Jornal Tribuna

Um rio que passou na minha vida

Por edicao·
Um rio que passou na minha vida

No silêncio manso das tardes quentes, o tempo parecia se alongar sobre aquela cidade minúscula, feita de duas ruas que, como linhas de destino, cruzavam o centro e logo se dissipavam no horizonte de pastos e plantações. Era um lugar em que os dias tinham cheiro de terra molhada e o som das rodas de charretes misturava-se ao mugido das vacas e ao cantar dos galos. Ali, cada rosto era conhecido, cada segredo dividido em sorrisos e olhares cúmplices.

A minha infância desabrochava nas margens do rio, onde a casa dos avós era um abrigo feito de simplicidade e calor. Lembro-me bem do quintal: os cachos das generosas bananeiras, os galhos tortuosos da goiabeira, e o pequeno universo animado pelos porcos e galinhas, que pareciam conversar entre si despertando o silêncio das manhãs. Mas era o forno de barro, com sua boca escura e promissora, que reinava absoluto. Ali, minha avó, senhora de mãos habilidosas, transformava receitas em rituais – o bolo de fubá saindo dourado, o aroma dos biscoitos de polvilho invadindo cada canto da casa, misturando-se à brisa que subia do rio.

Ela, analfabeta de letras, escrevia no coração um tratado de ternura. Era sábia, sabia decifrar silêncios e dores, sabia acudir meus joelhos ralados e meu orgulho ferido das tantas aventuras e desventuras de menino traquinas. Meu avô, homem de poucas palavras e olhar firme, guardava dentro do peito uma ternura tímida, reservada, que se manifestava em gestos discretos. Era o guardião da honra, do sustento, mas também do meu riso. Bastava um olhar atravessado para que todos soubessem: ninguém ousaria me ferir impunemente.

As ruas, com sua poeira fina, eram o palco das disputas de bolinhas de gude, dos campeonatos de pião, das pequenas brigas que faziam parte do cotidiano. Às vezes, eu era tomado por uma energia inquieta, uma rebeldia que não tinha nome, talvez fruto da ausência dos pais, uma saudade que eu não sabia como dizer. Brigava com meninos, com meninas, era encrenqueiro de carteirinha, e na escola não demorou para que me tornasse presença assídua na diretoria. A turma da bagunça logo me acolheu, e de tanto ir e vir, acabei convidado a sair. Minha avó, com o coração apertado, teve de tomar a difícil decisão de me levar de volta para minha mãe.

A viagem até a capital foi um misto de medo e esperança. Ela, analfabeta no papel, mas mestra em comunicação, conseguiu nos guiar até o novo destino. Ficou em mim a imagem dela, pequena no tamanho, imensa no afeto, vencendo obstáculos com a força de quem ama. Dessas lembranças, carrego o sabor dos bolos quentes e o cheiro da lenha, o som do rio e a certeza de que, mesmo em meio à dureza da vida, o amor sempre achava um jeito de florescer.

É assim que, ao fechar os olhos, vejo minha infância: uma sucessão de dias simples, povoados por gente de verdade, onde aprendi que as maiores riquezas não estão nos livros, mas nos gestos, nos cheiros e nas histórias sussurradas à beira do rio.

Autor:

Jaeder Wiler

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