O violão e as batidas do coração

Tarraxas. Mão. Braço. Escala. Trastes. Casas. Rastilho. Cordas. Assim são algumas partes do violão na sua composição mais literal. Um objeto que tem por objetivo emitir som. Talvez algumas pessoas o vejam assim. Apenas um instrumento musical. Para mim o violão sempre representou muito mais que isso. Sempre foi um encontro com a minha alma, meu lugar de aconchego, de intimidade, de revelar minhas emoções e tocar as pessoas. Aos 13 anos ganhei meu primeiro e único Di Giorgio, imponente, bonito, marrom com tons e sobretons, um som potente, alto e limpo.
Foi numa casinha lá no bairro vizinho que morava que tive a minha primeira aula. Sabe quando você sente muita vontade de descobrir uma nova habilidade? Sim, foi assim que me senti, me desafiando a aprender algo novo. Levei meu caderno, um carimbo que naquela época se usava para escrever as notas da música. Lembro que o carimbo tinha um cheirinho bom, tenho uma memória afetiva.
Minha mãe sempre foi musical, gostava de cantar, era bem afinada e acreditava que a música traria para gente muitas alegrias e aproximação com as pessoas, pois podíamos nos reunir em confraternização para cantarmos e vivermos momentos leves e agradáveis. E como as mães são sempre sábias, de fato todo esse resultado veio com o tempo.
A professora dizia que eu tinha talento para aprender, minhas mãos ajudavam, eram de um tamanho bom, tinha certa habilidade com as mãos, destreza e assim ela me incentivava cada vez mais a me desenvolver e eu fui tomando gosto pela coisa. Começamos com músicas simples, como Marinheiro, Marinheiro, Marinheiro só, e era muito legal perceber que nascia aos poucos um amor pelo som que as notas emitiam, pelo processo de construção de uma canção, o significado de cada nota com seus nomes e suas letras. Na verdade eu não tinha pretensão de me tornar uma profissional da música, nem uma cantora que tocava bem, pois para isso precisava ter um plus a mais, talento, viver a música, entender mais profundamente sobre composições e tudo mais. Para mim o violão significava tirar um pouco da minha timidez e me aproximar das pessoas. Era meio terapêutico.
Aos poucos fui evoluindo, já decorava as letras e meu repertório já estava com uma quantidade boa de músicas para poder tocar e cantar para as pessoas, meus amigos em especial. Lembro que na época eu tocava no encontro de adolescentes que participava, era tão bom, especialmente quando eu tocava as músicas sobre Deus, como mexia comigo, às vezes corria lágrimas de emoção, que delícia lembrar desses momentos. As reuniões eram na igreja perto de casa onde nos reuníamos para tocar e cantar. Fazíamos também luaus numa praia chamada Adão e Eva, e como fiz amigos nessa época. Lembro também que gostava de fazer serestas para as pessoas mais velhas, amigas da minha mãe, virava uma roda bem animada, tocava até músicas de Elis Regina, Cartola, Nelson Gonçalves, esse especialmente meu pai era fã. Eram noites muito agradáveis, divertidas e todos saíam felizes!
O violão me acompanhou, foi meu amigo durante uns quinze anos, depois aos poucos fui parando de tocar, perdi um pouco o entusiasmo e não sei bem o motivo, apenas não tocava mais, ficava guardado em cima da escrivaninha do meu quarto.
Só fui voltar a tocar quando na pandemia eu me aventurei a compor. Ora nesse período virou uma válvula de escape para tantas emoções à flor da pele. Compus 4 canções e depois meu amigo professor fez as melodias, acho que ficaram bem legais e emocionantes, carregavam uma mensagem de esperança de um tempo tão tenebroso e difícil.
Hoje estou mais próxima de mim e do violão. Toco aqui no meu apartamento nas noites de lua cheia, olhando para essa vista linda, inspiradora e me traz paz no coração e me eleva.
Às terças-feiras ganharam também um sentido muito especial, é o dia que levo comunhão aos queridos idosos de uma casa de convivência. Recebi um convite também que levasse o violão para tocar nas celebrações lá, pois poderia fazer um bem a eles. Sabe que é um dos momentos mais emocionantes que vivo da minha semana?
Quando chego carregando o violão percebo os olhares deles, ficam muito felizes porque naquele momento eles podem reviver seu passado, suas boas lembranças, suas emoções, ah, é lindo de ver tudo isso, essa troca de energia, um coral de passarinhos delicados, amorosos, frágeis que me transportam para um outro lugar, saio de lá cheia de amor.
Nós ali somos todos iguais, não importa se um tem dificuldade de se locomover, se está numa cadeira de roda, se está com pouca memória, se fecha os olhos e está um pouco mais distraído nos seus devaneios, se às vezes repete um pensamento, o amor fala mais alto e tudo se cura naquele momento, as almas se reconhecem pela melodia e cantam sem medo, se revelam sem julgamentos. Quanta emoção!
Quando o coral termina, fica sempre um gostinho de quero mais, mas eles sabem que na próxima semana vamos fazer a mesma viagem para dentro do coração. Ai, eu amo estar ali e minhas amigas também.
Chega a hora da despedida, vou até eles, um a um. Pego nas mãos, olho nos olhos e digo sempre: fica com Deus, obrigada por estar aqui conosco, tenha uma semana linda e sempre recebo muito carinho e conselhos, que troca maravilhosa. E, também, não importa se na semana seguinte alguns não vão lembrar de mim, eu vivo com eles o presente, o aqui e o agora, e é tão lindo e forte!
E assim vou levando nas costas e tocando meu violão, onde me chamam, onde me sinto bem e onde ele me toca. Que os meus dedilhados suavizem as tristezas, que alimentem as alegrias, que minha batida seja sincronizada com os compassos dos corações e minhas canções toquem cada vez mais quem se sentir tocado. Que todas as notas sejam de harmonia, decifradas no melhor tom para que minha voz seja instrumento de amor e compaixão.

Autora:
Raquel Pádua
14 Comentários
- JORGE MARCIO DE ANDRADE SANTOS
Texto lindo e emocionante! Parabéns Raquel por trazer alegria e tanta paz ao próximo através da sua música.
- Raquel Pádua
Muito obrigada pela mensagem.
- Andréia Baptista
Seus textos extravassam uma criatividade misturada com muita sensibilidade que você aplica em prol do próximo. Comovente, amiga! Parabéns por desenvolver esse olhar diferenciado numa sociedade tão fria e calculista. Sucesso, muito sucesso.
- Raquel Pádua
Muito obrigada amiga por sua mensagem, adorei!
- Robson Martins
Raquel tenho um Di Giorgio bel son 36 de 1986 exatamente identico ao seu, ate na cor docl tampo de cedro. Ganhei com 13 anos. La se vao 37 anos. Lembro ate hj meu finado pai comprando pra mim na quase unica loja de instrumentos da minha cidade. E meu companheiro ate hj. Tenho mais 6 outros violões. Mas esse tem algo de especial alem do som lindo. São as lembrancas e emoções com ele sempre presente ao longo da jornada. Merece todo o nosso carinho….
- Raquel Pádua
Muito bom saber que o violão acompanha mais pessoas e cada um com sua história, obrigada pela mensagem.
- Carol
Música para os ouvidos e para o coração!!!
- Raquel Pádua
É verdade, amiga! Que bom que tocou seu coração!
- Sergio Belmont Peixoto
Texto lindo amiga, fomos criados e educados juntos na infância, e engraçado como pude me recordar dessa época, nossas mães nos assistindo dançar nas confraternizações do colégio, e fiquei emocionado e me coloquei na mesma posição de você quando mencionou da timidez. Só que me parceiro foi o esporte, que ficou abandonado em um período da vida e agora retornou. Outro detalhe de semelhança é a alegria de poder toda sexta-feira também levar comunhão aos mais idosos e acamados de nossa paróquia, e poder compartilhar junto deles esse momento de fé e alegria. Parabéns amiga, continue em sua caminhada. Beijos no coração ?
- Raquel Pádua
Obrigada amigo pela mensagem linda! A infância é uma fase muito boa, guarda muitas lembranças!
- Claudia Lutz
Amiga querida e tão especial! Suas palavras não apenas me emocionam mas me levam nessa viagem cheia de emoções. Sua escrita traduz suavidade e traz paz ao meu coração. Isso é Divino! Que Deus continue a te abençoar e a te inspirar e que você seja sempre essa portadora de alegrias a todos que viajam nas suas crônicas. Parabéns!
- Raquel Pádua
Obrigada amiga, mensagem linda! Que bom que você está curtindo as viagens!
- Tobias Gonçalves 29/07/2023
Violão é tudo isso! Texto maravilhoso. Eu também sou apaixonado por esse instrumento amigo, companheiro das horas de solidão, de alegria, de extravasar sentimentos, em fim, de todas as horas! É muito gratificante poder executar uma melodia, e muito mais ainda poder criar uma canção. Acho até
que não criamos. Elas já estão ali, meio que escondidas. Nós só as descobrimos! - Raquel Pádua
É verdade Tobias, estão sempre escondidas dentro de nós! Obrigada pela mensagem.