra manjericão se escreve com “J” ou com “G”?
Um adolescente que acompanhava seu pai, em determinado momento exclamou – O escritor americano Mark Twain, em uma de suas frases escreveu – Daqui a 20 anos você estará mais decepcionado pelas coisas que não fez, do que pelas coisas que fez. No que seu pai, responde – Uma grande realidade meu filho…
Completamente imerso em meus pensamentos, antenado a tudo que acontecia ao meu redor, percebi as pessoas sendo chamadas uma a uma para suas respectivas consultas. Alguém sentado próximo de mim, com cara de curioso, por não ter me visto com celular, exclamou – Você não tem celular? Com o simples objetivo de “testá-lo” e ver a sua “reação”, pois também tenho celular, respondi – Não!
Autor:
Carlos R. Ticiano