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Assentamentos, confiscações e violência: a realidade de Jaba’ no coração dos territórios palestinos ocupados

Por edicao·
Assentamentos, confiscações e violência: a realidade de Jaba’ no coração dos territórios palestinos ocupados

Desde a ocupação da Cisjordânia em 1967, a aldeia de Jaba’, localizada a nordeste de Jerusalém, tem vivido sob constante pressão das políticas israelenses voltadas para a confiscação de terras e a remodelação da paisagem geográfica em favor do projeto de assentamentos. Essa política não é aleatória, mas sim sistemática, conduzida por meio de passos graduais concebidos para cercar a aldeia e integrar suas terras em projetos estratégicos de assentamentos que conectam o norte de Jerusalém aos principais assentamentos circundantes, rompendo assim a continuidade territorial da Cisjordânia. Nesse sentido, Jaba’ não é apenas uma vítima local de uma confiscação limitada de terras, mas um caso que ilustra como a expansão dos assentamentos é utilizada como ferramenta política e de segurança para isolar Jerusalém de seu entorno palestino e paralisar qualquer possibilidade de continuidade geográfica entre as partes norte e sul da Cisjordânia.

De acordo com estimativas de 2017, Jaba’ é habitada por aproximadamente 3.921 residentes, além de 600 habitantes das comunidades beduínas situadas nos arredores da aldeia. Todos vivem dentro de um ambiente legal e geográfico restrito, moldado pelas disposições do Acordo de Oslo II de 1995.

Segundo esse acordo, Jaba’ foi dividida em duas áreas:

  • Área B: compreendendo 5% das terras da aldeia, sob controle administrativo palestino, mas sujeita ao controle total de segurança israelense, tornando a soberania palestina em grande parte nominal.

  • Área C: compreendendo 95% das terras da aldeia, sob controle total israelense, incluindo planejamento, construção e segurança. Isso concede à ocupação um instrumento jurídico — do seu ponto de vista — para facilitar a confiscação de terras e impedir qualquer expansão urbana palestina, ao mesmo tempo em que abre amplamente as portas para projetos de assentamentos.

Antes de 1967, Jaba’ se estendia por uma área de aproximadamente 24.000 dunams, refletindo sua condição de grande aldeia agrícola. No entanto, essa terra foi sendo gradualmente erodida por sucessivas confiscações, restando hoje apenas 724 dunams dentro do plano diretor da aldeia disponíveis para habitação e construção. Em outras palavras, mais de 95% das terras originais foram tomadas de seus legítimos proprietários. Segundo um estudo publicado pelo Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC), cerca de 20.000 dunams foram destinados a fins de assentamento: aproximadamente 7.000 dunams sob o pretexto de serem designados como “reserva natural”, cerca de 1.000 dunams para a construção de estradas de assentamentos que servem à mobilidade dos colonos ao mesmo tempo em que desconectam a aldeia de seu entorno, e mais de 1.000 dunams isolados pelo muro de separação. Além disso, entre 2023 e 2025, mais de 1.870 dunams foram confiscados para a expansão de assentamentos e estradas de assentamentos.

Esses números não são meras estatísticas; revelam a magnitude da catástrofe enfrentada por Jaba’. O que antes era uma aldeia que se estendia por dezenas de milhares de dunams foi reduzido a um pequeno enclave sitiado, onde os residentes estão confinados a um espaço limitado, mal suficiente para atender às suas necessidades urbanas básicas, enquanto o restante da terra é absorvido por um projeto de assentamentos mais amplo que busca redesenhar o mapa demográfico de Jerusalém e de seus arredores.

Assentamentos e Postos de Assentamento nas Terras de Jaba’

Os assentamentos estabelecidos nas terras de Jaba’ representam um exemplo marcante de como as confiscações graduais evoluem para uma paisagem de colonatos abrangente que engole o território da aldeia e o transforma num enclave sitiado. Entre os mais proeminentes encontra-se o assentamento de Geva Binyamin/Adam, estabelecido em 1984 sobre aproximadamente 1.139 dunams das terras de Jaba’. Com o tempo, este assentamento expandiu-se até se tornar num dos principais blocos de colonatos a nordeste de Jerusalém. Já não se trata apenas de um conjunto residencial para colonos, mas sim de parte de um projeto de colonização mais amplo, destinado a impor novas realidades demográficas e geográficas na região.

Além disso, as autoridades de ocupação estabeleceram em 1998 uma zona industrial e comercial conhecida como Sha’ar Binyamin, construída sobre quase 545 dunams das terras da aldeia. Promovida por Israel como um centro econômico, esta zona funciona, na realidade, como mais uma ferramenta de expropriação de terras, convertendo-a num espaço de investimento que serve à economia dos colonatos, ao mesmo tempo que impede os proprietários palestinos de utilizá-la ou mesmo de aceder a ela.

No que diz respeito aos postos de assentamento, destaca-se o de Bnei Adam, estabelecido a nordeste do assentamento Adam. O governo israelense tem trabalhado durante anos para legalizá-lo através de uma série de medidas administrativas, sendo a mais notável a declaração de aproximadamente 501 dunams como “terras do Estado” entre 2023 e 2025, conforme documentado pela Peace Now. Este passo representa uma tentativa de transformar um posto de colonos ilegal num assentamento legalizado segundo a lei israelense, concedendo-lhe assim cobertura oficial para expansão.

Em 2024, a região testemunhou um desenvolvimento ainda mais alarmante com o estabelecimento de um novo posto denominado Tso’an Binyamin — também conhecido como Umm al-Banin — nas fronteiras de Jaba’, Adam e Hizma. Este posto não foi apenas construído sobre terras palestinas confiscadas, mas também ocorreu após a expulsão de famílias beduínas das terras de Hizma. Isso acrescentou uma nova dimensão à política israelense na região: não apenas confiscar terras, mas também desenraizar os habitantes originários e forçá-los ao deslocamento. Desta forma, Jaba’ e os seus arredores transformam-se num campo de teste para políticas complexas de colonização e deslocamento, executadas passo a passo, mas com um objetivo estratégico claro: impor fatos irreversíveis no terreno.

Confiscações Recentes de Terras

Desde 2023, Jaba’ entrou numa nova fase de agressão colonizadora, conforme documentado pela Organização Al-Baider e pelo Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC), com o ritmo das confiscações de terras a acelerar a níveis sem precedentes. Em outubro de 2023, as autoridades de ocupação anunciaram a confiscação de 501 dunams como “terras do Estado” nas proximidades do posto ilegal de Bnei Adam, um passo claro em direção à legalização desse posto e à expansão da influência do assentamento Adam, já estabelecido sobre as terras da aldeia.

O processo não parou aí. Entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, os limites do assentamento Adam foram ampliados através da anexação de mais 1.107 dunams, coincidindo com o estabelecimento do novo posto Tso’an Binyamin, construído após o deslocamento de famílias beduínas das suas terras, como parte de uma política gradual de desenraizamento das comunidades beduínas.

Em janeiro de 2025, ocorreu o golpe mais recente com a confiscação de outros 262 dunams das terras de Jaba’ e Hizma para a construção de uma estrada de colonos a nordeste de Jerusalém. Esta estrada, de caráter estratégico, não serve os habitantes originários da região, mas reforça a ligação dos assentamentos a Jerusalém, aprofundando ao mesmo tempo o isolamento das aldeias palestinas. Estas confiscações sucessivas revelam claramente que o objetivo não é apenas a expansão espacial dos assentamentos, mas sim a remodelação mais ampla do mapa geográfico em conformidade com o projeto colonizador.

Estradas de Colonos e Postos de Controle

A política de controle da terra em Jaba’ não se limita às confiscações diretas, mas se estende a uma rede de estradas de colonos e postos de controle militares que cercam a aldeia e a fragmentam. O projeto mais destacado é a estrada 4370, conhecida entre os palestinos como a “estrada do apartheid”. Esta via atravessa as terras de Jaba’–Anata–E1 e foi concebida de modo a separar o tráfego palestino do tráfego dos colonos por meio de um muro de concreto elevado, numa cena que encarna a política de segregação em sua forma mais clara. As expansões recentes desta estrada têm implicações ainda mais graves, pois visam ligar diretamente os assentamentos que cercam Jerusalém, consolidando ao mesmo tempo o isolamento das aldeias palestinas e separando-as de seu centro natural.

Além disso, dados do Instituto de Pesquisa Aplicada de Jerusalém (ARIJ) indicam que as estradas de desvio impostas sobre as terras de Jaba’ não vêm sozinhas, mas são acompanhadas do chamado “faixa de segurança”, áreas vazias que se estendem até 75 metros de cada lado da estrada. Essas áreas, proibidas aos palestinos, significam na prática uma perda dupla de terras: não apenas o traçado da via em si, mas também as áreas adjacentes que ficam interditadas ao cultivo ou uso agrícola.

Não se pode ignorar, ainda, o papel desempenhado pelo posto de controle militar de Jaba’ nesta equação. Localizado na entrada da aldeia, ele funciona como instrumento de fechamento e isolamento da região em momentos de tensão ou até de forma rotineira, dificultando a mobilidade diária dos moradores e impedindo os agricultores de acessar suas terras em épocas críticas, como as temporadas agrícolas. Assim, a infraestrutura dos colonos deixa de ser apenas estradas ou barreiras e se transforma em uma ferramenta estratégica de controle, que sufoca a aldeia e reconfigura sua vida cotidiana de acordo com os objetivos da ocupação.

Impacto nas Comunidades Beduínas e nos Habitantes de Jaba’

Os efeitos da colonização em Jaba’ não se limitam à confiscação de terras agrícolas ou ao sufocamento da expansão urbana, mas também atingem as comunidades beduínas que rodeiam a aldeia, onde os pastores vivem em uma margem geográfica frágil, enfrentando agressões recorrentes e expropriações sistemáticas que ameaçam sua própria existência.

A comunidade Ma’azi Jaba’, localizada a leste e nordeste da aldeia, constitui um exemplo contundente dessa política. Relatórios locais e internacionais, incluindo os da Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) e da Organização Al-Baider para a Defesa dos Direitos dos Beduínos e Aldeias em Risco, documentaram incursões repetidas de colonos, às vezes acompanhados por forças de ocupação, que resultaram em ataques diretos contra os moradores, ferimentos e obstrução do acesso de ambulâncias. Em junho de 2025 e novamente em agosto do mesmo ano, foram registrados incidentes de incursões e posicionamentos de forças israelenses e colonos dentro da comunidade, acompanhados de feridos e da negação de atendimento médico no local. Esses incidentes não parecem casuais, mas fazem parte de um padrão contínuo destinado a criar um ambiente hostil que force os pastores a abandonar a área.

A comunidade beduína de Al-‘Ara’ara, próxima a Jaba’, também tem sido alvo de ataques sistemáticos. Relatórios da imprensa palestina, incluindo Mada News citando a Organização Al-Baydar, apontam que a comunidade vem sofrendo há anos campanhas repetidas de demolições que atingem casas, currais e tendas, além da confiscação de pastagens e da destruição de vastas áreas. O objetivo é claro: privar os moradores das condições mínimas de resistência e obrigá-los a sair, no contexto de uma política israelense sistemática conhecida como “transferência lenta”.

A Organização Al-Baider também confirmou que as crescentes pressões sobre essas comunidades não se limitam à confiscação de terras e pastagens, mas incluem ataques repetidos ao gado, furtos ocasionais e agressões físicas diretas contra os pastores. Essa realidade reflete uma estratégia deliberada de enfraquecimento da base econômica e social dos beduínos, despojando-os de seu modo de vida tradicional baseado no pastoreio, aumentando os custos de sua sobrevivência e empurrando-os gradualmente para o deslocamento forçado.

Ataques de Colonos contra Terras e Propriedades

Os ataques não se limitam às comunidades beduínas, mas se estendem ao coração agrícola de Jaba’ e seus arredores. Em junho de 2025, a Organização Al-Baider documentou um ataque perpetrado por grupos de colonos contra a comunidade Ma’azi Jaba’, que resultou em ferimentos diretos entre os moradores e na obstrução deliberada ao acesso de ambulâncias. Em agosto do mesmo ano, relatórios da OCHA registraram novas incursões em comunidades beduínas, acompanhadas de feridos e agressões contra menores, revelando a ampliação do círculo de ataques às populações mais vulneráveis.

As agressões, no entanto, não se limitaram às comunidades humanas. Foram registrados incidentes de corte de dezenas de oliveiras produtivas na planície de Jaba’, árvores pertencentes a famílias palestinas da aldeia, em um ataque direto a um dos símbolos fundamentais da identidade agrícola e econômica palestina. Apesar de os proprietários das terras terem apresentado queixas à polícia israelense, nenhuma medida foi tomada, refletindo uma ausência deliberada de aplicação da lei quando se trata da violência de colonos contra palestinos.

Os ataques de colonos também se repetem contra veículos palestinos nos arredores de Jaba’, especialmente nas estradas de desvio que conectam Hizma, Mikhmas e a estrada de Ma’arajat. Veículos palestinos são apedrejados e atingidos com paus de maneira recorrente e aleatória, colocando em risco a vida dos civis e transformando o deslocamento diário em uma experiência perigosa. Esses ataques ocorrem frequentemente sob os olhos das forças de ocupação, sem qualquer intervenção para detê-los ou responsabilizar os autores, consolidando uma realidade de total impunidade.

Em resumo, o que acontece em Jaba’ e em seus arredores vai muito além de ataques isolados ou confiscações pontuais. Trata-se de um sistema integrado destinado a enfraquecer a presença palestina, minando sistematicamente os fundamentos da vida cotidiana: a terra, a agricultura, o pastoreio e a mobilidade. É uma política de “asfixia lenta”, executada por meio da expansão dos assentamentos, da confiscação e da violência, que esvazia gradualmente a terra de seus habitantes originários.

Dimensões estratégicas da expropriação de terras em Jaba’

A vila de Jaba’, ao nordeste de Jerusalém, tornou-se um exemplo vivo da forma como são conduzidas as políticas de expropriação de terras e colonização na Cisjordânia. A realidade no terreno revela com clareza que o objetivo não se limita à apropriação de áreas aqui ou ali, mas à redefinição completa do mapa palestino.

O primeiro aspecto a destacar é a fragmentação do espaço territorial. Desde o estabelecimento do assentamento “Adam/Geva Binyamin” e da zona industrial “Sha’ar Binyamin”, somado à expansão de novos postos de colonos, Jaba’ vem perdendo progressivamente o seu espaço natural. Hoje, a vila transformou-se em um enclave cercado por todos os lados, sem qualquer possibilidade de expansão urbana ou agrícola. Em números, dos 24.000 dununs que compunham a área total da vila antes de 1976, restaram aos moradores apenas 724 dununs dentro do plano diretor disponível. Dessa forma, Jaba’ foi reduzida a uma simples “mancha habitacional” cercada, sem futuro urbano.

A questão, porém, não se limita à perda de espaço, mas também de terras e recursos. As áreas confiscadas não foram utilizadas apenas para a construção de assentamentos, mas vastas extensões foram classificadas como reservas naturais ou fragmentadas pelo muro e pelas estradas de desvio. O resultado foi que agricultores e pastores perderam a possibilidade de usufruir de suas terras e de seus recursos tradicionais. Essa transformação não alterou apenas a geografia, mas também a própria vida: de uma comunidade baseada na agricultura e na pecuária para uma comunidade cercada por restrições e sufocada por pressões econômicas.

Além disso, houve a ruptura da mobilidade e da comunicação. A estrada 4370, conhecida como “Estrada do Apartheid”, passa ao lado de Jaba’ e divide o território com um muro de concreto. Com a presença permanente do posto militar de Jaba’, o deslocamento dos moradores tornou-se um processo complexo e repleto de obstáculos, não apenas para a locomoção, mas também para o acesso às cidades principais: Ramallah, Jerusalém e Belém. Na prática, chegar a Jerusalém – a capital natural dos palestinos, a poucos quilômetros de distância – tornou-se um sonho distante para os habitantes de Jaba’.

A face mais dura dessas políticas se manifesta na expulsão das comunidades beduínas ao redor da vila. Comunidades como Ma’azi Jaba’ e os beduínos de Al-‘Ara’ara vivem hoje sob ataques contínuos de colonos, privados de pastagens e fontes de água, em uma política de “esvaziamento lento”. A ideia aqui não é uma expulsão direta por decretos oficiais, mas tornar a vida cotidiana insustentável, de forma que os moradores sejam obrigados a partir por conta própria. Trata-se de um processo lento e metódico de deslocamento, que busca dissolver a presença agrícola e pastoral palestina nesta região.

Impacto na conexão entre o norte e o sul da Cisjordânia

O que acontece em Jaba’ não é apenas um conflito sobre a terra de uma pequena vila, mas parte de uma batalha maior sobre o futuro da geografia palestina. A vila está localizada exatamente no coração do cinturão de assentamentos conhecido como plano E1, que tem como objetivo conectar os assentamentos a leste de Ramallah e Jerusalém ao assentamento “Ma’ale Adumim”, no leste. No papel, pode parecer apenas um projeto de desenvolvimento colonial, mas no terreno significa apenas uma coisa: o fechamento do último corredor vital entre o norte e o sul da Cisjordânia.

O resultado direto é que a Cisjordânia foi dividida em duas partes: o norte, que inclui Nablus e Ramallah, e o sul, que inclui Belém e Hebron, enquanto Jerusalém permanece totalmente fora da equação palestina. Dessa forma, qualquer ideia de um Estado palestino geograficamente contínuo torna-se praticamente impossível. E Jaba’, no coração desse plano, deixa de ser uma vila agrícola para se tornar uma linha estratégica de separação, parte do processo de isolar Jerusalém de seu entorno palestino natural e de cortar as artérias de conexão entre as principais cidades palestinas.

Conclusão

A realidade em Jaba revela de forma clara uma engenharia política deliberada baseada em uma tríade interligada: fragmentação geográfica, estrangulamento econômico e desarticulação social. A rede de estradas de circunvalação e os postos de controle militares não foram concebidos apenas para organizar o tráfego ou “proteger” os colonos, mas como ferramentas para dilacerar as aldeias e transformá-las em bolsões isolados, tornando os deslocamentos entre áreas palestinas cada vez mais difíceis e caros, e eliminando gradualmente a conexão natural entre o norte e o sul da Cisjordânia. Paralelamente, o esgotamento dos recursos agrícolas e hídricos enfraqueceu as bases da economia tradicional em Jaba, onde a terra já não consegue produzir o suficiente para sustentar a população nem garantir sua estabilidade. A desintegração social manifesta-se no ataque direto aos laços familiares e tribais das comunidades beduínas: as pressões constantes sobre pastores e famílias levaram muitos a considerar a migração, resultado intencional da política de “expulsão lenta”.

Essa dinâmica não se restringe a Jaba, mas reflete uma estratégia mais ampla de redesenhar o mapa da Cisjordânia em benefício do projeto colonial. O controle da terra já não se exerce principalmente por meio da força militar, como no passado, mas através de um processo complexo que combina instrumentos legais (como a declaração de “terras estatais”), mecanismos urbanísticos (a proibição da construção palestina em contraste com a expansão sistemática dos assentamentos) e ferramentas socioeconômicas que tornam as condições de vida insustentáveis. Nesse contexto, a resistência dos habitantes de Jaba vai além da mera sobrevivência cotidiana: transforma-se em um elemento estratégico diante de um projeto maior que busca inviabilizar a constituição de um Estado palestino contínuo e viável.

Assim, Jaba não é apenas uma aldeia cercada, mas um laboratório vivo de colonização que condensa a experiência palestina na Cisjordânia. As confiscações, demolições e restrições de mobilidade não são fins em si mesmos, mas instrumentos interligados para produzir uma nova realidade em que a terra é esvaziada de seus legítimos proprietários. Por outro lado, a determinação popular em permanecer – apesar da escassez de recursos – constitui a expressão mais autêntica do enraizamento palestino ao seu direito à terra e à identidade, e da continuidade de um modelo agrícola e pastoril que integra uma memória coletiva hoje ameaçada de erosão.

O futuro de Jaba, assim como o de toda a Cisjordânia, depende da capacidade das comunidades locais de resistirem a essas políticas, bem como do nível de apoio político, jurídico e social capaz de conectar as lutas locais ao panorama palestino mais amplo. A história de Jaba, se explorada nos âmbitos midiático e de direitos humanos, pode transformar-se de uma tragédia localizada em uma causa nacional e internacional, capaz de evidenciar com clareza a essência do projeto colonial israelense: apagar a presença palestina como realidade geográfica e social, convertendo-a em um fenômeno transitório dentro de uma terra reconfigurada à força em favor de um projeto colonial de longo prazo.

Autor:

Dr. Rasem Bisharat – Doutorado em Estudos do Oriente Médio e Comissário de Relações Exteriores da Organização Al-Baider para a Defesa dos Direitos dos Beduínos e das Aldeias Alvo em Palestina

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