Emergências pediátricas enfrentam superlotação com avanço de vírus respiratórios no inverno

Especialista alerta para sinais de gravidade, importância da vacinação e cuidados em casa para evitar complicações em crianças
De janeiro até agora, já foram notificados mais de 35 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em crianças no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O número acende um alerta sobre a superlotação nas emergências pediátricas neste inverno, período em que aumenta a circulação de vírus respiratórios e, com ela, o volume de atendimentos por infecções como bronquiolite, pneumonia, gripe e crises de asma.
Segundo o infectologista Dr. André Ricardo Araújo da Silva, do Grupo Prontobaby, o cenário tem se agravado em 2025 pela combinação entre a sazonalidade dos vírus, a baixa cobertura vacinal e a maior exposição das crianças a ambientes fechados e coletivos. “Essa é a época do ano com maior incidência de doenças respiratórias, principalmente entre os menores de dois anos, que ainda têm o sistema imunológico imaturo e são mais vulneráveis a quadros graves”, afirma.
Entre os casos atendidos, muitos são leves e se resolvem espontaneamente em alguns dias. No entanto, o especialista chama atenção para sinais que exigem atenção imediata dos responsáveis: dificuldade para respirar, sonolência excessiva, irritabilidade fora do comum ou recusa persistente de alimentos. “Mesmo se os sintomas surgiram há pouco tempo, esses sinais indicam risco e não devem ser ignorados”, orienta.
Para diferenciar quadros leves de infecções mais sérias, o médico explica que o resfriado comum costuma provocar sintomas como espirros, coriza, tosse e, no máximo, febre baixa. Já a gripe (influenza) tende a ser mais intensa, com febre alta, dores no corpo, mal-estar e calafrios. Nos casos de bronquiolite ou pneumonia, a criança pode apresentar respiração acelerada, chiado no peito e até afundamento das costelas — um claro indicativo de esforço respiratório e necessidade de avaliação hospitalar.
A sobrecarga nas emergências tem levado muitas unidades a adotarem a triagem por classificação de risco, priorizando os casos mais graves. Embora esse sistema garanta maior agilidade para quem precisa de intervenção imediata, ele pode provocar espera prolongada para os casos considerados leves. “É por isso que o papel das unidades básicas de saúde, UPAs e ambulatórios é fundamental nesse momento: ajudam a filtrar e encaminhar os casos corretamente”, explica Dr. André.
Outro fator que contribui para o aumento das internações é a baixa adesão às vacinas disponíveis no calendário infantil. Segundo o médico, imunizantes como as vacinas contra o pneumococo, a gripe e a Covid-19 continuam sendo essenciais para proteger as crianças de complicações respiratórias graves. “As vacinas são seguras, eficazes e evitam internações que poderiam ser prevenidas. Os benefícios superam em muito os riscos de reações leves”, reforça.
Nos últimos anos, o país também passou a contar com avanços importantes na prevenção da bronquiolite viral causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR) — uma das principais causas de hospitalização em bebês. Entre eles, destaca-se a vacina para gestantes, aplicada entre a 34ª e a 36ª semana de gestação, que permite a transferência de anticorpos da mãe para o bebê. Já o anticorpo monoclonal nirsevimabe, disponível na rede privada, oferece proteção direta ao recém-nascido contra o VSR durante os primeiros meses de vida.
Além da vacinação, algumas medidas simples continuam sendo grandes aliadas na prevenção: lavar as mãos com frequência, manter os ambientes ventilados, evitar aglomerações e, sempre que possível, não enviar crianças doentes à escola ou creche. “Durante a pandemia, vimos uma redução significativa nas infecções respiratórias infantis, justamente por conta da menor exposição e do reforço nas práticas de higiene. Esses hábitos ainda fazem toda a diferença”, lembra o especialista.
Por fim, Dr. André faz um alerta: o maior desafio das equipes médicas neste período é não deixar passar um caso grave em meio ao volume elevado de atendimentos. Em um cenário marcado por alta demanda e escassez de pediatras, a atenção dos pais e responsáveis é peça-chave na detecção precoce dos sinais de gravidade e na adoção de atitudes preventivas. “A proteção começa cedo — às vezes ainda na gestação. Cuidar da saúde das crianças é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, profissionais e toda a sociedade”, conclui.
Autora:
Jéssica Leiras