A surdez vista hoje

O documentário “Sou surda e não sabia”[1], mostra as sensações e sentimentos de Sandrine sobre sua família, antes e depois do diagnóstico de surdez. Como não ouvia sons, Sandrine inicialmente acreditava que pessoas se comunicavam por telepatia. Tentava enviar mensagens mentalmente, mas se frustrava. Foi quando se voltou ao concreto, ao palpável. Vivia mais integrada à sua família, pois seus pais a viam como igual, sem “deficiência”, sem ser uma pessoa “a ser corrigida” para se adaptar a uma suposta formatação ideal social. Reinava amor e afeto. Como a maioria dos surdos, nasceu em uma família de ouvintes. Tinha como primeiras lembranças sensações visuais, olfativas e táteis.
Após o diagnóstico, no entanto, cria-se uma barreira entre a protagonista e seus pais. Sandrine passa a ver que sua família é semelhante à maioria dos ouvintes no sentido de que a enxerga como tristeza e frustração. Acha estranho o fato de os pais quererem descobrir com veemência se a criança é surda, desprezando na prática a ligação afetiva entre pais e filhos, que geralmente costuma ser prejudicada após o diagnóstico.
Sandrine é retirada de seu lar durante parte de sua infância, indo ao hospital, com pessoas estranhas e tendo que ver os pais com ar esquisito. Não se sentia doente, embora estivesse rodeada de pessoas preocupadas, médicos e outras pessoas suspeitas de estar na mesma condição que ela. Passa a ver seus pais preocupados, achando que a filha é só um ouvido gigante, sem outros atributos a serem valorizados. Entre filha e genitores ergue-se uma barreira, o calor cede lugar a uma frieza diante da criança. A mãe passa a ficar impaciente, intolerante e agressiva com a lentidão com que a filha come. E Sandrine não fica pra trás em relação à mãe, no quesito empolgamento.
Outra questão discutida no vídeo é a forma como o diagnóstico é repassado à família. A surdez, sob um viés depreciativo, excludente e preconceituoso, é vista como uma deficiência, algo a ser corrigido para se adaptar a uma maioria de ouvintes. O politicamente correto é indevidamente visto como “deficiente auditivo”, pois traz a idéia de que algo pode ser feito para “corrigir” a surdez, como se não houvesse surdez irreversível. E de quebra valoriza os “profissionais” empenhados em levar adiante esse projeto de “ouvintização” da sociedade. Passa-se a impressão de que a surdez é corrigível, o que nem sempre é verdade, e nem sempre o “paciente” quer deixar de ser surdo, abandonar amigos que compartilham das mesmas vivências. Além disso, como a surdez não é um problema urgente, os médicos não expressam interesse em resolver logo a “questão”, salvo quando agem idealizando o sonoro e desprezando outras formas de linguagem e de fala. Os médicos não dizem que o paciente é surdo, mas expressam tratar-se de um problema auditivo, a ser corrigido por vários métodos ou instrumentos: aparelho auditivo, implante coclear etc. E os pais, geralmente ouvintes, ficam receptivos a esse discurso, pois desejam filhos ouvintes. A linguagem de sinais é ouvidada, jogada a escanteio.
O correto seria enxergar e transmitir uma idéia de valorização da diferença, reconhecimento do valor da Língua de Sinais como uma forma rica de expressão, que ajuda a explicar o ser humano visto ter surgido primeiro na história da humanidade, uma riqueza cultural a ser preservada como patrimônio da humanidade. Não negar a surdez, passando a falsa impressão de que o paciente será curado completamente.
O documentário também traz a vida educacional da protagonista: 1ª escola, adaptação ao aparelho auditivo, escola especializada e escola bilíngüe. Na primeira parte da trajetória, Sandrine ainda não sabia que era surda. Foi para uma escola em integração, com ouvintes. Não sabia como estes se comunicavam (acreditava que através de balões, como que em quadrinhos). Acreditava estar lá por engano, e que a qualquer momento, poderia ser abduzida para um lugar mais adequado a ela. Se sentia perdida e invisível, andando atrás dos coleguinhas nos corredores. Não tinha amigos, mas adultos reeducadores – fonoaudiólogos, psicólogos etc.
Quando usa o aparelho auditivo, fica inicialmente chocada, ouve barulhos ininteligíveis. Percebe então o que a maioria das pessoas sentem no ouvido, embora sem compreendê-lo. Outrossim, percebe que nunca ouviria como os ouvintes.
Na escola primária, os surdos têm um ensino especializado; o foco recai sobre a oralidade. Durante algumas horas, há integração com classes de ouvintes. Sandrine se sente, durante sua infância, como uma boca, como se nada mais dela tivesse importância. Tentava imitar a voz, e pensava que um dia se tornaria ouvinte como todos os demais. As demais disciplinas do currículo escolar eram relegadas a segundo plano. A formação de Sandrine fracassa. Já na escola para surdos (Centro de Tratamento da Audição e da Fala), tentam proibir a Linguagem de Sinais, embora as crianças a usem escondidas. Sandrine conhece surdos pela primeira vez, faz amizades, vê os coleguinhas usando a Linguagem de Sinais. Percebe que existem adultos surdos que usavam essa linguagem livremente, que não se importavam em refrear crianças barulhentas.
E na escola de ensino bilíngüe (Sandrine não foi escolarizada em escola bilíngüe), surdos e ouvintes são escolarizados conjuntamente na mesma sala de aula. No recreio, brincam juntos de pega-pega, por exemplo, brincadeira que exige menos comunicação. Há um professor surdo ensinando a Linguagem de Sinais e auxiliando a compreensão do que é repassado oral e simultaneamente por outro professor. Os alunos podem se identificar mais facilmente, pela presença dos elementos oral e gestual.
Pode-se vislumbrar no vídeo também a idade em que Sandrine aprendeu a Língua de Sinais, e sua vida antes e depois do código. Na família e na escola, vivia um mundo onde a oralidade reinava. Sentia-se limitada, frustrada. Já quando chega aos 9 anos, Sandrine conhece a Língua de Sinais no contato com colegas na escola para reabilitar surdos. Mas somente na adolescência rejeita a linguagem oral e aprende a Língua de Sinais, quando passa a poder dizer tudo o que quer, especialmente na presença dos amigos. Sandrine se sente melhor para se relacionar, fazer compras… Rejeita o rótulo de deficiente e busca autonomia para desenvolver sua vida plenamente, procurando se profissionalizar, mas tendo que enfrentar barreiras e preconceitos diante de limitações que a sociedade ouvinte impõe aos surdos. Sente falta de empatia dos ouvintes diante da situação em que se encontram os surdos, e que aqueles procuram definir a vida dos surdos sem conhecê-los adequadamente, ou sem respeitá-los.
A protagonista, ao ver que era possível o teatro com linguagem de sinais, decide praticá-lo. Deseja que o teatro visual seja visto pelo profissionalismo e não pelo espanto de ser executado por surdos.
E bloqueios são inevitáveis numa sociedade construída para ouvintes, como quando fica presa no elevador com sua amiga e lança mão do grito para pedir ajuda. No entanto, Sandrine acredita que quem se recusa a ouvir são os ouvintes, que ficam indiferentes, em sua maioria, diante das necessidades de contato com os surdos, parecendo resgatar práticas eugênicas (como as nazistas) ou assassinas (como na Grécia Antiga, quando se jogavam bebês diferentes em precipícios, para “higienizar” a sociedade dos “deficientes”).
Por fim, pode-se depreender do documentário o quão injustas podem ser as considerações sobre a importância das linguagens peculiares a certas necessidades de fala. E mostra que poucas pessoas enxergam o valor da variabilidade lingüística, a importância cultural e comunicativa de valorizar mensagens, códigos e comunicações nas mais diversas situações de fala. Compara os surdos aos índios, pessoas privadas de direitos, obrigadas a negar suas identidades, e a evitar sua linguagem, permitindo que os brancos/ouvintes exerçam poder sobre as minorias, tolhendo suas identidades. Foucalt, em sua Microfísica do poder, já mostrava a importância de diversas arenas em que o poder se instala e se manifesta, sendo a linguagem marca considerável. Outrossim, o documentário deixa claro que o que impera na sociedade de ouvintes é uma visão centrada no narcisismo, na consideração de que o belo, o certo e útil é aquilo que responde aos padrões do ouvinte. Essa visão descarta tudo que é diferente, por mais valoroso que seja. Assim como o racismo, o preconceito contra os surdos também é uma forma de “outramento”, de criação da diferença como trampolim para discriminar, para se achar superior, para explorar e subjugar quem não compartilha certas características.
Com isso, percebe-se que a luta por uma sociedade mais tolerante passa pela valorização das nossas diversas formas de expressão e comunicação, assim como o aquilatamento de uma pessoa não se dá pela cor da pele mas pelo que de fato a compõe, como essência de vida, autonomia, companhia etc. Tal qual uma campanha recente do Ministério Público Federal, “ser diferente é legal”. Pode-se dizer mais: “ser diferente é crucial para garantir nossa riqueza, nossa capacidade de enfrentar desafios que são melhor resolvidos quando se têm à mão diversos pontos de vista, diversas culturas, diversas técnicas…”.
[1]ELIAS, Ananda. Sou surda e não sabia. Youtube, 01 set. 2013. Disponível em: <https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=sou+surda+e+n%C3%A3o+sabia+completo+dublado>. Acesso em: 03 ago. 2023.
Autor:
Hudieny Dias de Souza