Uma experiência com a Ibogaína

Passava das cinco da manhã quando Lene despertou. Estava muito ansiosa, pois, naquele dia, ia viajar para a cidade de Gato Preto em busca de uma solução para seu problema com adicção. Na verdade, estava mais à procura de um milagre em sua vida, uma vez que havia tentado todas as possibilidades de se ver livre do vício e não tinha tido nenhum sucesso.
Obstinada, pesquisou muito sobre o tratamento que ia fazer e ficou com um frio na barriga por imaginar que se submeteria ao tratamento com ibogaína.
De acordo com o flyer, “a ibogaína vem de uma planta da parte central do continente africano, popularmente conhecida como iboga, sendo o princípio ativo da planta conhecida como ibogaína. Essa planta tem seus registros de uso datado desde a pré-história em rituais, por conta de seu efeito alucinógeno. A ibogaína tem sido estudada como uma terapia potencial para auxiliar no tratamento da dependência química, mostrando resultados promissores na redução dos sintomas de abstinência e no apoio à recuperação de vícios”.
O tratamento prometia promover o equilíbrio dos neurotransmissores e, na linguagem popular, se tratava de um reset no cérebro, onde as memórias, em relação ao vício, seriam apagadas.
Ao ler sobre todos os pré-requisitos para se submeter a esse tratamento, Lene sentiu-se pronta e esperançosa.
Estava cansada de sofrer pelas escolhas que havia feito outrora e queria muito a oportunidade de fazer diferente em sua vida.
Ao chegar ao hospital, que ficava distante da capital, Lene buscou todas as forças necessárias para seguir adiante.
Ao se deparar com aquele hospital completamente vazio, pois a equipe médica fazia um trabalho individualizado, ela sentiu um certo receio por ver um quarto de branco, vestida de branco, sem nenhum paciente além dela.
Ao tomar a medicação, e por aproximadamente doze horas de intensa experiência de perguntas e respostas, sentiu um misto de sentimentos dentro de si: medo, angústia, adrenalina e expectativa.
Lembrou-se, então, do que seu psicólogo havia lhe dito antes de internar: “leve papel e caneta para anotar tudo o que está sentindo.”, mas ela não deu atenção a isso, o que se arrependeu depois porque com a experiência vivida, teria condições de escrever, pelo menos, uns quatro livros sobre esse momento.
Durante o transe, Lene conseguiu ver o primeiro brinquedo que ganhara ainda quando era criança. As lembranças tomaram conta da cabeça dela construindo uma plataforma de imagens com todas as lembranças de sua vida e uma voz ao fundo respondendo a tudo. A experiência vivida por Lene, remetia à sensação de estar ouvindo a voz do ser supremo, que uns chamam de Deus, outro de Jah, de subconsciente, força da natureza, mas o que importava é que a deixavam extremamente segura e era reconfortante descobrir o porquê daquilo tudo. Ela, então, se deparou com o sofrimento da primeira escolha que fizera quando ainda era jovem de usar substâncias químicas que a levaram a estar ali.
Depois de todas as lembranças do que vivera em sua vida, veio o apagão.
Ao despertar, Lene teve a sensação de estar “limpa” de todos os entulhos de suas escolhas.
Passados alguns meses depois, ela se lembrava vagamente da experiência que havia tido com as drogas, mas nada que lhe apetecesse a necessidade de experimentar novamente aquela sensação.
De fato, o tratamento havia dado resultados positivos e ela pode, enfim, reescrever sua história, agora, sem vícios.
Autora:
Patricia Lopes dos Santos