Jornal Tribuna

Chuva, apagão, traição e dor de cabeça

Por Laerte Temple·
Chuva, apagão, traição e dor de cabeça

Sexta-feira, 7 da manhã. Dudu levou a esposa a um hospital top de linha em procedimentos estéticos. Siri, melhor amiga de Thea, aguardava na recepção, mas só para xeretar e postar nas redes sociais. As amigas se cumprimentaram com aqueles beijinhos que os rostos nem se tocam, sorrisos amarelos, fizeram caras e bocas, trocaram dois dedinhos de prosa e Thea foi para o Centro Cirúrgico. Dudu disse que esperaria no quarto, mas foi com Siri na cafeteria do mezanino. Escolheram uma mesa atrás de enormes vasos com vastas folhagens. Siri é o apelido de Sidônia Carneiro. Também é o diminutivo de Sirigaita, a piriguete do grupo.

Dudu e Siri conversaram sobre os caminhos de cada um após o fim do breve relacionamento. Eles namoraram por um tempo, mas não deu certo. Aliás, foi Siri quem apresentou a amiga ao ex. Thea é certinha, metódica, carola e ele é da pá virada, mas advogado bem sucedido, graças aos clientes envolvidos em casos de corrupção, muitos dos quais ele mesmo intermediou. Siri é uma loira fatal, corpo escultural, bióloga e aracnóloga. Casou-se duas vezes e ambos os maridos morreram por picada de aranha venenosa. A loira enricou com as heranças milionárias.

Quatro horas e alguns cafés mais tarde, Dudu foi avisado do fim da cirurgia. Tudo correu bem. Ele e Siri pediram uma salada como almoço e voltaram para o quarto. Após longa espera, o médico disse que Thea está agitada, mas é normal. Ficará mais tempo na recuperação e só irá para o quarto à noite. O doutor recomendou repouso absoluto. Visitas só no dia seguinte. 

Dudu disse que iria aproveitar a tarde livre ver a reforma da casa de campo e convidou Siri para acompanhá-lo. Nem precisou insistir. A meteorologia prevê chuva forte, mas isso não preocupa. A casa fica à beira do rio e não passou por reforma porcaria nenhuma. Foi pretexto para estar a sós com a loira. Mal desceram do carro e o amasso começou. O intercurso teve início na varanda e terminou na sala. Não deu tempo para chegar ao quarto. Foi tão intenso que nem perceberam a ventania, os raios e o toró que se formava. 

O dilúvio e as consequências

De repente, a eletricidade pifou e tudo escureceu. Siri foi para a rede da varanda para relaxar e Dudu, peladão, foi até o carro pegar o maço de cigarro. Abriu a porta do motorista e esticou-se para alcançar o porta-luvas, no exato instante que um raio atingiu uma enorme jaqueira que caiu sobre o veículo. O terreno deslisou e árvore, carro e Dudu rolaram rumo ao rio. Siri buscava sinal no celular e viu passar um carro boiando e dentro dele um corpo nu.

Desnorteado e com forte dor de cabeça, Dudu abriu os olhos. O que aconteceu? Onde estou? Como vim parar aqui? Cadê a Siri? Por que estou pelado?

  • Ora, ora! Vejam quem acordou!
  • Que horas são? Quem é você? Onde estou? Cadê minhas roupas? Muito calor!
  • Calma! Não se preocupe com horas, meses, anos. A contagem do tempo aqui é bem diferente.
  • Eu me lembro da Siri, da chuva. Fui buscar o maço de cigarro e não lembro mais nada.
  • Deixa eu ajudar. Você foi buscar cigarro, um raio atingiu a árvore, o chão cedeu e a correnteza arrastou tudo rio abaixo, com você dentro do carro, e peladão.
  • Ninguém chamou o Resgate?
  • Muitas cidades ficaram sem luz, sem telefone, sem semáforos com o trânsito parado. E você ciscando com a melhor amiga da esposa, seu danadinho!
  • Poxa! Se alguém ficar sabendo, estou encrencado!
  • Se alguém ficar sabendo? KKK. Você ficou famoso, cara. Saiu até na TV. Não o seu rosto, mas a retaguarda, entende? A “buzanfa” de fora. Foi hilário!
  • Eu na TV? Pelado? Mas como, se não tinha ninguém por perto gravando?
  • O carro desceu o rio por uns cinco quilómetros. Muita gente registrou. Bombou no Tik Tok.
  • Preciso ligar para o hospital para ter notícias da minha mulher.
  • Aqui não tem telefone. Mas fica tranquilo. Ela está feliz. Herdou todos os seus bens e casou-se com um cirurgião plástico e foi morar no Canadá.
  • Como assim, herdou tudo? Quando foi isso? Eu estou aqui, vivinho da Silva!
  • Isso tem mais de um ano, no tempo terrestre, claro. Você acha que saiu vivo daquele carro?
  • Droga! Onde está a Siri? Quero dar uns amassos. Vem cá, o ar condicionado quebrou?

O assessor do anjo caído explicou que a casa do Dudu desabou com a Siri dentro. Ela chegou no Hades antes dele e está num bloco distante. Não existe ar condicionado nas profundezas e os hóspedes não têm regalias, muito menos visita íntima. É só masmorra, castigo e refeição à base de Miojo vegano, cerveja de soja e Diet Dolly sem gelo, tudo ao som de Caneta Azul. O apagão também teve efeito nas profundezas. Estão sem Metrô e quase nada funciona.

  • Vocês não tem ninguém aqui para consertar?
  • Tem, mas eles prometem, pouco fazem, atrasam muito e querem levar propina em tudo.
  • Conheço bem essa história.
  • E tem mais. Depois do apagão em São Paulo, um forte terremoto atingiu Brasília. Ninguém sobreviveu e ninguém foi lá para cima. Todos vieram direto para cá!
  • Por que vocês não anistiam essa turma e mandam embora?
  • O chefe tentou acomodar lá em cima, mas o Supremo disse que o lugar de políticos, empreiteiros, pessoal de planos de saúde, telefonia e concessionárias, é aqui mesmo. Está nas escrituras! E para piorar, a turma que veio de Brasília quer rever regras milenares e mudar tudo. Chegou um cara pregando democracia e eleição. Lançou-se candidato a príncipe das trevas e pediu cassação e inelegibilidade para o capeta. Tremenda dor de cabeça!
  • Você disse que Brasília foi destruída. O Brasil acabou? Está sem comando?
  • Que nada! Melhorou muito. É a 3a potência mundial, zero analfabetos, sem inflação, corrupção e criminalidade baixas, PIB elevado e 2 prêmios Nobel. O problema agora é aqui embaixo. Até o tridente do chefe eles roubaram. Como vocês aguentaram esses caras? Logo vai ter eleição, nós contra eles. Ganhe quem ganhar, o inferno nunca mais será o mesmo!

8 Comentários

  1. ITA ROSA LIBERMAN
    ITA ROSA LIBERMAN

    Você juntou quase todos os seus desafetos no dilúvio final, Laerte.
    O inferno nunca mais será o mesmo!

    1. Laerte Temple
      Laerte Temple

      Isso mesmo, Ita. Obrigado pelo comentário.

  2. MARIA DO CARMO DOMINGOS
    MARIA DO CARMO DOMINGOS

    Muito boa sua crônica. Parabéns

    1. Laerte Temple
      Laerte Temple

      Obrigado pelo comentário, Maria do Carmo.

  3. Léia D’Alvia
    Léia D’Alvia

    Adorei!!!

    1. Laerte Temple
      Laerte Temple

      Obrigado, Léia.

  4. Riccitelli
    Riccitelli

    Excelente crônica. Retrata, de forma bem humorada, a triste condição da sociedade.

    1. Laerte Temple
      Laerte Temple

      Muito grato pelo comentário

Deixe um comentário