Passando a limpo

Pois então, caro leitor, já que acredito que os tropeços da vida não devem aguardar o juízo final para serem resolvidos, penso que há sempre tempo e jeito de consertar os nossos erros, que são muitos, diga-se de passagem. Não há razão para adiar o acerto de contas: à medida que tomamos consciência de nossas falhas, vamos aos poucos corrigindo o rumo, passando a limpo aquilo que ficou registrado na memória.
Os freudianos defendem que tudo o que vivemos se aloja no inconsciente, silencioso e atento aos registros da alma. Mas é o nosso consciente, esse incansável escrivão da existência, que revisita cada página da vida e tenta organizar a bagunça. É nesse instante, entre o que lembramos e o que preferíamos esquecer, que se desenha a redenção. Só não vê quem varre as próprias verdades para debaixo do tapete.
Sou católico não praticante, mas não creio que apenas no final da estrada é que nos cabe prestar contas ao divino. Esse ajuste de contas é diário, quase um ritual silencioso: todo santo dia, ao repousar a cabeça no travesseiro, há um tribunal íntimo onde o inconsciente dialoga com o consciente. Quando mentimos, passamos alguém para trás, ou cometemos alguma maldade, o sinal vermelho acende sem piedade. É uma denúncia imediata, que só ignora quem se faz de desentendido.
Chegar a certa idade tem suas vantagens: uma delas é ser mais assertivos, e assim poder revisitar a própria história com mais ternura, passar a limpo as páginas rasuradas do que fomos e do que ainda somos. Assim, quem sabe, quando atravessarmos o grande mistério, estejamos mais leves. No mínimo, com menos culpa e menos peso na mala da consciência.