Masterplan desenvolvido em Goiânia, que integra urbanismo, ciência e biodiversidade, conquista reconhecimento internacional

Projeto liderado por Patrícia Akinaga e Marcelo T. Kubo, em parceria com o professor Renê G. S. Carneiro, da UFG, é apresentado no congresso internacional ASLA 2025, em New Orleans (EUA).
Um projeto brasileiro que une ciência, urbanismo e conservação ambiental ganhou destaque internacional ao ser apresentado no American Society of Landscape Architects 2025 (ASLA), em New Orleans (EUA), um dos principais eventos mundiais da arquitetura paisagística. Intitulada “Abordagem Ecológica para Aprimorar a Biodiversidade em uma ‘Tree City of the World'”, a iniciativa propõe estratégias concretas para conciliar o crescimento urbano de Goiânia com a preservação ambiental e o bem-estar social.
O trabalho é liderado pela arquiteta paisagista Patrícia Akinaga e pelo arquiteto e botânico Marcelo T. Kubo, do escritório Patricia AKINAGA Arquitetura Paisagística, Planejamento Ambiental e Desenho Urbano, em parceria com o professor e cientista Renê G. S. Carneiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Juntos, eles desenvolveram um masterplan inovador que alia projeto urbano e pesquisa científica para orientar políticas públicas ambientais. A proposta mapeou 14 parques urbanos de Goiânia, analisando suas dinâmicas ecológicas e estruturais para subsidiar diretrizes de planejamento e manejo.
Ciência aplicada ao urbanismo
Segundo Patrícia Akinaga, o diagnóstico realizado pela UFG revelou que os parques da capital abrigam alta biodiversidade, embora distribuída de forma desigual, reflexo de fatores climáticos, da paisagem e da ocupação humana. “Queremos entender como os organismos interagem para fundamentar estratégias que fortaleçam a biodiversidade e melhorem a ambiência urbana”, explica a arquiteta, destacando a relevância do projeto frente aos desafios das mudanças climáticas.
O cientista Renê Carneiro ressalta que a pesquisa aproxima a academia da sociedade ao transformar dados científicos em ações concretas, com benefícios perceptíveis para a população. Já Marcelo Kubo destaca que o diferencial do projeto está em “colocar a ecologia no centro das decisões urbanas”, tornando o conhecimento técnico uma ferramenta prática de gestão.
Biodiversidade e desafios ambientais
A pesquisa identificou 345 espécies de cianobactérias e algas, 178 de zooplâncton e 37 de plantas, incluindo registros inéditos para Goiás e até para o continente americano. Os dados mostram diferenças marcantes na qualidade da água e na composição das comunidades biológicas, refletindo o impacto da urbanização. Entre as ameaças observadas estão a eutrofização, a poluição difusa e a introdução de espécies exóticas.
Também foram registradas 243 galhas em 210 plantas, importantes indicadores ecológicos que evidenciam a complexidade dos ecossistemas urbanos. A equipe observou ainda adaptações fisiológicas das plantas às condições de seca, reforçando o papel dos lagos como redutos de biodiversidade e provedores de serviços ecossistêmicos essenciais, como regulação climática, qualidade da água e lazer.
Reconhecimento e impacto internacional
A apresentação no congresso da ASLA projetou o trabalho dos brasileiros no cenário global. “Estar nesse palco é uma grande realização. O tema deste ano, ‘Além das Fronteiras’, reflete nosso propósito de apresentar o Cerrado sob uma nova perspectiva”, afirma Patrícia Akinaga. O painel atraiu o interesse de profissionais, gestores e acadêmicos, que reconheceram o caráter inovador da proposta.
Parceria entre ciência e gestão pública
A iniciativa conta com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e logístico da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), permitindo que os resultados científicos sejam convertidos em políticas públicas e investimentos ambientais. “Com o suporte da UFG e da AMMA, podemos priorizar ações e implementar soluções de maior impacto imediato”, explica Akinaga.
Além da pesquisa aplicada, o projeto promove atividades educativas e participação social, fortalecendo o vínculo entre a população e os parques urbanos. Segundo Carneiro, essa integração entre ciência e gestão pública potencializa a efetividade das políticas ambientais.
Com base em ciência, arquitetura paisagística e compromisso social, o masterplan liderado por Akinaga e Kubo — em colaboração com a UFG — posiciona Goiânia e o Cerrado no mapa internacional da sustentabilidade e do urbanismo ecológico, demonstrando como o planejamento urbano pode ser instrumento de conservação e regeneração ambiental.




Sobre os autores
Patrícia Akinaga – arquiteta paisagista, arquiteta e urbanista, com mestrado em Arquitetura Paisagística pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e doutorado pela Universidade de São Paulo na área de Paisagem e Ambiente. Com mais de 30 anos de experiência, participou de projetos em diversos países, incluindo parques, revitalizações de rios, equipamentos culturais e sítios históricos. Atua como crítica convidada em universidades nos EUA e no Brasil, é consultora da ONU (UNGM), líder de prática no Brasil e nos Estados Unidos e membro do Biodiversity and Climate Action Plan Committee pelo núcleo da Flórida (USA).
Marcelo T. Kubo – arquiteto paisagista, urbanista e botânico. Doutor em Ciências Biológicas (Botânica) pela USP, tem colaboração com o Jardim Botânico Real de Kew (Reino Unido) e atua há mais de 15 anos em projetos de parques urbanos, revitalização de rios e educação científica. Em 2021 teve projeto financiado pela National Geographic Society e é Explorador da National Geographic desde então.
Renê G. S. Carneiro – professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) desde 2015, lecionando disciplinas de Botânica e orientando alunos de mestrado e doutorado. Coordena projetos de pesquisa na área de anatomia vegetal e de extensão voltados à divulgação científica e à liderança estudantil, sendo reconhecido por sua atuação em prol da conservação da biodiversidade.
Autoria:
Fabi Henrique e Ricardo Rodrigues