Não há ninguém lendo

De vez em quando, tenho uma dificuldade imensa de escrever. Ela me acomete assim, de súbito. Como uma dor aguda e que se renova e intensifica a cada respiração. O interessante dessa dor, ou bloqueio, é que não parte de mim. Não é confiança ou a falta dela, não são dúvidas nem falsa modéstia. Se trata de conflito externo. Vem de pensar na dor do outro. Mais ainda, de se questionar, o que outros pensariam do meu texto?
Pronto, está feito o bloqueio. Como um guarda de trânsito que sinaliza o bloqueio da via e que não é possível seguir. E após alguns minutos para contemplar no existencialismo a força que um ser humano pode estabelecer sob outro sem nem ao menos levantar um dedo, volto a realidade. Mas, descobri um atalho, uma alternativa ao bloqueio. Quando quero me desafiar a escrever, faço um exercício simples e terrivelmente eficaz. Digo a mim mesmo: “Agora que ninguém está lendo, o que você escreveria?”
Como águas da nascente, o texto flui suavemente. Impressionante. Removido o bloqueio, a via está livre e o trânsito circula sem dificuldades. Quando faço isso, acabo escrevendo textos simples, dizendo besteiras, mas que precisava ouvir, ou melhor, ler. Escrevo histórias sem sentido, só para o meu divertimento. Faço personagens dizerem coisas engraçadas e acabo dando altas gargalhadas nos momentos de maior seriedade, lembrando do que escrevi.
Acima de tudo, escrevo com sinceridade e exatidão. Porque não estou escrevendo para outros e tampouco penso se vão ou não gostar, se irão achar ridículo, perda de tempo ou qualquer outra explicação. Porque aqui, neste instante, não há ninguém lendo. Então, posso escrever o que eu quiser. Agora, baixei os vidros do carro, para sentir o vento em meus cabelos, para ouvir a música do rádio e dirijo sem rumo para ser feliz. Sou livre no papel. O papel é meu e faço dele o que eu quiser. Nunca vi tão perto a liberdade. Ela é clara como o sol. Consegue vê-la?
Experimente: Agora que ninguém está lendo, o que você escreveria?
Autor:
Eduardo Lira
1 Comentário
- Paula
Ótima crônica. Parabéns.