Jornal Tribuna

Todo mundo fala de IA, mas quase ninguém está usando direito

Por Cristiane Marsola·
Todo mundo fala de IA, mas quase ninguém está usando direito

Por Bruno Campos de Oliveira, COO da ADSPLAY

Hoje, é impossível abrir o LinkedIn sem ver alguém postando sobre inteligência artificial. Gente testando prompt, mostrando prints do ChatGPT, celebrando ferramentas, prevendo o fim do mundo ou o fim dos empregos. Mas, quando a gente troca a timeline por uma sala de reunião, o papo muda.

Porque uma coisa é “usar IA”. Outra, bem diferente, é usar no trabalho gerando valor real, executando tarefas complexas. E não apenas produzindo texto e imagens. Existe um mito confortável de que IA é um botão. Aperta, resolve e pronto — adeus planilha, adeus retrabalho, adeus gente. Não é assim. Fazer IA que funciona é como criar uma criança. No começo, chora por qualquer coisa, precisa de supervisão 24/7 e enfia a mão onde não deve. Aí aprende a falar… e fala umas barbaridades. Na adolescência, questiona tudo, faz drama, “alucina”. Só depois de muito cuidado, rotina e limites claros é que vai ganhando autonomia.

Com agentes de IA é idêntico. A gente treina um MVP em meia hora e quer substituir o CEO. A realidade é menos glamourosa: para um agente executar com excelência, ele precisa de contexto, dados limpos, feedback contínuo, processo e… paciência. Sem isso, ele fica eternamente no berçário. 

Ferramenta nova vira vitrine rápido. É o post do time testando prompt, o print do “olha que louco”, o hack do momento. Tudo isso é ótimo para começar. Mas a empresa vive de rotina, não de truque. Rotina pede qualidade consistente. Qualidade consistente não nasce do nada. Ela é construída. E construção, por definição, é repetição: medir, ajustar, medir de novo. É chato? Às vezes. É o que separa demonstração de produto de produto que paga a conta? Sempre. 

Sem poesia, em português claro:

Contexto: a IA precisa conhecer seu negócio. Vocabulário, catálogo, políticas, jeitos e “não-jeitos”. Se ela não sabe como sua empresa chama um produto, vai responder como a internet chama — e isso pode custar caro.

Dados: documentos atualizados, bases tratadas, fontes confiáveis. IA come dado. Se o prato vem estragado, a resposta vem junto.

Processo de feedback: quem é o “pai/mãe” desse agente? Quem revisa as primeiras 100, 500, 1.000 respostas? Quem fecha o ciclo, corrige, etiqueta e ensina a melhorar?

Objetivo claro + métrica simples: “produzir briefing publicitário 100% dentro do template”. Por que sem norte, qualquer rota serve. E ela pode te levar a lugar nenhum

Governança: limites do que pode e do que não pode, logs de conversa, segurança de dados, trilhas de aprovação. Profissionalizar cedo evita apagar incêndio depois.

Mas vale a pena? Muito. Porque, ao contrário de pessoas, quando a IA aprende mesmo, ela não esquece. Ela roda de madrugada, não pede aumento, não chega atrasada porque choveu, não se distrai com notificação. E o mais interessante: aprendizado compõe. Quanto mais você ensina hoje, mais rápido ela aprende amanhã.

Isso cria um efeito bola de neve de produtividade. O primeiro mês parece lento. No terceiro, a curva vira. No sexto, você se pergunta como fazia sem. É aí que a adoção deixa de ser moda e vira infraestrutura.

Nos últimos 12 meses, vejo três armadilhas comuns que empacam os projetos:

  1. Piloto sem dono: começam “só para testar” e ninguém é responsável pelo pós-demo. O projeto não morre, fica em coma.
  2. Escopo ambicioso demais: tentam começar pela tarefa mais complexa da companhia. A chance de frustração é alta. Comece pequeno, crítico e mensurável.
  3. Confundir autonomia com abandono: “botei o agente no ar, agora ele se vira”. Não. Autonomia é resultado de acompanhamento, não a ausência dele.

Bem mais complexo que um post de LinkedIn. Leva tempo? Leva. Dá trabalho? Bastante. E é exatamente por isso que, quando funciona, vira vantagem competitiva difícil de copiar. 

IA não substitui liderança, senso de dono ou estratégia. Mas pode dar o maior ganho de produtividade e eficiência que já vimos na história da humanidade.
É comparar a capacidade de produção de um artesão com a de uma fábrica, depois da revolução industrial.

Então, a pergunta que importa: Você está criando uma IA com contexto, rotina e cuidado ou se está brincando? Porque usar IA “de vitrine” é fácil. Construir IA “no chão de fábrica” dá trabalho. E é justamente esse trabalho que paga o bônus no final do ano.

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