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Dica de Leitura: “A Mulher, a Cultura e a Sociedade” de Sherry B. Ortner: repensando dicotomias para o presente

Por Manuel Flavio Saiol Pacheco·
Dica de Leitura: “A Mulher, a Cultura e a Sociedade” de Sherry B. Ortner: repensando dicotomias para o presente

O livro A Mulher, a Cultura e a Sociedade, com contribuição seminal de Sherry B. Ortner, revolucionou a antropologia ao propor que a subordinação feminina não resulta de diferenças biológicas inevitáveis, mas de construções culturais que opõem mulher à natureza e homem à cultura. Em seu ensaio icônico “Is Female to Male as Nature Is to Culture?”, Ortner argumenta que o corpo feminino, marcado pela reprodução e cuidados cotidianos, é simbolicamente reduzido ao domínio natural, enquanto atividades masculinas de abstração, tecnologia e ritual elevam-se ao cultural e ao prestígio social. Essa dicotomia pervasiva atravessa sociedades, justificando a dominação patriarcal ao naturalizar desigualdades como universais, embora Ortner reconheça exceções e apelos por mudança em práticas femininas de resistência.?

No Brasil de 2026, essa tese ressoa com vigor diante de persistentes assimetrias de gênero, onde mulheres arcam com dupla jornada laboral e doméstica, enfrentam gaps salariais de até 20% e representam 70% das vítimas de violência familiar, segundo dados recentes do IBGE e Ministério da Mulher. Ortner evidencia como culturas relegam mulheres a esferas privadas de imanência, limitando seu acesso a poder público e simbólico, um padrão que ecoa em nossas políticas insuficientes contra o machismo estrutural e na sub-representação feminina em cargos executivos. Sua análise comparativa, de sociedades matrilineares a patriarcais industriais, demonstra que a agência feminina persiste em redes de solidariedade e estratégias de prestígio doméstico, desafiando a passividade imposta.?

Reler Ortner hoje urge uma crítica interseccional, incorporando raça e classe às dicotomias de gênero para impulsionar reformas efetivas. No contexto brasileiro, marcado por feminicídios crescentes e retrocessos em direitos reprodutivos, o livro inspira movimentos como o #EleNão e políticas de cotas ampliadas, provando que desconstruir a natureza/cultura é chave para igualdade substantiva. Sua visão otimista de transformações culturais via educação e ativismo reforça que o patriarcado não é destino, mas construção mutável, demandando ação coletiva urgente.?

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