Caravelas, Idiotas e Pandemia: Crônicas da Dissonância Cognitiva

Hoje, em pleno 2025, ainda há quem insista que a pandemia da COVID-19 foi “exagerada”, que o número de mortos foi manipulado, que tudo não passou de um grande conluio entre médicos socialistas, jornalistas infiltrados e comunistas escondidos na OMS. É o triunfo da dissonância cognitiva: quando a realidade dói demais, melhor amputá-la e substituí-la por um delírio mais palatável. Afinal, o idiota — como lembra Rubens Casara em A Construção do Idiota — não se faz sozinho: ele é construído, moldado, educado para amar a ignorância.
Esse processo de idiotização segue firme e forte, como uma espécie de religião nacional não oficial. O bolsonarismo transformou a negação da realidade em capital político. Tudo funciona no mesmo clichê: quando a Globo denunciava o PT, o noticiário era hóstia consagrada. Agora, basta a emissora abrir a boca sobre rachadinhas ou sobre o genocídio pandêmico protagonizado pelo “capitão”, e pronto: virou a Santa Inquisição das Organizações Globo. Antes, verdade absoluta; agora, conspiração socialista. A coerência do idiota só existe na sua contradição.
Mas não nos enganemos: isso não é apenas má-fé política, é defeito cognitivo abraçado com orgulho. Fala-se em “recorte da realidade”: assim como os povos originários não conseguiam compreender o que era uma caravela surgindo no horizonte — porque simplesmente não havia lugar simbólico no seu sistema para aquilo existir —, nossos idiotas contemporâneos olham uma UTI lotada e dizem que é encenação. Para eles, um vírus que matou milhões não existe porque não cabe no reduzido aquário cognitivo da seita. É negar a caravela mesmo com a madeira rangendo no cais.
A cada dado científico desprezado, a cada denúncia jornalística desmontada como “fake news da esquerda”, o Brasil se afunda mais nesse pântano de ignorância feita método. A recusa do real virou estilo de vida: a vacina ameaça mais que o vírus, o jornal ameaça mais que a doença, a universidade ameaça mais que a morte. É a estética do ridículo erguida como bandeira nacional.
E aqui mora o requinte da tragédia: o idiota não tem dúvidas. Duvidar exige esforço intelectual. O idiota tem certezas. Certezas de WhatsApp, certezas de discursos raivosos, certezas tão sólidas quanto areia movediça. O que os números da pandemia provam? Mentira armada. O que a imprensa denuncia? Conspiração. O que a ciência publica? Fraude. Repita isso mil vezes e o delírio já não precisa de provas, porque virou credo.
No fim, a idiotização coletiva do bolsonarismo não é só uma página triste da história brasileira — é o próprio anúncio de que a inteligência, se não resistir, se tornará peça de museu. E quando um país inteiro escolhe viver de delírios, não é apenas a caravela que some no horizonte: é o próprio mar que começa a evaporar.
Estamos diante de um Brasil que trocou a razão por corrente de zap, a ciência por meme mal diagramado, e a vida por delírio. A pandemia matou milhares — mas o bolsonarismo segue matando o que resta: a capacidade de pensar. Bombardeado pelo ódio, anestesiado pela mentira, o país descobriu sua nova vocação no mercado mundial: exportar idiotas em larga escala.