Jornal Tribuna

ÓCIOS DOS NOVOS TEMPOS

Por edicao·
ÓCIOS DOS NOVOS TEMPOS

Às vezes, ao abrir os olhos de manhã, sinto que despertei dentro de um relógio. Não um quarto, não um corpo, mas um ponteiro em movimento — correndo contra um tempo que não me pertence. Penso: deveria estar produzindo algo. Deveria estar lendo, escrevendo, entregando, respondendo, criando. O verbo “dever” mora na cabeceira da minha cama e me acorda antes do despertador. A culpa, companheira íntima, escova os dentes ao meu lado e me acompanha até a frente da tela — seja ela a do celular, do computador ou do espelho.

Rubem Alves dizia que somos treinados para a utilidade, não para a beleza. “As flores são inúteis”, ironizava. E, no entanto, como fazem bem! Talvez por isso, neste século XXI, sejamos tão tristes: trocamos os jardins pelas telas. Substituímos a contemplação pela performance. A beleza pela função.

Há dias em que viver dói nos ossos. Não pela dor física, mas porque carregar a obrigação de ser feliz, produtivo e relevante o tempo todo é um fardo que entorta a espinha. Vivemos num tempo em que descansar é quase um pecado, e o tédio é visto como fracasso. Mas o que é o tédio, senão um espaço fértil onde a alma respira?

Em Mal-estar na civilização, Freud já advertia: há um preço a pagar pela domesticação dos nossos impulsos em nome da vida em sociedade. O progresso nos prometeu conforto, mas nos levou a um mal-estar persistente. Hoje, esse mal-estar se manifesta na culpa silenciosa dos domingos improdutivos, na ansiedade dos feeds intermináveis, na sensação de que estamos sempre ficando para trás. A sociedade do cansaço, como diagnostica Byung-Chul Han, já não nos oprime com chicote, mas com a liberdade de fazermos tudo — e, portanto, a responsabilidade de fracassarmos sozinhos.

Sentir-se improdutivo, hoje, é sentir-se invisível. E, no entanto, há algo de profundamente humano nessa falha. O tempo que não rendeu é o tempo que talvez nos lembre que somos mais do que o que entregamos. Que a vida não se mede em produtividade, mas em presença.

Outro dia, uma flor nasceu na varanda da minha casa. Ninguém a plantou ali. Nenhum plano de metas incluía aquele broto tímido. Mas ela floresceu mesmo assim, no silêncio, no acaso. Talvez seja isso que ainda nos salva: a esperança de que algo floresça apesar de tudo, apesar do cansaço, apesar da exigência brutal de sermos sempre mais.

Rubem, se ainda escrevesse por aqui, talvez chamasse isso de “milagre da inutilidade”. Eu, aprendiz do silêncio e da lentidão, apenas me sento e escrevo. Não porque preciso. Mas porque, por um instante, isso me devolve o direito de existir fora do relógio.

Autora:

Khamylla Alves Loubak

Comentários

Deixe um comentário