As raízes e as sombras

O dia ainda está escuro, o pão de açúcar ali em silêncio trazendo doçura para as águas da baia de guanabara, suas cabines de passeio, os famosos bondinhos permanecem parados, aguardando os próximos turistas para viverem essa experiência única e emocionante que só a cidade maravilhosa tem. As árvores balançam com o vento bem suavemente, algumas folhas caem. Carros e motos passam em velocidade acelerada riscando o asfalto. No céu os aviões sobrevoam baixinho para pousar na pista estreita e bucólica. As luzes amarelas dos postes ainda estão acesas, iluminando o entorno. O caminhão do lixo passa para limpar as tristezas deixadas, o acúmulo de objetos deixados sem o menor cuidado, os heróis recolhem tudo com muito esmero, precisam passar a limpo o que está errado e fora do lugar.
A cidade aguarda seu próximo dia começar. Ao pé das árvores das calçadas ao invés de ver suas raízes, vejo indivíduos buscando a sua sombra e seu lugar para descansar um pouco, com suas roupas inadequadas para o inverno, aguardando o plantão dos homens de bem que todos os dias procuram trazer esse pequeno conforto, um cobertor e uma sopa feita com muito amor. A reflexão nesse momento se faz presente. E a pergunta vem à mente: Qual a história que cada um carrega, como era sua família, seus afetos, suas perdas, suas emoções, seus sonhos, sua dignidade, como tudo se compõe?
Se existe alegria em seus corações, ou se essa palavra não pertence mais nos seus dicionários e foram substituídas por sofrimentos. São músicos, artistas, imigrantes, poetas, que não tiveram o privilégio de escolher o que seguir? São escolhas? A mente volta a realidade nua a crua e percebe que tudo é muito mais complicado que possa parecer. São muitas variantes e variações. O pensamento do momento é único, uma vontade de voltar a ver só as raízes das árvores e os indivíduos em suas famílias, casas e cidades de origem, vivendo, sendo, pertencendo e felizes.
O olhar muda de direção e o relógio marca 6h, o sol começa a nascer, os postes vão se apagando, ouve-se já o barulho dos ônibus pegando seus passageiros nos pontos. O pão de açúcar ganha um novo tom, meio amarelado pelo brilho dos raios de sol anunciando o novo dia, o silêncio vai se retirando e dando a vez aos barulhos da cidade grande. Ô Rio acorda.

Autora:
Raquel Pádua