Dica de Leitura: “Em Defesa da Sociedade” de Michel Foucault – Uma Crítica Atemporal ao Poder Normalizador

Em Defesa da Sociedade, curso ministrado por Michel Foucault no Collège de France em 1975-1976 e publicado como livro em 1976, representa um marco na análise das relações de poder na modernidade. Nele, Foucault abandona modelos totalizantes como a teoria da soberania para propor uma analítica do poder que revela sua circulação periférica e microfísica, invertendo a lógica tradicional de Estado soberano para focar em mecanismos disciplinares e biopolíticos. Essa obra não apenas genealogiza o racismo de Estado como tecnologia de poder, mas questiona como o biopoder fragmenta e normaliza corpos e populações, justificando exclusões sob o pretexto de proteção social.?
Foucault delineia cinco precauções metodológicas essenciais para estudar o poder em suas extermidades, longe do centro soberano. Primeira, analisar o poder em formas regionais e locais, como técnicas de punição que precedem o aparato estatal. Segunda, examinar práticas efetivas, ignorando intenções subjetivas para compreender sujeições materiais nos corpos. Terceira, rejeitar visões de dominação maciça, pois o poder circula em redes, atravessando indivíduos que o exercem e sofrem simultaneamente. Quarta, evitar deduções do centro para a periferia, reconhecendo que estratégias de poder emergem das bordas sociais. Quinta, identificar dispositivos de saber não ideológicos, mas instrumentais para vigilância e normalização, como nos discursos das ciências humanas que colonizam o direito.?
Essa abordagem revela a transição para uma sociedade de normalização, onde disciplinas do século XVII e XVIII suplantam a soberania, extraindo tempo e trabalho dos corpos via vigilância contínua. Foucault critica o modelo hobbesiano do Leviatã, propondo uma economia do poder que multiplica forças dominadas para fortalecer dominadores, pavimentando o caminho para o biopoder sobre populações. O racismo surge então não como preconceito individual, mas como discurso estatal que distingue raças biológicas para legitimar morte ou letargia de grupos inferiores, ecoando do nazismo ao welfare state disciplinar.?
No Brasil contemporâneo, essas ideias ressoam com veemência em meio a reformas tributárias e políticas de segurança que normalizam desigualdades. Governos invocam soberania para justificar biopolíticas que segmentam populações em produtivas ou perigosas, como nas fiscalizações municipais que disciplinam o pobre enquanto preservam elites. Foucault nos convoca a uma insurreição de saberes locais contra essa colonização, reativando memórias de lutas periféricas para desarticular redes de poder. Ler Em Defesa da Sociedade em 2026 não é exercício acadêmico, mas ato político urgente contra a perpetuação de uma guerra civil interna mascarada por normalização.?
A obra de Foucault permanece vital por desmascarar como o poder se reinventa em democracias, demandando análises ascendentes que partam de práticas cotidianas. Sem cair em totalizações marxistas ou jurídicas, ela equipa críticos para enfrentar biopoderes emergentes, como vigilância digital e políticas raciais veladas. Em tempos de polarizações, defender a sociedade significa, paradoxalmente, questionar suas defesas normalizadoras.