Dica de Leitura: “Que Tenhas Teu Corpo – Uma História Social da Prostituição no Rio de Janeiro das Primeiras Décadas Republicanas”, de Cristiana Schettini

O livro de Cristiana Schettini oferece uma análise profunda sobre a prostituição no Rio de Janeiro durante as primeiras décadas da República, revelando como essa prática se entrelaçava com as transformações urbanas e políticas da época. A autora, em sua tese de doutorado defendida na Unicamp e publicada pelo Arquivo Nacional, utiliza fontes como processos criminais de lenocínio, registros policiais e narrativas sobre o tráfico internacional de mulheres para desconstruir visões simplistas do tema. Essa abordagem destaca não apenas a repressão estatal, mas também a agência das prostitutas em negociações cotidianas por direitos e espaço urbano.?
Schettini foca nas relações tensas entre prostitutas e autoridades policiais, mostrando como as mulheres recorriam a recursos jurídicos, como o habeas corpus , para resistir a remoções forçadas de bairros centrais. Episódios como a campanha na Praça da Constituição ilustram essa dinâmica, onde prostitutas pobres, com apoio de advogados como Evaristo de Moraes, desafiavam a polícia que as via como ameaça à moral republicana. O título do livro, extraído dessa expressão jurídica que significa “que tenhas teu corpo”, simboliza essa luta por autonomia corporal em meio ao projeto higienista de modernização da cidade.?
A obra também explora o discurso sobre o “tráfico branco de mulheres”, adaptado no Brasil para justificar controles sobre a prostituição, associando-a a imigrantes e pobres locais em zonas como o Mangue. Schettini revela como esses narrativas serviam mais a interesses de ordem social do que a proteção real, integrando-se às reformas urbanas que segregavam classes perigosas. Ao privilegiar vozes das prostitutas em processos judiciais, a autora humaniza figuras historicamente estigmatizadas, evidenciando conflitos de gênero, classe e raça na nascente República.?
Em um momento em que o Rio busca resgatar sua memória social complexa, o livro de Schettini urge uma releitura crítica da história republicana, questionando narrativas elitistas que ignoram resistências populares. Sua metodologia rigorosa, dividida em capítulos que mapeiam contextos geográficos, relações de poder e conflitos judiciais, torna a obra essencial para entender como a prostituição moldou, e foi moldada por, a cidade. Ler “Que Tenhas Teu Corpo” é confrontar o passado para iluminar desigualdades persistentes na sociedade brasileira contemporânea.