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Chove em Sampa

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Chove em Sampa

Chove em Sampa. As ruas, lavadas por gotas silenciosas, refletem o céu que pesa, uniforme, sobre a cidade. O cinza domina tudo: prédios, árvores, calçadas e até mesmo o horizonte, que se esconde atrás de uma névoa espessa. O frio cortante penetra a pele, adormece os sentidos e silencia a vida. Os pássaros que antes coloriam as manhãs com seus cantos fugiram para abrigos secretos, deixando um vazio sutil no ar.

Apesar desse cenário gelado e sombrio, descubro dentro de mim um calor inesperado. É como se, atrás das cortinas cerradas do inverno paulistano, um sol surgisse apenas para iluminar minha alma. Brilha com a força das lembranças que guardo: nossos sorrisos partilhados, os olhares cúmplices, a paixão que incendiava nossos corpos. Sinto, com cada lembrança, um raio dourado atravessar a neblina e repousar, tímido, sobre meu coração.

Não importa o peso das nuvens, nem a ausência dos pássaros. Há um universo inteiro de calor na memória dos dias em que, juntos, desafiamos o frio lá fora com a chama da alegria dentro do peito. O tempo pode levar o verão, esvaziar as praças, calar a cidade. Mas não apaga o que em nós permanece vivo.

Entre as gotas que batem na janela, penso no milagre da presença que se faz eterna mesmo quando ausente. O que vivemos, a felicidade partilhada, as noites aquecidas pelo toque e pelo riso, jamais será arrastado pela correnteza do tempo. Faça sol, faça chuva, o amor deixa em nós marcas feitas de luz — impossíveis de desfazer.

Que a cidade siga cinzenta, envolta na sua melancolia. Aqui dentro, nesse abrigo secreto da alma, guardo o verão dos nossos instantes: um sol que não se apaga, por mais fria que

seja a manhã.

Autor:

Jaeder Wiler

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