Desafios administrativos da saúde no Brasil: entre conflitos, leis e humanização

Em um pronto-socorro lotado de uma grande cidade brasileira, pacientes esperam horas por atendimento enquanto profissionais exaustos tentam dar conta da demanda. Nesse cenário tenso, é comum que a frustração dos usuários se transforme em discussões acaloradas e, não raro, em ações judiciais contra o sistema de saúde. Essas cenas ilustram a crise administrativa na saúde do Brasil, marcada por conflitos recorrentes entre pacientes e instituições, gestão hospitalar deficiente, falta de recursos, burocracia excessiva e dificuldades para garantir um atendimento humanizado. Como jornalista que cobre a área da saúde, neste artigo será analisado como esses problemas afetam o dia a dia do cidadão comum e o que está sendo feito (ou deixou de ser feito) para enfrentá-los.
Conflitos entre pacientes e instituições: da insatisfação à judicialização
As tensões entre usuários e serviços de saúde têm se tornado cada vez mais evidentes. Filas intermináveis, falta de medicamentos e negativas de cobertura pelos planos de saúde fazem com que muitos brasileiros recorram à Justiça para garantir seus direitos. Multiplicam-se casos de pacientes que conseguem, por via judicial, acesso a tratamentos, leitos de UTI ou medicamentos de alto custo que não obtiveram pelos canais regulares.
Esse fenômeno, conhecido como judicialização da saúde, explodiu na última década, a ponto de a Justiça brasileira receber, hoje, em média, uma nova ação de saúde a cada 47 segundos. Em 2024, foram contabilizados 673.689 novos processos judiciais na área, quase o dobro do registrado em 2020. Em outras palavras, o volume de litígios médico-hospitalares cresceu 93% nesse intervalo, demonstrando como o conflito entre pacientes e instituições virou rotina.
Para se ter ideia do impacto, o Ministério da Saúde precisou desembolsar mais de R$1,6 bilhão até outubro de 2024 para cumprir determinações de tratamentos e medicamentos. Grande parte dessas ações envolve pacientes buscando no SUS terapias de alto custo ou tecnologias não ofertadas, ou ainda clientes de planos privados exigindo coberturas negadas. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, cerca de 60% das demandas judiciais de saúde no período recente referiam-se ao SUS, enquanto 40% eram relacionadas à saúde suplementar, com esta última crescendo em ritmo ainda mais acelerado.
Ou seja, o problema não é exclusivo do sistema público: há forte insatisfação também entre usuários de planos privados, que enfrentam negativas de atendimento, demora em autorizações e outros entraves. Uma pesquisa em São Paulo revelou que 84% dos usuários de planos tiveram algum problema nos dois anos anteriores, principalmente lotação e demora no pronto-socorro, queixas de 80% e 73%, respectivamente. Esses números ajudam a explicar por que tanto na rede pública quanto na privada os usuários recorrem à Justiça: trata-se de uma válvula de escape diante da sensação de desamparo ou descaso.
A insatisfação é alarmante. Em pesquisa nacional encomendada pelo Conselho Federal de Medicina, apenas 39% dos usuários que utilizaram o SUS avaliaram o atendimento como “bom” ou “ótimo”, enquanto 22% o consideraram “ruim” ou “péssimo”. Na percepção geral da população, mais da metade avalia negativamente a saúde pública: 54% classificaram o SUS como “ruim/péssimo”. Esse dado reflete o acúmulo de experiências frustrantes, dificuldade para conseguir consultas e exames, precariedade de estruturas e, muitas vezes, acolhimento insuficiente.
Não à toa, pesquisa do Datafolha apontou que a saúde é hoje a área que mais preocupa os brasileiros, à frente de segurança e educação. A insatisfação transborda das salas de espera para os tribunais e as redes sociais, pressionando gestores e profissionais.
Gestão hospitalar em xeque: falta de recursos e burocracia
Por trás desses conflitos está uma crise de gestão hospitalar e administrativa. Especialistas apontam que o Sistema Único de Saúde sofre de subfinanciamento crônico: gasta-se pouco e gasta-se mal. Em comparação com outros países, o Brasil investe cerca de US$1.700 por habitante em saúde (dados de 2022), menos de um terço da média dos países da OCDE, que ultrapassa US$5.300. Esse valor é similar ao de países latino-americanos de renda menor, como México e Colômbia, enquanto nações desenvolvidas investem de cinco a oito vezes mais.
A consequência é evidente: hospitais superlotados, equipamentos insuficientes e longas esperas por atendimento. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União revelou que 64% dos hospitais públicos do país operavam em regime de superlotação constante, enquanto apenas 6% nunca ficavam cheios, indicador claro da falta de leitos e estrutura. Não é incomum pacientes aguardarem meses por cirurgias eletivas ou permanecerem dias em macas nos corredores por falta de vagas.
Além da falta de recursos, a burocracia compromete a eficiência. Procedimentos engessados atrasam desde a compra de insumos até a contratação de profissionais. Gestores locais têm pouca autonomia para realocar verbas, esbarrando em regras rígidas e entraves legais.
O peso da burocracia é ilustrado por um dado impactante: cerca de 31% dos recursos federais de saúde são consumidos por despesas administrativas e controles, o equivalente a R$47 bilhões gastos apenas com gerenciamento e fiscalização em 2023. Ou seja, quase um terço do dinheiro não chega ao atendimento do paciente. Esse “custo da ineficiência” deriva, em parte, de uma cultura de desconfiança que cria camadas de controle para evitar fraudes, mas que acaba gerando lentidão e onerosidade.
Os principais problemas de gestão que agravam a crise podem ser resumidos em:
- Superlotação e filas de espera
- Escassez de profissionais e insumos
- Financiamento insuficiente
- Burocracia excessiva e má gestão
Diante desse quadro, não surpreende que a experiência do usuário seja prejudicada. A demora para marcar consultas, a falta de especialistas, a ausência de materiais essenciais e a precariedade das estruturas geram revolta compreensível.
Para a autora, que já visitou inúmeras unidades de saúde em reportagens, “a sensação do paciente é de estar mendigando um direito básico, e quando ele bate de frente com a burocracia ou a falta de estrutura, isso mina a confiança no sistema”. Embora reconheça pontos positivos do SUS, como os programas de vacinação e a atenção básica, ela aponta que os gargalos administrativos ofuscam as conquistas. “Com gestão competente, mesmo recursos escassos são otimizados; sem gestão, mesmo um orçamento maior pode se perder em desperdício”, afirma.
Conhecer a legislação e os direitos do paciente: dever de gestores e profissionais
Outro desafio central é manter-se atualizado com a legislação em saúde e garantir os direitos dos pacientes. O ordenamento jurídico brasileiro é robusto: vai da Constituição Federal, que define saúde como direito de todos e dever do Estado, ao Código de Defesa do Consumidor, ao Estatuto do Idoso, à Lei do Acompanhante e à Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde. Em teoria, gestores e profissionais deveriam conhecer e cumprir todas essas normas. Na prática, muitos admitem desconhecer pontos importantes, o que pode gerar falhas graves e novos conflitos.
Um dos problemas apontados é a ausência de formação jurídica básica nos cursos da área. Segundo estudos sobre risco jurídico na medicina, muitos profissionais não são preparados para lidar com consentimento informado, sigilo, prioridades de atendimento ou responsabilidades civis e penais de erros.
Desconhecer a legislação pode resultar em penalidades, processos e perda de credibilidade institucional. Há casos de hospitais multados por descumprir direitos básicos, como impedir acompanhante no parto ou não oferecer acessibilidade adequada.
Especialistas recomendam programas de compliance, com treinamentos periódicos e identificação de riscos, para garantir que direitos sejam respeitados. Prontuários bem preenchidos, termos claros de consentimento e protocolos alinhados às normas fortalecem a segurança jurídica e qualificam o atendimento.
Em minhas apurações, foi observado que unidades que investem em capacitação ética e legal reduzem significativamente o número de reclamações e processos. “Quando há orientação, o profissional age com mais segurança e respeito aos limites legais, evitando atritos desnecessários”, destaca.
Os pacientes têm direitos garantidos por lei: atendimento de qualidade e sem discriminação, acesso à informação sobre sua condição de saúde, privacidade, consentimento informado, entre outros. Cabe aos gestores criar condições para que esses direitos sejam cumpridos, estruturando ouvidorias eficientes, garantindo legibilidade de prontuários, promovendo acessibilidade e priorizando grupos vulneráveis.
Especialistas em direito médico afirmam que “manter-se atualizado tecnicamente e dentro das normas legais e éticas não é apenas necessidade, é obrigação, e confere satisfação ao paciente”. Ou seja, respeitar a legislação significa oferecer atendimento mais seguro e humano.
Acolhimento, humanização e profissionalismo: o impacto na experiência do paciente
Em meio a tantos desafios estruturais, é fundamental destacar a forma como o paciente é tratado. Mesmo diante de limitações, o acolhimento e a humanização podem transformar a experiência. Um sorriso, uma orientação clara ou uma demonstração de empatia amenizam a aflição de quem busca atendimento em momento de vulnerabilidade. O oposto: frieza, grosseria ou desrespeito, intensifica o sofrimento.
Infelizmente, relatos de tratamento desumanizado ainda são frequentes no país: violência obstétrica, comunicação inadequada de diagnósticos, pacientes reduzidos a números e não chamados pelo nome. Essas falhas de comunicação representam parcela significativa das reclamações.
Humanizar o atendimento não é apenas gentileza: é estratégia eficaz para reduzir sofrimento e melhorar resultados clínicos. Pesquisas mostram que a humanização contribui para diminuir a ansiedade e favorecer a recuperação. No SUS, a Política Nacional de Humanização, lançada em 2003, orienta práticas como classificação de risco, visita aberta e direito ao acompanhante.
Apesar dos avanços, implementar a humanização no dia a dia ainda esbarra em sobrecarga profissional, unidades lotadas, falta de treinamento em comunicação e culturas organizacionais pouco acolhedoras. Ainda assim, muitas instituições têm investido em programas de capacitação, voluntariado e acompanhamento emocional.
A humanização não é um “plus”, mas parte da competência profissional. “Um profissional verdadeiramente competente não é só o que acerta o diagnóstico, mas o que sabe conversar, tem empatia e ética”, afirma. Em muitos casos, conflitos são resolvidos apenas com diálogo. “Já vi famílias indignadas achando que o hospital estava negando informação, e bastou uma conversa transparente do médico para acalmar os ânimos.”
Atendimento humanizado implica, também, evitar discriminação e respeitar a intimidade, cultura e valores de cada pessoa, fator essencial para criar vínculo de confiança.
Conclusão
Diante de conflitos judicializados, falhas de gestão, desconhecimento da legislação e dificuldades na humanização, fica evidente a complexidade dos desafios administrativos da saúde brasileira. Não se trata apenas de falta de recursos ou postura profissional, mas de um conjunto de fatores interligados.
Há sinais de esperança, como iniciativas para conciliar demandas judiciais, como acordos para organizar pedidos de medicamentos e reduzir a judicialização, além do fortalecimento do debate público sobre o SUS.
No meu entendimento, “os problemas são enormes, mas não intransponíveis”. O Brasil já demonstrou excelência em campanhas de vacinação, transplantes e programas de referência. “Se conseguirmos unir conhecimento técnico a uma gestão eficiente, com menos burocracia e mais foco no paciente, teremos condições de virar esse jogo.”
Colocar o paciente no centro das decisões, do orçamento ao atendimento, é o caminho para reduzir conflitos e restaurar a confiança na saúde. Humanizar a gestão talvez seja o maior desafio, mas também a maior solução: lembrar que, por trás de cada número ou processo, há uma vida que merece cuidado e respeito.
Somente com esse olhar humano, aliado ao profissionalismo e responsabilidade, a saúde no Brasil poderá superar sua crise administrativa e oferecer o atendimento digno que todo cidadão espera.
Referências
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