Dica de Leitura: “Vila Mimosa – Etnografia da Cidade Cenográfica da Prostituição Carioca”, de Soraya Silveira Simões

O livro Vila Mimosa: Etnografia da Cidade Cenográfica da Prostituição Carioca, de Soraya Silveira Simões, publicado em 2010 pela Editora da UFF, surge como um mergulho etnográfico profundo na zona de prostituição mais icônica do Rio de Janeiro, localizada na Rua Sotero dos Reis, na Praça da Bandeira. Resultado de dois anos de pesquisa de campo pela antropóloga Soraya Simões, a obra revela não apenas as dinâmicas do comércio sexual, mas uma estrutura social complexa, com bares, bordéis e associações que organizam a vida cotidiana de cerca de mil e quinhentas prostitutas em setenta e oito casas. Ao denominar o local de “cidade cenográfica”, a autora destaca como esse espaço se constrói como um palco encenado, onde papéis sociais são performados sob luzes neon, desafiando visões simplistas de caos e degradação.?
Essa perspectiva etnográfica humaniza as figuras estigmatizadas, expondo relações de trabalho regidas por códigos internos, proteção mútua e até mobilizações políticas, como a compra coletiva do galpão que consolidou a Vila após a remoção da área original. Simões reconstrói a história da prostituição carioca, ligando-a à extinta Zona do Mangue e à segregação urbana promovida por autoridades e Igreja, que opunham a “esposa obediente” à “prostituta má”, perpetuando violências e controles. No entanto, a força da obra reside em mostrar a agência das mulheres: cafetinas e prostitutas não são vítimas passivas, mas agentes econômicas que negociam territórios, clientes e hierarquias, com “privilégios” para “não pagantes” que transitam nas bordas da transação comercial tradicional.?
Em uma sociedade que ainda criminaliza a prostituição ao punir o “estabelecimento” em vez do ato, o livro de Simões provoca uma reflexão urgente sobre políticas públicas no Rio de Janeiro de 2026. A persistência da Vila Mimosa, com sua rotina tranquila apesar da aparência lasciva, questiona narrativas moralistas e clama por reconhecimento legal das trabalhadoras sexuais, evitando hipocrisias que as empurram para a invisibilidade ou a violência. Essa etnografia não romantiza o ofício, mas desmonta preconceitos, revelando uma microeconomia urbana que espelha as contradições da metrópole carioca, onde o prazer pago sustenta famílias e redes solidárias. Ler Simões é enxergar além do neon: uma crítica à ordem social que segrega corpos enquanto lucra com eles.