Jornal Tribuna

Na janela do tempo

Por Jaeder Wiler·
Na janela do tempo

Hoje o dia amanheceu lindo, sem nuvens, céu de brigadeiro. Com os cotovelos apoiados na janela do meu apartamento, parei meus pensamentos atuais para divagar pela janela do tempo. Então respirei fundo e comemorei a beleza que é estar vivo e numa condição econômica estável.

Mas nem sempre foi assim. Na primeira infância, apesar da ausência dos meus pais, minha avó materna (analfabeta) cuidou de mim, e como cuidou… Ela morava numa cidadezinha lá nos cafundós de Minas Gerais. Casinha pobre na beira de um rio, onde criava pequenos animais. Um fogão a lenha de onde saía uma culinária ímpar. Sem falar do forno de barro que ficava no quintal, próprio para guloseimas mil: broa de fubá e outros assados, como o inigualável pão de queijo.

Ela tinha tanto amor por mim que nunca conseguia completar a vontade de me dar uma surra. Pegava uma varinha, ameaçava… ameaçava…, mas ficava só no ameaço! Então, como um potro solto no pasto, ganhava a rua e por lá ficava. Jogando bolinha de gude, rodando pião e brigando… brigando muito. Como eu era magérrimo, no calor de uma briga, no mano a mano eu perdia; então o jeito era recorrer a paus e pedras. Só aparecia em casa quando a fome batia. Mas, no final, tudo terminava bem.

Nós, os garotos daquela época, não tínhamos piscina; nadávamos no rio que cortava a pequena cidade de Imbé ao meio. Uma infância feliz, descobrindo a natureza, vivendo da natureza.

Quem diria, caro leitor, que eu chegaria a completar setenta primaveras. Formado em faculdades renomadas, com uma linda família e poucos amigos, mas esse pouco …amigos do peito de verdade. Tive várias chances de pegar um atalho para sair desta vida: ora pelas drogas, ora pelas más companhias, mas superei… superei tudo. E hoje estou aqui, extremamente feliz.

O que naquela época parecia impossível, nem o mais otimista dos homens acreditaria que eu venceria essa jornada, saindo do zero absoluto e lá dos grotões de Minas Gerais…

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