Hipnose: Ciência, Terapia e o Fim de um Mito Popular

Ainda vista por muitos como um recurso de palco, rodeada de mitos e preconceitos, a hipnose vem, aos poucos, conquistando seu espaço no campo da saúde mental e da medicina psicossomática. Especialistas reforçam: o que antes era tratado como misticismo, hoje é reconhecido como uma ferramenta terapêutica legítima e baseada em evidências científicas.
De acordo com a British Medical Association, hipnose é definida como um “estado temporário de atenção alterada”, caracterizado por uma intensa concentração e redução da percepção periférica. Durante esse estado, podem ocorrer fenômenos como alterações de consciência, memória, aumento da suscetibilidade a sugestões e a capacidade de acessar ideias ou respostas incomuns ao estado de vigília.
“Trata-se de um estado natural, que vivenciamos diariamente sem perceber”, explica o psiquiatra e especialista em hipnose dinâmica, Dr. Leonard Verea. “Quem nunca se pegou totalmente absorvido por um livro, ou dirigindo no modo automático, sem lembrar o caminho percorrido? Isso também é um estado hipnótico.”
A hipnose terapêutica, diferentemente da imagem popular, não tira o controle do paciente. Pelo contrário. Estudos conduzidos por nomes como Milton Erickson, um dos maiores hipnoterapeutas dos Estados Unidos, comprovam que o indivíduo permanece consciente, atento e, principalmente, no comando de suas escolhas durante todo o processo.
Segundo Verea, a hipnose tradicional utiliza basicamente a comunicação verbal e pode demandar entre 20 a 30 minutos para indução do estado hipnótico. Já a hipnose dinâmica, técnica com a qual o médico trabalha há décadas, utiliza principalmente atos comunicativos não verbais, acessando estruturas inconscientes da mente de forma mais rápida e profunda, com induções que duram de três a quatro minutos.
Outro diferencial importante da abordagem dinâmica é que ela não exige que o paciente entre em estado de sono profundo. Pelo contrário: o paciente permanece consciente, orientado no tempo e no espaço, o que facilita a aplicação clínica e reduz o desgaste emocional de ambos os envolvidos.
O reconhecimento da hipnose como ferramenta médica cresce. No Brasil, a prática é regulamentada para profissionais da saúde, como médicos, dentistas e psicólogos com formação específica. A Associação Médica Brasileira (AMB), desde 1999, reconhece a hipnose como método terapêutico complementar.
Ainda assim, o preconceito persiste. “O cinema, os shows de hipnose e a cultura pop criaram a imagem de que o hipnotizado perde o livre-arbítrio, o que é completamente falso. Nenhum paciente faz ou diz nada que não faria em estado de vigília”, reforça o Dr. Verea.
Para ele, o desafio atual é educar tanto o público quanto os próprios profissionais de saúde. “Hipnose não é milagre, nem magia. É ciência, é técnica e, acima de tudo, é um recurso de acolhimento e transformação emocional. As pessoas têm medo não da hipnose em si, mas de encarar o que vão encontrar dentro delas.”
Sobre o especialista:
Dr. Leonard Verea é médico psiquiatra com mais de 40 anos de atuação, referência nacional em Medicina Psicossomática e Comunicação Não Verbal. Autor do livro “Eu não sou assim. Estou assim.”, ele tem se dedicado a desmistificar a hipnose e a ampliar seu uso ético e terapêutico na saúde mental.