Reformas e confusão no planejamento dos móveis mal planejados

Recebi a mensagem e fui à clínica de repouso, mas não pude vê-la, nem deixar as flores e o chocolate que pediu. Disseram que avisarão quando ela puder receber visitas. Para explicar o que houve, terei de retroceder umas semanas.
Rosiris trabalha com móveis planejados: armários embutidos, cozinhas, estantes etc. Recebe pedidos, analisa a planta, visita o imóvel e elabora o projeto. Aprovado o orçamento, faz as encomendas na fábrica e acompanha a montagem. Tudo seria bem simples se não fosse pelas dificuldades: montadores, pessoal de hidráulica, elétrica, marmoristas, proprietários indecisos, decoradores sem noção, arquitetos aloprados, gente palpitando e zeladores chatos. Ela diz que adora o que faz, mas alguns projetos dão nos nervos. Nesse ramo, com fala mansa e um bom porrete, a pessoa pode ir longe. Seu último projeto foi para o seu Osório.
Viúvo, prestes a se casar com Charlene, 36 anos mais nova, seu Osório chamou Rosiris para cuidar dos planejados, mas a noiva envolveu a prima Eva, arquiteta formada a distância durante a pandemia, indicou encanador, eletricista, pintor e marmorista, todos clientes do Cabaré onde conheceu o futuro marido. A decoradora será a stripper Cloé, sua parceira de Pole Dance e dama de honra no casório.
Seu Osório, fanho e resfriado, não sabe usar WhatsApp e informou o endereço por telefone. Fuinha, o faz tudo (errado), ensino básico incompleto, anotou os dados em meio aos ruídos de uma obra e repassou o endereço com caligrafia hieroglífica, gerando confusão: Rua 13 de Maio ou 23 de Maio? Apartamento 32 B, 32 D ou 23 C? Números e letras sempre o confundem. Seu Osório não lembrava o número do imóvel, mas disse que é um prédio não muito alto, branco ou bege, perto da padaria. Waze, e Google Maps não localizaram o endereço.
Rosiris visitou o apartamento 32 D da rua 13 de Maio, mas Eva e Cloé viram outros imóveis. Nos endereços fornecidos haviam quatro imóveis à venda e um vago, com os proprietários viajando. Seu Osório gostou do projeto da Rosiris e a noiva Charlene gostou do esboço da Eva e das ideias da Cloé, todos para imóveis diferentes. As três não se conhecem.
No dia da montagem, Rosiris foi à rua 13 de Maio, Eva, Cloé e os empreiteiros foram a outros endereços. Quando menos se espera, aí é que nada acontece! Constatada a confusão, as três mandaram mensagens para seu Osório, mas como ele não usa WhatsApp, foram até sua casa. Ele mostrou a proposta de compra: rua 3 de Maio 323, apto 32 C. Rosiris, Eva e Cloé foram visitar o imóvel correto e ver o que dá para fazer, mas esqueceram de avisar os empreiteiros.
Projetos diferentes, medidas que não conferem, empreiteiros batendo cabeça, mas a montagem teve início mesmo assim. Sobraram peças nuns cômodos, faltaram em outros, pia da cozinha menor que o gabinete, armários embutidos maiores do que os vãos, furos para tomadas em pontos errados, geladeira sobre o ralo da cozinha e fogão longe do ponto de gás. Para Fuinha, dá para resolver tudo com serrote e umas gambiarras. Ao saber da confusão, o proprietário telefonou para seu Osório. Disse que cansou de esperar pela proposta assinada e vendeu o imóvel para outra pessoa. O novo dono foi ao local com sua arquiteta e não gostou do que viu.
Choveram reclamações: banheira com vazamento em um apartamento, pintura não solicitada em outro, paredes perfuradas, privada impedindo abertura da porta etc. Telefonaram da loja de tintas informando que não encontraram o prédio na 23 de Maio. Fuinha disse: é só questão de calendário. Pelo menos o mês está certo: maio! Basta ajustar a data. O comentário de Fuinha não ajudou e as moças começaram o bate-boca e a acusação. Seu Osório infartou, foi levado ao hospital, mas não resistiu.
Rosiris, Eva e Cloé projetaram gratuitamente o túmulo e Charlene aprovou. Após a missa de sétimo dia, as quatro foram visitar o local. Conversavam sobre a obra quando Fuinha e dois estranhos se aproximaram.
- Sou o administrador do cemitério e vim tratar da exumação.
- Que exumação? – perguntou Charlene.
- O túmulo da quadra 2, lote 3, pertence a outra família.
- Aqui está o recibo: Chi! É quadra 3, lote 2. Que mancada!
- Eu não estive no velório do tio Osório porque vocês erraram o endereço. O túmulo dele fica em outro cemitério!
- Onde instalo o mármore “travesti” e o granito “boiolado”? – perguntou Fuinha.
Bem, isso foi o resumo da confusão que causou a internação da Rosiris por estafa. Dez dias após eu visitar a clínica, levar flores e chocolate, ela me telefonou muito irritada.
- Se eu tivesse morrido, você pelo menos teria ido ao velório?
- Quem está falando?
- Rosiris, sua namorada, seu babaca!
- Ah! Lembrei. Recebi a mensagem, não entendi nada e resolvi ir à clínica Maio para ver o que estava acontecendo. Levei flores e chocolate, mas disseram que você não podia receber visitas.
- Clínica Maio? É Clínica Maia, seu imbecil! Você bebeu, Mário?
- Quem é Mário? Meu nome é Mauro. Que número você digitou?
Após uma hora ao telefone, ficou claro que Rosiris tinha tantos “maios” na cabeça que errou o nome da clínica. A mensagem era para Mário, seu namorado, mas ela errou o número e enviou para mim, Mauro, que nem a conhecia. Estranhei e fui ao local para ver o que rolava. Azar do Mário, que não deu as caras e acabou sem namorada. Eu e a Rosiris começamos a sair. Ela é bonitinha, mas se não mudar de ramo, tô fora! Não quero namorada neurótica! Vida que segue.
10 Comentários
- Marie Felice Weinberg
E que namorada!!!!
- Laerte Temple
KKK. Bem assim. Obrigado, Marie. Abraço.
- Raimundo F Ignácio
Me diverti muito com todas essas confusões, ou será confissões? Não importa me diverti lendo e te confesso que estava precisando!
- Laerte Temple
Passei por alguns desses traumas. KKK. Obrigado Alemão. Abraço.
- ITA ROSA LIBERMAN
Quando menos se espera… lá vem uma crônica divertida no meio da confusão.
Só podia ser do Laerte! - Laerte Temple
Já passei por isso. Obrigado Ita. Abraços.
- Deise
Essa sua namorada me lembra o título do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa daquele um que não vou nem falar o nome
- Laerte Temple
Isso mesmo.. Só que não é namorado. É ficção. Mas existe gente assim, doidinha por causa do trabalho. Obrigado.
- Fernando Pires
Que confusão! Só rindo! Muito boa Laerte!
- Laerte Temple
Ja passou por isso? Obrigado Fernando. Abraços.