Mundo real x mundo ideal
Na vida, refletimos das mais diversas formas. Penso que a reflexão é inerente a vivacidade de viver e não, não estou sendo redundante. Através de experiências pessoais, minhas e apenas minhas, viver é refletir. Tenho a sensação de refletir no banho, enquanto estudo, andando pelas ruas, dando aulas, planejando aulas e até mesmo quando durmo. Tenho uma mente inquieta que borbulha reflexões. Tenho a sensação de refletir 25 horas por dia.
Não sabia lidar com essa inquietação. Hoje 09 de julho de 2023 ainda não sei, mas aprendi a gostar, compreender e lidar melhor com esses bombardeios de reflexões. Agora, percebo que essa característica que julgo peculiar faz parte do que sou, da formação do “eu”. As reflexões me levam a lugares de encantamentos, lugares utópicos e um mundo ideal. Mundo em que há festas de aniversários todos os dias com pessoas que amo. Mundo em que a educação é uma ferramenta contra o preconceito e todos estão abertos a lidar com as diferenças e pluralidades. Um mundo em que não há mortes por apenas ser o “eu”. Sei, sei… Sei que é uma utopia. Sei que é descolado da realidade.
Eu sou de sentir muitas coisas e sinto muito! Eu sou uma pessoa hiperbolizada! Ou melhor, sou uma pessoa de amores hiperbolizados. Um desses “sentires” são as reflexões, o mundo das ideias: mundo virtuoso, perfeito, incorruptível assim como Platão já dizia. É nesse lugar que minha alma vive e é pra lá que vou sempre que posso e quando não posso também. É o meu lugar preferido! Como minha psicóloga diz, vou pra lá inconscientemente. E, me descolo dessa realidade. Uma realidade que conto mais tarde para vocês. Porque agora, ainda prefiro ficar no mundo das ideias e sempre preferirei.
Na verdade, é graças a dicotomia entre realidade x mundo das ideias que fez com que o ideal fosse meu refúgio favorito. Desde que eu era criança me percebia sonhando acordado e contando com experiências inimagináveis, ou melhor, muito imagináveis. Nadando com orcas, estando sentado em cima de dinossauros herbívoros, o Diplodoco, para ser mais específico. Mas, fui crescendo e os meus anseios eram de justiças sociais, de discursos de igualdades e de uma feliz aceitação do “eu”. Amor, famílias, alunos, conhecimento, amor (de novo), aceitação, felicidade, resistência são algumas das palavras-chave de meu mundo das ideias.
Foi nesse mundo que me acolhi e pude esquecer um pouco mais das feridas rasgadas, vermelhas, sangrando e com os ossos expostos que a realidade me fez. São feridas com nomes de familiares, nomes dogmáticos, nomes de representantes do bem, do certo, da lei, das convenções estabelecidas, do ódio, da falta de conhecimento, da ignorância e acima de tudo, a ausência de amor.
Uma vez assisti um filme que se tornou o meu preferido, com a seguinte fala: “O mundo só existe por causa do amor, sem amor não há nada… Tudo o que você precisa é de amor. Oh! All you need is love!” Essa frase foi essencial na formação do meu mundo ideal. Já no mundo real, enquanto a pele vai se rasgando, as dores são fortes, mas você se confunde entre as dores da pele com as dores das angústias. Não sei ao certo qual é a pior, acho que não sei nem distinguir. Os ossos vão ficando cada vez mais à mostra, primeiro são nos braços, posteriormente nas pernas, depois no peito e por fim na face. Então a ferida que era pequena, discreta e possível de se esconder, fica à mostra, evidente, feio, grande, com deformidades… As pessoas percebem, falam, comentam… Há o prazer de falar e a inexistência de vontade de ajudar a sarar.
É nesse momento que se é necessário ter cuidado para não virar um monstro. Sim, um monstro! Não somos, mas fica-se tão rasgado, ferido, machucado que há uma deformação do que somos. Afinal, “Joga pedra na Geni!” E, os mesmos que feriram, rasgaram, açoitaram, machucaram, humilharam exigem que nos curemos. Apontam o dedo gritando: “Olha um monstro!”. E, de fato, precisamos nos curar. Mas, não do que se é, e sim o que nos fizeram. E por que nos curar? Há amor? Então não pode haver ódio! Há ódio? Então não pode haver amor. E, eu escolho “Tudo o que você/eu precisamos é de amor. Oh! All you need is love!”
O sarar das feridas demandam desintoxicação, local limpo, arejado, gaze, soro, água, frescor, autocuidado, amor e principalmente distanciamento de quem as causaram. É um processo. Enquanto rasgar, machucar pode levar segundos, sarar pode levar semanas, meses, anos ou até mesmo uma vida inteira. É essa a escolha do amor. Sem facilidades, sem atalhos. Cada etapa do processo de cura é um aprendizado diferente.
Resolvi escrever essa reflexão, não sei nem se posso chamar de crônica, mas irei me atrever… Resolvi escrever essa crônica após assistir a animação “Nimona”. Sempre que assisto ou presencio ambientes e cenas que me comovem, sinto que há um apogeu de emoções, reflexões e o mundo das ideias transborda para o mundo real. Foi assim que resolvi escrever esse texto que se trata da personificação do mundo ideal num mundo real.
Avila, Emanuel.

Autor:
Emanuel Carvalho da Silva Avila.