Dica de Leitura: “Mulheres e Caça às Bruxas”, de Silvia Federici – As Fogos Eternas do Capitalismo Patriarcal

Silvia Federici, em Mulheres e Caça às Bruxas: Da Idade Média aos Dias Atuais, desenterra uma verdade silenciada pela história oficial: a perseguição às bruxas na Europa dos séculos XVI e XVII não foi mero delírio religioso, mas instrumento essencial para a transição do feudalismo ao capitalismo, com foco na subjugação das mulheres. A autora conecta os cercamentos de terras comunais, que pauperizaram comunidades camponesas, à demonização sistemática de mulheres que resistiam à privatização da vida, controlando saberes sobre ervas, partos e sexualidade autônoma. Esse processo, impulsionado pela Igreja e Estados emergentes, visava disciplinar corpos femininos para a reprodução de uma força de trabalho barata e obediente, apagando o poder coletivo das mulheres sobre os comuns.?
Federici argumenta que as acusadas de bruxaria eram, em grande parte, pobres, idosas ou independentes, vistas como ameaça por sua “fofoca” (gossip), outrora sinônimo de solidariedade feminina, mas rebatizada como maledicência perigosa durante as caças. A violência extrema, com torturas e fogueiras públicas, não só eliminou resistências imediatas, como internalizou o medo no imaginário social, redefinindo a mulher como frágil e dependente. No Brasil colonial, ecos dessa perseguição aparecem em denúncias à Inquisição contra mulheres escravizadas por práticas “mágicas”, reforçando o controle sobre corpos negros e indígenas.?
Essa opressão primordial persiste, atualizada pela globalização neoliberal. Federici denuncia novas “caças às bruxas” na África, Índia e América Latina, onde mulheres defensoras de terras comunais são linchadas como bruxas em meio a privatizações e extrativismo. No Brasil contemporâneo, feminicídios, racismo religioso contra terreiros e ataques a lideranças como Marielle Franco revelam o mesmo mecanismo: violência contra quem desafia o capital patriarcal. A autora clama por solidariedade feminista global, resgatando as bruxas não como vítimas passivas, mas ancestrais rebeldes cujas lições alimentam lutas atuais pelos comuns.?
Ler Federici hoje, em 2026, sob governos que aceleram cercamentos via agronegócio e precarizam o cuidado reprodutivo, soa como alerta urgente. Suas páginas convocam a recusa coletiva à mercantilização da vida, transformando o grito “somos netas das bruxas que não queimaram” em ação política concreta. O livro não romanticiza o passado, mas arma o presente contra fogueiras modernas, provando que o feminismo anticapitalista é a verdadeira herança das perseguidas.