Entre a gratidão e a confissão

Caminhar por uma praça numa tarde comum pode reservar encontros inusitados com o sagrado. Nas ruas movimentadas do bairro de Pinheiros, o acaso me levou até uma igreja de portas abertas. O convite silencioso era irresistível — e, ao entrar, deparei-me com o mistério do vazio, o eco das paredes centenárias, a penumbra aveludada que só os templos antigos conhecem.
Ajoelhei-me, não para pedir, mas para agradecer. Agradecer — palavra tão simples, tão pouco praticada nos bancos acolchoados das igrejas, onde as vozes costumam se erguer em prece nas horas de aflição e raramente em tempos de bonança. Como escritor independente, sinto que navego por mares favoráveis: a inspiração me visita generosa, meus livros se espalham, encontro leitores atentos e o sustento que vem do próprio ofício. A gratidão transbordava, e a igreja parecia, naquele instante, o recipiente perfeito para esse sentimento.
No silêncio, vi o padre entrar no confessionário. Movido talvez por uma curiosidade tímida, talvez por uma vontade de partilhar o bem, fui até lá. Ajoelhei-me mais uma vez, cumprimentei-o e disse a verdade nua: estava ali não para pedir absolvição, mas para agradecer. O que recebi foi uma resposta seca, quase ríspida, como se o próprio gesto de gratidão fosse um desvio do protocolo divino: “Aqui é exclusivamente para pedir absolvição dos pecados.”
Tentei argumentar, quase em voz de súplica: “Mas padre, o senhor não é representante de Deus aqui na terra? Então me ensine qual a melhor forma de agradecê-lo,” não houve concessão, apenas uma repetição inflexível: “Aqui é para confessar os pecados.” E naquele instante, senti-me um estranho na casa de Deus, como se a gratidão tivesse perdido o endereço do sagrado.
Saí da igreja carregando não só meu agradecimento, mas uma nova dúvida: quem, afinal, está preparado para responder por Deus neste planeta minúsculo, que navega perdido pela Via Láctea? O gesto do padre, tão humano em sua rigidez, me fez perceber que, por vezes, até os representantes do divino esquecem que agradecer é também uma forma de oração, talvez das mais belas.
Se coubesse a mim dar algum conselho a esse padre, sugeriria que voltasse ao seminário. Não para aprender dogmas, mas para reaprender o milagre da escuta, o acolhimento do inesperado, o valor de uma palavra de gratidão. Porque, no fim das contas, todo templo deveria ser a casa não apenas para as dores e os pecados, mas também para a celebração silenciosa dos pequenos milagres cotidianos.
Autor:
Jaeder Wiler