Jornal Tribuna

Dica de Leitura: “Por um Feminismo AfroLatinoAmericano”, de Lélia Gonzalez – Um Chamado Urgente à Interseccionalidade

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Dica de Leitura: “Por um Feminismo AfroLatinoAmericano”, de Lélia Gonzalez – Um Chamado Urgente à Interseccionalidade

Lélia Gonzalez, em sua obra Por um Feminismo AfroLatinoAmericano, organizada por Flávia Rios e Márcia Lima e lançada em 2020 pela Zahar, reúne ensaios, intervenções e diálogos produzidos entre 1979 e 1994 que expõem as falhas do feminismo latino-americano tradicional. A autora, filósofa, antropóloga e militante pioneira do movimento negro e feminista no Brasil, denuncia a exclusão sistemática das mulheres negras e indígenas, vítimas de uma opressão tripla marcada por raça, gênero e classe no contexto do capitalismo patriarcal-racista dependente da região. Sua visão irreverente e polifônica, que transita da psicanálise lacaniana ao samba e aos terreiros de candomblé, cunha conceitos como amefricanidade para reposicionar o Brasil em uma perspectiva continental anti-imperialista.?

O cerne do livro reside na crítica ao feminismo que ignora o caráter multirracial e pluricultural das sociedades latino-americanas, caindo em um racionalismo abstrato branco e masculinizante ao tratar da divisão sexual do trabalho sem articulação racial. Gonzalez evidencia como as mulheres amefricanas e ameríndias, proletárias na maioria, sofrem discriminação dupla ou tripla, transformada em desigualdade pelo sistema que explora diferenças biológicas e culturais. Ela celebra conquistas do feminismo, como a politização do privado e debates sobre sexualidade e violência, mas insiste que sua força se perde sem reconhecer o racismo estrutural, comparando o modelo escancarado dos EUA ao mito da democracia racial brasileira, que perpetua a dominação por denegação.?

Em um momento em que o feminismo global ainda luta contra visões eurocêntricas, a relevância de Gonzalez se impõe como precursora da interseccionalidade e do pensamento decolonial, dialogando com autoras como Angela Davis e Sueli Carneiro. Seus relatos de encontros como o II Encontro del Taller de Mujeres de las Américas em 1987 ilustram a superação de barreiras entre feministas brancas e mulheres afro e indígenas populares, fomentando redes inclusivas contra racismo e patriarcalismo. No Brasil de 2026, com desigualdades raciais agravadas por políticas econômicas regressivas, reler Gonzalez não é opção acadêmica, mas imperativo político para um feminismo verdadeiramente libertador que una raça, classe e gênero em lutas concretas. Sua obra nos convoca a desconstruir essencialismos como “mãe preta” ou “mulata” e a construir solidariedades que respeitem diferenças, provando que o avanço feminista depende de ouvir as vozes mais oprimidas.

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