Jornal Tribuna

Dica de Leitura: “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Dica de Leitura: “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels

O livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, publicado por Friedrich Engels em 1884, representa uma das aplicações mais ousadas do materialismo histórico à antropologia e à história das sociedades humanas. Baseado nas pesquisas do antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan sobre as sociedades iroquesas e notas de Karl Marx, Engels traça a evolução da família desde formas primitivas de promiscuidade grupal, passando pela família punaluana e sindiásmica, até a monogamia patriarcal, sempre atrelada ao desenvolvimento das forças produtivas. Essa progressão não surge por acaso, mas reflete a transição da selvageria para a barbárie e civilização, marcada pela invenção de ferramentas, domesticação de animais e surgimento de excedentes econômicos.?

Engels identifica o ponto de virada na passagem do matrilinearismo igualitário para o patriarcado com o advento da propriedade privada, que impõe a subordinação da mulher ao homem para garantir a herança patrilinear. Na família monogâmica, o homem torna-se o “burguês” e a mulher o “proletário”, com a infidelidade masculina tolerada enquanto a feminina é reprimida por razões econômicas, gerando prostituição e adultério como complementos inevitáveis do sistema. O Estado emerge nesse contexto como instrumento de reconciliação das classes antagônicas, uma força pública armada acima da sociedade, que perpetua a dominação da classe possuidora sobre a despossuída, desde as gens gregas e romanas até as monarquias absolutas do século XIX.?

Apesar de limitações científicas da época, como o evolucionismo linear e dados etnográficos escassos, a obra permanece atual ao desmascarar a família, a propriedade e o Estado como construções históricas transitórias, não eternas. Engels vislumbra sua superação no comunismo, onde a socialização da produção eliminaria a opressão de classe e de gênero, incorporando as mulheres à “indústria social” e extinguindo o Estado como aparelho coercitivo. Em tempos de desigualdades crescentes e retrocessos nos direitos femininos, o texto convida a uma reflexão crítica sobre como o capitalismo contemporâneo reinventa essas estruturas sob novas formas, como o trabalho doméstico invisível e o Estado neoliberal. Sua tese central, de que a “derrota histórica do sexo feminino” é inseparável da propriedade privada, inspira lutas atuais por igualdade real, provando que Engels não apenas descreveu o passado, mas projetou ferramentas para transformá-lo.?

Comentários

Deixe um comentário